Capítulo 15

1021 Palavras
O Segundo Mês O segundo mês começou sem anúncio. Não houve uma conversa formal, nem promessas, nem decisões ditas em voz alta. Apenas aconteceu — como as coisas mais delicadas costumam acontecer. Um ajuste silencioso entre dois corpos que ainda aprendiam a dividir o mesmo espaço, o mesmo tempo, a mesma realidade. Alice percebeu primeiro nos detalhes. No jeito como já não se enrijecia quando Olyver se aproximava demais. No fato de que não contava mais os passos dele dentro do apartamento. No modo como o coração, antes sempre em alerta, agora batia de forma mais tranquila quando ouvia a porta se abrir. Ela ainda tinha limites. Muitos. E eles continuavam sendo respeitados. Mas algo havia mudado. Naquela manhã específica, Alice estava sentada à mesa da cozinha, tomando o café com leite que Alfredi preparara antes de sair para resolver algo no prédio. O cheiro era suave, reconfortante. Olyver estava encostado na pia, observando-a com aquela atenção silenciosa que se tornara habitual. — Está enjoada hoje? — ele perguntou. — Um pouco — respondeu ela. — Mas passa. Ele assentiu, sem insistir. Aprendera a não dramatizar, a não transformar cada pequeno desconforto em alarme. Quando ela terminou de beber, levantou-se com cuidado. Olyver se aproximou por instinto, pronto para ajudar, mas parou a meio passo. Alice percebeu. — Pode segurar — disse ela, estendendo a mão. Olyver congelou por uma fração de segundo. Depois, com cuidado quase reverente, segurou a mão dela. Não apertou. Não puxou. Apenas esteve ali. A pele dela era quente. Pequena dentro da dele. Alice sentiu o contato de forma clara, consciente, e, pela primeira vez desde tudo, não sentiu culpa imediata. Apenas… aceitação. — Obrigada — disse, quando se sentou no sofá. Ele soltou a mão dela devagar, como se não quisesse quebrar algo invisível. Esses pequenos gestos começaram a se repetir. Um abraço breve quando ela acordava de um sonho r**m, agora sem gritos, apenas com aquele olhar perdido que ele reconhecia. Um beijo rápido na testa antes de ele sair para resolver algo fora. A mão dele apoiada nas costas dela quando caminhavam pelo corredor do prédio, agora silencioso e reformado. Alice permitia. Não porque tivesse esquecido. Não porque tivesse perdoado tudo. Mas porque começava a confiar naquele agora. Olyver, por sua vez, sentia-se em constante vigilância consigo mesmo. Cada gesto era medido. Cada aproximação, um pedido silencioso. Ele jamais avançava um centímetro além do que ela permitia. E, ainda assim, sentia que algo profundo se construía. Às vezes, à noite, sentavam-se no sofá para ver algo sem realmente prestar atenção. Chad ocupava o espaço entre eles, como se fosse um guardião oficial daquele território delicado. Alice encostava o ombro no dele. Nada mais. Mas aquilo bastava para acelerar o coração de Olyver de um jeito que ele não ousava demonstrar. — Você está cansada — ele dizia. — Um pouco — ela respondia. — Mas gosto de ficar aqui. Ele sorria de leve, sem olhar diretamente para ela. Em uma tarde de domingo, Alice sentiu uma tontura leve ao levantar. Não foi grave, mas suficiente para fazê-la parar. Olyver estava ao lado em segundos. — Ei — disse, segurando-a pelos braços. — Devagar. Ela respirou fundo, fechando os olhos por um instante. — Já passou. Ele não soltou imediatamente. — Posso te abraçar? — perguntou, baixo. Alice abriu os olhos e assentiu. O abraço foi simples. Sem aperto. Sem urgência. Apenas um encaixe cuidadoso, como se ambos estivessem testando a resistência de algo novo. Alice apoiou o rosto no peito dele, sentindo novamente aquele calor que já conhecia. Não houve lembrança r**m. Não houve imagens intrusivas. Apenas o som do coração dele, firme, presente. — É diferente — ela murmurou, quase sem perceber. — O quê? — ele perguntou. — Agora — respondeu. — Não dói. Olyver fechou os olhos por um segundo, contendo tudo o que aquela frase despertava. — Fico feliz — disse apenas. Naquele mês, Alice começou a tocar o próprio ventre com mais frequência. O gesto, antes inconsciente, agora vinha acompanhado de pequenos sorrisos distraídos. Olyver observava de longe, respeitando aquele espaço que ainda era só dela. Até o dia em que ela chamou. — Olyver. — Sim? — Quer… — ela hesitou. — Quer sentir? Ele não respondeu de imediato. — Só se você quiser — disse, com cuidado. Ela assentiu. Olyver se aproximou devagar e ajoelhou-se à frente dela. Não tocou de imediato. Esperou. Alice pegou a mão dele e a guiou até sua barriga ainda discreta. O toque foi leve, quase simbólico. — Ainda não mexe — disse ela. — Mas está aí. Olyver sentiu algo diferente de tudo o que já sentira na vida. Não era euforia. Era responsabilidade pura, crua, profunda. — Eu sei — respondeu. — E eu fico. Alice olhou para ele por um longo momento. — Eu sei — repetiu. Naquela noite, quando ela teve dificuldade para dormir, foi até a sala por conta própria. Olyver estava lendo algo no tablet, mas largou tudo ao vê-la. — Pesadelo? — perguntou. — Não — respondeu ela. — Só… inquieta. Ele abriu espaço no sofá. Alice sentou-se ao lado dele e, sem dizer nada, pegou a mão dele novamente. Entrelaçou os dedos com os dele, de forma simples, quase tímida. Olyver respirou fundo, sentindo o peso e a beleza daquele gesto. — Se em algum momento isso ficar pesado — disse ele —, você me diz. — Eu direi — respondeu ela. — Mas agora… isso me acalma. Ele inclinou-se levemente e beijou a testa dela. Um gesto rápido, respeitoso, quase casto. Alice fechou os olhos por um instante. Não houve faísca explosiva. Não houve promessas. Houve construção. No fim daquele segundo mês, Alice percebeu algo que a assustou e confortou ao mesmo tempo: ela já não pensava em Olyver apenas como o homem que a ferira, nem apenas como o pai de seu filho. Ele se tornara presença. E, aos poucos, com mãos dadas, abraços permitidos e beijos na testa, algo novo crescia ali — tão real quanto a vida que se formava dentro dela. Sem pressa. Sem apagamentos. Apenas verdade.
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