Capítulo 27

899 Palavras
Cherry Olyver voltou para casa naquela tarde com algo diferente nas mãos. Não era uma sacola de farmácia, nem documentos da empresa, nem flores formais como costumava ver nos jantares de negócios. Era um livro. Discreto, capa clara, título elegante, quase tímido — mas ele sabia exatamente o peso que aquilo tinha. Alice estava sentada no sofá, Chad enroscado ao seu lado, lendo algo no tablet quando percebeu a presença dele. — Chegou cedo hoje — comentou, sorrindo de leve. — Resolvi encerrar tudo mais cedo — respondeu ele. — Queria ficar com você. Ela fechou o tablet e o observou se aproximar. Olyver parecia… nervoso. Era estranho vê-lo assim, um homem que comandava empresas, negociava milhões, mas que agora hesitava como um garoto. — Está tudo bem? — perguntou Alice. Ele sentou-se à frente dela, apoiando o livro sobre a mesa, mas sem empurrá-lo ainda em sua direção. — Eu trouxe algo para você — disse. Alice franziu levemente a testa. — Um presente? — Um convite — corrigiu ele, com um meio sorriso. Ela olhou para o objeto, ainda sem tocar. — Posso? — perguntou. — Claro. Quando Alice pegou o livro e leu o título, seus olhos se arregalaram por um segundo. Depois, imediatamente, o rosto começou a corar. Não era um vermelho discreto. Era aquele tom quente, vivo, que subia pelo pescoço e tomava as bochechas. Olyver sorriu. — Eu sabia — comentou. — Igual a uma cereja. — Olyver… — ela murmurou, fechando o livro rapidamente, como se alguém pudesse aparecer do nada. — Você ficou louco? — Não — respondeu, tranquilo. — Pensei muito antes de trazer. Ela ainda estava vermelha, e isso só o fez sorrir mais. — Você não precisa ler agora — continuou ele. — Nem hoje. Nem se não quiser. Mas achei que poderia te ajudar a entender coisas que ninguém nunca te explicou. Alice passou o polegar pela capa, nervosa. — É sobre… — ela fez um gesto vago com a mão — prazer. — Feminino — completou ele. — Sobre o seu corpo. Seus limites. Seus desejos. Tudo no seu tempo. Ela respirou fundo. — Isso me deixa… constrangida. — Eu sei — disse ele. — E é exatamente por isso que é só um livro. Não é uma cobrança. Não é um manual para mim. É para você. Alice levantou os olhos para ele. — Você não quer… — ela hesitou — que eu leia por sua causa? — Quero que você leia por você — respondeu ele, firme. — Para saber que seu corpo não é errado. Que sentir curiosidade é normal. Que prazer não é algo sujo. Ela sentiu um nó se formar na garganta. — Ninguém nunca falou isso comigo — confessou. — Então deixa esse livro falar — disse ele suavemente. — Ele explica com respeito. Sem vulgaridade. Como algo que faz parte da vida. Alice abriu o livro de novo, só algumas páginas. Bastou um parágrafo para que o rosto dela ficasse ainda mais vermelho. — Meu Deus… — murmurou. — Cherry — corrigiu ele, divertido. Ela fechou o livro de novo, escondendo o rosto atrás dele. — Para! — reclamou, mas havia riso em sua voz. — Eu gosto quando você fica assim — admitiu. — Parece… viva. Ela baixou o livro devagar. — E se eu aprender coisas que… — ela engoliu em seco — que eu nunca pensei? — Então você vai estar aprendendo — respondeu ele. — E conhecimento nunca fez m*l a ninguém. Alice apoiou o livro no colo. — Você vai querer falar sobre isso depois? — perguntou, cautelosa. — Só se você quiser — disse ele. — Podemos conversar. Ou não. Podemos fingir que é só um livro na estante. Ela observou o jeito dele, tão calmo, tão distante daquele homem que um dia a fez sentir medo. — Você está sendo muito paciente comigo — disse. — Porque você merece — respondeu ele. — E porque eu quero que tudo que exista entre nós seja escolhido. Não imposto. Alice fechou os olhos por um instante. — Eu acho que vou ler — disse, enfim. — Aos poucos. Talvez escondida. — Fique à vontade — respondeu ele, rindo baixo. — Prometo não espiar. Ela levantou-se do sofá com cuidado e foi até a estante. Colocou o livro entre dois outros, como se o estivesse protegendo. — Ele vai ficar ali — disse. — Até eu criar coragem. — Estará esperando — respondeu Olyver. Quando ela voltou, ele segurou a mão dela de leve. — Obrigada — disse Alice. — Por não ter pressa comigo. — Obrigado você — respondeu ele — por confiar em mim. Ela sorriu, ainda corada. — E sobre esse apelido… — começou ela. — Cherry? — Não repete — reclamou, mas rindo. — Não prometo — disse ele. — Porque você fica linda quando fica vermelha. Ela balançou a cabeça, derrotada. Naquela noite, Alice deitou-se mais cedo. Não abriu o livro. Apenas ficou pensando. Pensando que, pela primeira vez, alguém não queria seu corpo por direito ou posse — queria que ela o conhecesse. E isso, para ela, era o começo de algo tão novo quanto assustador. Mas, pela primeira vez, não havia medo. Apenas curiosidade. E um rubor quente que surgia sempre que ela lembrava do sorriso de Olyver e do jeito carinhoso com que ele a chamava: Cherry.
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