Capítulo 14

1024 Palavras
Quando a Manhã Confirma Alice acordou devagar, como quem retorna de um lugar distante. A primeira sensação foi o calor. Não um calor incômodo, mas acolhedor, firme, constante. Um calor que envolvia suas costas, seu ombro, como um cobertor humano. Por alguns segundos, ela ficou imóvel, o coração acelerando levemente, tentando entender onde estava, tentando separar sonho de realidade. Então respirou fundo. O cheiro era real. Um cheiro masculino, discreto, conhecido. Não era perfume forte, nem algo artificial. Era Olyver. O mesmo cheiro que ela já percebera outras vezes, misturado agora ao silêncio da madrugada que se desfazia. Alice abriu os olhos. A luz suave da manhã entrava pela fresta da cortina, desenhando sombras claras no quarto. Ela estava deitada de lado, a cabeça apoiada no peito dele, o braço de Olyver envolto ao redor de seu corpo de forma protetora, mas solta o suficiente para não aprisionar. Não foi sonho. Ele estava ali. De verdade. O coração dela bateu mais forte, não de susto, mas de reconhecimento. A memória da noite voltou aos poucos — o pesadelo, o grito, o medo sufocante, e depois… o alívio. A voz dele. O abraço. A segurança que viera sem cobrança. Ela não se mexeu. Ficou apenas sentindo. O ritmo da respiração dele era tranquilo. O peito subia e descia num compasso que, agora ela percebia, tinha sido o que a fizera adormecer de novo. A mão dele repousava perto de suas costas, respeitosa, imóvel. Alice sentiu os olhos arderem levemente, não de tristeza, mas de algo que se parecia perigosamente com gratidão. Ela não estava sozinha. Olyver abriu os olhos lentamente. O primeiro reflexo foi de atenção — como se o corpo dele estivesse sempre pronto para reagir a qualquer sinal dela. O segundo foi de surpresa silenciosa ao perceber que ela o observava. Os olhares se encontraram. Por um instante, nenhum dos dois falou. O tempo pareceu suspenso naquele espaço mínimo entre respirações, onde não havia passado nem futuro, apenas aquele agora delicado. — Bom dia — disse ele, por fim, a voz baixa, ainda carregada de sono. — Bom dia — respondeu Alice, quase num sussurro. Ela se moveu um pouco, como se só então percebesse a posição em que estavam. Olyver imediatamente afrouxou o braço, dando espaço. — Se você quiser… — começou ele, mas parou. Alice não se afastou. — Eu tive um pesadelo — disse ela, desnecessariamente. — Eu sei — respondeu ele, com suavidade. — Você estava assustada. — Você veio — ela continuou. — Não foi imaginação. — Não — confirmou ele. — Eu vim. Ela respirou fundo, sentindo novamente o calor dele, agora com plena consciência. Seu corpo reagiu de forma confusa — não com medo, mas com um conforto que a desarmava. — Eu dormi aqui — murmurou. — Dormiu — disse ele. — E você precisava. Alice fechou os olhos por um instante, apoiando-se um pouco mais no peito dele, como se testasse se aquilo ainda era permitido. — Obrigada — disse, simples. Olyver sentiu algo se apertar dentro do peito. Aquela palavra, dita daquele jeito, tinha mais peso do que qualquer acusação, mais impacto do que qualquer cobrança. — Você não precisa agradecer — respondeu. — Cuidar de você… não é um favor. Ela abriu os olhos novamente. — Mesmo assim — insistiu. — Obrigada por não ir embora quando eu acordei. — Eu não iria — disse ele, com firmeza calma. Alice observou o rosto dele com mais atenção agora. A barba por fazer, os traços cansados, o olhar menos duro do que costumava ser. Ele parecia… humano. Não o homem inalcançável do escritório. Não o chefe poderoso. Apenas alguém que passara a noite acordado por ela. — Você ficou acordado? — perguntou. — Um pouco — admitiu. — Depois dormi também. — No sofá seria mais confortável. — Não naquele momento — respondeu ele. Ela sentiu um leve rubor subir pelo rosto. — Eu invadi seu espaço — disse. — Você pediu abrigo — corrigiu ele. — Eu dei. O silêncio voltou a se instalar, mas agora era diferente. Não pesado. Não tenso. Era um silêncio que permitia existir. Alice se mexeu com cuidado, sentando-se devagar. Olyver acompanhou o movimento, atento a qualquer sinal de m*l-estar. — Como você está? — perguntou. Ela colocou a mão no peito, respirou fundo, avaliando. — Melhor — respondeu. — Meu coração está calmo. Ele assentiu, aliviado. — Quer água? — perguntou. — Ou quer ficar mais um pouco? Ela pensou por um instante. — Só mais um pouco — disse, deitando novamente, desta vez de frente para ele, mas mantendo uma pequena distância. Olyver não se aproximou. Apenas ficou ali, disponível. — Eu achei que você fosse embora depois que eu dormisse — confessou ela. — Eu pensei nisso — admitiu. — Mas você estava tranquila. Não quis quebrar isso. Alice o observou longamente. — Às vezes eu acordo achando que você não está aqui de verdade — disse. — Que é só minha cabeça tentando se sentir segura. — Eu estou — respondeu ele. — Mesmo quando você não me vê. Ela engoliu em seco. — Isso me assusta um pouco. — A mim também — disse ele, honesto. — Mas não no sentido r**m. Ela fechou os olhos novamente, sentindo o cansaço ainda presente, mas agora misturado a algo mais leve. — Fica comigo até eu levantar? — pediu, quase sem perceber. — Fico — respondeu ele, sem hesitar. E ficou. Quando o sol subiu mais alto e o dia começou oficialmente, Alice se levantou com cuidado. Olyver a acompanhou até a cozinha, preparou algo simples, observou enquanto ela tomava a medicação. Nada foi dito sobre a noite além do necessário. Mas algo tinha mudado. Ela agora sabia. Quando a escuridão voltava, quando a memória tentava dominá-la, ele não era apenas uma lembrança dolorosa do passado. Era alguém que ficava. E Olyver, enquanto a observava sentada à mesa, soube que aquela manhã tinha marcado algo irreversível dentro dele. Não porque ela dormira em seus braços. Mas porque, ao acordar, ela escolhera não se afastar. E isso, mais do que qualquer outra coisa, significava tudo.
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