Quando a Noite Volta
O grito rasgou o silêncio como um corte seco.
— Não… não… para!
Olyver despertou num sobressalto, o coração disparado antes mesmo de entender. Levantou do sofá num salto, descalço, o corpo reagindo antes do pensamento. O som vinha do quarto. Da voz dela.
— Alice — chamou, já caminhando rápido pelo corredor curto. — Alice, sou eu.
A porta estava entreaberta. A luz do abajur permanecia apagada, mas a lua desenhava sombras claras nas paredes. Alice se contorcia na cama, o rosto marcado por pavor, as mãos cerradas no lençol como se tentasse se agarrar a algo que escapava.
— Não… — ela repetia, sufocada. — Por favor…
Olyver parou por um segundo à porta. Lembrou-se do que prometera. Dos limites. Do cuidado que precisava ser escolha, nunca imposição. Mas aquele não era um momento comum. Era a noite voltando para buscá-la.
— Alice — disse, aproximando-se da cama, a voz baixa, firme. — Você está segura. Eu estou aqui.
Ela não ouviu. Ou ouviu e não reconheceu. O corpo arqueou num espasmo, e um soluço escapou, cru.
— Para! — gritou, a voz quebrada.
Olyver sentiu o peito doer. Aquilo não era sonho comum. Ele sabia. Reconhecia os sinais: o terror que não se dissipa, a luta invisível, a repetição. Era memória travestida de pesadelo.
— Posso te tocar? — perguntou, com cuidado, mesmo sabendo que talvez ela não respondesse. — Alice, sou eu. Olyver. Você está aqui. Agora.
Ela balançou a cabeça, ainda presa à cena que a mente reproduzia. Olyver estendeu a mão lentamente e pousou com delicadeza no antebraço dela, sem apertar, sem invadir.
— Está tudo bem — repetiu. — Respira comigo.
Ela puxou o ar de forma irregular, como quem tenta voltar à superfície depois de muito tempo submersa. O corpo tremia.
— Não… — murmurou, agora mais baixo. — Não…
Olyver aproximou-se mais, sentando-se na beira da cama.
— Olha pra mim, Alice — pediu, com uma firmeza doce. — Abre os olhos. Você está segura.
Os olhos dela se abriram de repente, arregalados, perdidos. Demoraram alguns segundos para encontrá-lo de verdade. Quando o foco se ajustou, o choro veio — silencioso, profundo, como se nascesse de um lugar antigo.
— Olyver… — disse, a voz frágil.
— Eu estou aqui — respondeu ele, imediatamente.
Ela se sentou de supetão, respirando rápido demais. Olyver ergueu as mãos, visíveis.
— Posso te segurar? — perguntou outra vez, respeitoso. — Só se você quiser.
Alice hesitou. O corpo ainda estava em alerta, mas havia ali um cansaço maior do que o medo. Ela assentiu com um movimento mínimo de cabeça.
Olyver a envolveu com cuidado, como quem segura algo quebrado e precioso ao mesmo tempo. Um braço firme, o outro solto o suficiente para que ela pudesse se afastar se quisesse. Nada de pressa. Nada de força.
Ela se agarrou à camisa dele como se o tecido fosse a única coisa sólida no mundo. O choro ganhou som, um soluço preso, infantil, dolorido. Olyver fechou os olhos por um instante, sentindo o peso daquilo tudo — não como culpa apenas, mas como responsabilidade inescapável.
— Eu vi tudo — ela murmurou, entre lágrimas. — De novo…
— Eu sei — respondeu ele, sem pedir detalhes. — Você não está lá. Está aqui. Comigo. Agora.
Ele guiou a respiração, lenta, profunda, para que ela acompanhasse. Sentiu quando o ritmo dela começou a diminuir, quando o corpo parou de lutar contra algo que já passara.
— Foi só um sonho — disse ela, a voz falhando.
— Foi uma lembrança — corrigiu ele, com cuidado. — E lembranças também doem. Mas passam.
Ela respirou fundo outra vez, apoiando a testa no peito dele. O coração de Olyver batia firme, constante. Ela sentiu o som, o ritmo, como um farol no escuro.
Aos poucos, o tremor cessou.
Alice permaneceu ali, aninhada sem perceber. Olyver não se moveu. Não ousou quebrar aquele equilíbrio delicado. Passou a mão pelos cabelos dela com extremo cuidado, parando sempre que sentia o corpo dela se enrijecer, retomando quando relaxava.
— Desculpa — ela murmurou, quase dormindo. — Eu não queria…
— Não peça desculpa — interrompeu ele, baixo. — Nunca por isso.
Ela respirou fundo, mais uma vez. O peso do corpo foi cedendo, como se finalmente permitisse o descanso. A mão que segurava a camisa dele afrouxou.
Alice dormiu ali.
No peito dele.
Olyver sentiu o mundo se alinhar por um segundo estranho e intenso. Aquela sensação — de protegê-la sem pedir nada, de ser abrigo sem possuir — foi a melhor que já sentira. Não havia triunfo. Não havia desejo. Havia paz.
Ele permaneceu imóvel, atento a cada respiração dela. A noite avançou, lenta. Chad apareceu à porta do quarto, avaliou a cena e saltou para a cama, acomodando-se aos pés dela, satisfeito.
Olyver sorriu, quase sem perceber.
Pensou em como ela acordaria. Em como explicaria, se fosse preciso. Em como respeitaria o que viesse depois. Mas, por ora, nada disso importava.
Ela estava calma.
Ela estava segura.
E ele estava ali.
Quando a madrugada começou a clarear, Alice se mexeu levemente. Olyver sentiu e ajustou o braço com cuidado, sem despertá-la. O corpo dela buscou mais um pouco de contato, instintivo, e então aquietou de novo.
Ele fechou os olhos, permitindo-se sentir aquela paz rara, sabendo que talvez fosse breve, talvez fosse a única daquela forma.
Mas era real.
E, naquela noite em que o passado tentou arrastá-la de volta, eles haviam ficado.
Juntos.
Sem pressa. Sem promessas. Apenas presença.
E isso, por ora, era tudo.