Capítulo 16

1057 Palavras
O Som da Vida Alice acordou naquela manhã com um nó diferente no peito. Não era medo exatamente. Era expectativa. Um misto de ansiedade, curiosidade e algo que ela ainda não sabia nomear. A consulta estava marcada havia dias, mas só agora, com o sol entrando tímido pela janela, a realidade se impunha de verdade. Ela iria ouvir o coração do bebê. Pela primeira vez. Alice levou a mão ao ventre ainda discreto, respirando fundo. Chad observava da cama, espreguiçando-se preguiçosamente, como se aquele fosse apenas mais um dia comum. Para ela, não era. Olyver já estava acordado. Ela percebeu pelo som baixo vindo da cozinha, o cuidado de sempre para não fazer barulho demais. Quando ele apareceu à porta do quarto, parou imediatamente ao vê-la sentada. — Bom dia — disse, com um sorriso contido. — Bom dia — respondeu ela. Ele se aproximou um pouco, mantendo aquela distância respeitosa que já fazia parte deles. — Dormiu bem? — Sim — respondeu ela. — Acho que foi a primeira noite inteira em dias. Olyver assentiu, satisfeito. — A consulta é às dez — disse ele. — Temos tempo. Alfredi já deixou tudo organizado. Alice levantou-se devagar. Olyver observou com atenção, pronto para ajudar se fosse preciso, mas não se antecipou. Ela gostava disso: da escolha. — Você não precisava marcar na melhor clínica — disse ela, enquanto calçava os sapatos. — Precisava sim — respondeu ele, sem hesitar. — Você merece o melhor. Alice o encarou por um instante, sem saber exatamente o que responder. Aquela frase não vinha carregada de ostentação, mas de convicção. O caminho até a clínica foi silencioso, mas confortável. O carro deslizou pelas ruas com suavidade. Alice observava a paisagem passar, sentindo o coração bater um pouco mais rápido a cada quarteirão. Olyver dirigia com atenção incomum, como se cada semáforo fosse parte de algo importante demais para ser apressado. — Você está nervosa? — perguntou ele, quebrando o silêncio. — Um pouco — admitiu ela. — E você? Ele sorriu de leve. — Muito. Ela o olhou surpresa. — Você disfarça bem. — Aprendi cedo — respondeu. — Mas hoje… não dá muito. A clínica era exatamente como ele dissera: impecável, silenciosa, acolhedora. Nada de frio excessivo, nada de pressa. Tudo parecia pensado para tranquilizar. Alice sentiu um leve aperto ao entrar, e Olyver percebeu. — Estou aqui — disse ele, baixo. Ela assentiu. Na sala de espera, sentaram-se lado a lado. Alice segurava os documentos com cuidado, como se fossem frágeis. Olyver mantinha as mãos apoiadas nas próprias pernas, mas o corpo levemente inclinado em direção a ela, atento. Quando chamaram seu nome, Alice respirou fundo. — Senhorita Madson — disse a enfermeira, sorridente. — Pode entrar. O pai pode acompanhar. Alice olhou para Olyver. — Você quer? — perguntou, ainda dando-lhe a escolha. — Quero — respondeu ele, sem pensar. — Mas só se você quiser. Ela assentiu. O consultório era claro, confortável. O médico cumprimentou-os com profissionalismo, revisando rapidamente os exames anteriores. — Como você tem se sentido? — perguntou a Alice. — Melhor — respondeu. — Tenho seguido o tratamento direitinho. — Ótimo — disse ele. — Hoje vamos ouvir o coraçãozinho. Alice sentiu as mãos suarem levemente. Deitou-se na maca, ajeitando-se com cuidado. Olyver ficou ao lado, atento a cada movimento, mas sem tocar. O médico preparou o aparelho, explicando cada passo com calma. — Pode ser um pouco gelado — avisou. Alice assentiu, os olhos fixos no teto. O silêncio se instalou por alguns segundos, quebrado apenas pelo som baixo do equipamento sendo ajustado. Então aconteceu. Um som rápido, firme, ritmado. Tum-tum-tum-tum. Alice prendeu a respiração. — Esse é o coração do seu bebê — disse o médico, sorrindo. Alice sentiu o mundo desaparecer por um instante. Aquele som não era abstrato. Não era teoria. Não era exame no papel. Era vida. Era real. Estava ali, dentro dela, pulsando com força. Ela levou a mão à boca, os olhos marejando. — É… tão rápido — murmurou. — Bebês têm o coraçãozinho acelerado mesmo — explicou o médico. — Está perfeito. Olyver não conseguiu se conter. Os olhos arderam. Ele deu um passo à frente, quase sem perceber. — Posso…? — perguntou, a voz falha. Alice estendeu a mão sem tirar os olhos do aparelho. Ele segurou. O toque foi firme, emocionado. O som continuava ecoando pela sala, preenchendo tudo. Tum-tum-tum. Naquele momento, algo se encaixou dentro dele. Não era apenas responsabilidade. Não era apenas culpa. Era vínculo. — É nosso — ele disse, quase sem som. Alice assentiu, as lágrimas escorrendo sem vergonha. — É — respondeu. O médico desligou o aparelho após alguns instantes, dando espaço para que respirassem. — Está tudo indo muito bem — disse ele. — Com os cuidados certos, teremos uma gestação tranquila. Alice sentou-se devagar. Olyver soltou a mão dela apenas quando ela se ajeitou, mas permaneceu perto. — Parabéns — disse o médico, sincero. Ao saírem do consultório, Alice sentia-se diferente. Mais leve. Mais forte. Como se algo dentro dela tivesse se organizado. No corredor, ela parou de repente. — Olyver. — Sim? Ela o encarou, os olhos ainda brilhando. — Obrigada por estar aqui. Ele respirou fundo. — Obrigado por me deixar estar. Ela deu um pequeno sorriso. No caminho de volta, o silêncio voltou, mas era outro. Não era vazio. Era cheio de significado. Olyver dirigia com ainda mais cuidado. Alice apoiava a mão sobre o ventre, repetindo mentalmente aquele som, como se quisesse guardá-lo para sempre. Tum-tum-tum. Vida. Quando chegaram em casa, Alice sentou-se no sofá, cansada, mas serena. Olyver trouxe água, ajudou-a a se acomodar. — Você está bem? — perguntou. — Estou — respondeu ela. — Melhor do que achei que estaria. Ele sentou ao lado dela, mantendo a distância habitual. — Eu nunca vou esquecer aquele som — disse ele. — Nem eu. Eles ficaram ali por alguns minutos, apenas respirando. Naquele dia, Alice entendeu algo importante: o bebê deixara de ser apenas uma ideia protegida dentro dela. Agora tinha som. E Olyver, ao ouvi-lo, deixara de ser apenas alguém que ficava. Tornara-se, de verdade, pai. E, entre eles, algo silencioso, profundo e inevitável começava a se firmar — não por promessas, mas por presença, cuidado e aquele coração pequeno que batia forte, lembrando-os de que a vida seguia. E seguiria.
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