Capítulo 26

943 Palavras
Aprender Sem Medo Olyver sabia. Sabia pelo jeito que Alice às vezes ficava quieta demais. Pelo modo como o corpo dela enrijecia quando o assunto chegava perto demais do que ainda era desconhecido. Sabia porque, apesar dos beijos na testa, dos abraços demorados e das mãos dadas, havia uma linha invisível que ela ainda não atravessara. E ele não queria empurrá-la. Naquela noite, o apartamento estava silencioso. Chad dormia enroscado na poltrona, a chuva fina batia na janela, e Alice estava sentada no sofá com uma manta leve sobre as pernas. Olyver preparava um chá na cozinha, em movimentos mais lentos do que o habitual, como se também estivesse organizando os próprios pensamentos. Quando voltou, entregou a xícara a ela e sentou-se ao seu lado, mantendo uma distância respeitosa. — Alice… — começou, com a voz baixa. — Posso te fazer uma pergunta? Ela assentiu. — Você sabe que eu nunca vou te forçar a nada — ele continuou. — E também sei que tudo o que aconteceu antes… deixou marcas. Ela apertou a xícara entre as mãos. — Eu tenho medo — confessou, sem rodeios. — Não de você. Mas do que eu não conheço. Do que eu não sei fazer. Do que eu posso sentir. Olyver respirou fundo. — Eu imaginei — disse. — Por isso eu queria te perguntar algo diferente. Ele virou um pouco o corpo na direção dela, mas sem tocá-la. — Você não precisa “t*****r” comigo — falou, com cuidado na palavra. — Nem fazer amor, nem nada disso agora. Mas… se você quiser… pode aprender a sentir. No seu tempo. E, se quiser, aprender também a dar prazer. Sem pressa. Sem obrigação. Alice levantou os olhos devagar, surpresa. — Aprender? — repetiu. — Sim — respondeu ele. — Como quem aprende uma língua nova. Primeiro ouvindo. Depois entendendo. Só depois falando. Ela engoliu em seco. — E se eu não souber? — perguntou. — E se eu travar? — Então a gente para — disse ele, imediatamente. — Ou muda. Ou ri. Ou fica só abraçado. Não existe certo ou errado aqui. O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era denso, cheio de significados. Alice apoiou a xícara na mesa de centro e puxou a manta um pouco mais para cima, como se precisasse de proteção. — Eu nunca pensei que alguém fosse me explicar isso assim — disse. — Sem cobrança. — Porque não é uma cobrança — respondeu Olyver. — É um convite. Que você pode recusar. Ela pensou por alguns segundos. — E como seria… aprender? — perguntou, quase num sussurro. Olyver sorriu de leve, sem malícia. — Começa com confiança — disse. — Com você dizendo o que sente. O que gosta. O que não gosta. Com você percebendo seu próprio corpo. O que te deixa confortável. O que te deixa curiosa. Ele fez uma pausa. — Às vezes é só ficar perto. Sentir o toque. Às vezes é só respirar junto. Prazer não começa no corpo. Começa na cabeça. No coração. Alice sentiu um arrepio leve — não de medo, mas de reconhecimento. — E você? — perguntou. — Você… não fica frustrado? Olyver balançou a cabeça. — Eu ficaria frustrado se te machucasse — respondeu. — Mas esperar por você… isso não me machuca. Me aproxima. Ela sentiu os olhos marejarem. — Eu quero tentar — disse, enfim. — Não tudo. Mas… aprender a sentir. Com você. Olyver não a tocou imediatamente. Apenas sorriu, como se aquela resposta fosse um presente frágil demais para ser recebido com pressa. — Então a primeira coisa — disse ele — é você saber que pode dizer “não” a qualquer momento. E eu vou ouvir. Ela assentiu. — E a segunda? — perguntou. — A segunda — respondeu ele — é você permitir pequenos gestos. Como quiser. Alice respirou fundo e, com um movimento tímido, estendeu a mão. Não para algo ousado. Apenas para tocar os dedos dele. Olyver aceitou o gesto com delicadeza, entrelaçando os dedos aos dela sem apertar. — Assim? — perguntou ela. — Assim é perfeito — disse ele. Ficaram daquele jeito por alguns minutos, sentindo o simples contato. Alice percebeu algo novo: o coração não disparava de medo. Batia calmo. Seguro. — Eu sinto calor — murmurou. — É normal — respondeu ele. — Seu corpo está respondendo ao conforto. Ela sorriu de leve. — Nunca pensei que prazer pudesse ser… tranquilo. — Pode ser — disse Olyver. — E pode ser intenso também. Mas tudo começa aqui. Com o tempo, Alice se permitiu encostar a cabeça no ombro dele. Depois, sentiu a mão dele tocar de leve seus cabelos — não como posse, mas como cuidado. — Se eu fizer algo errado… — começou ela. — Não existe errado — interrompeu ele. — Existe verdade. Ela respirou fundo outra vez. — Então… me ensina — pediu, com coragem tímida. Olyver fechou os olhos por um instante, como quem agradece silenciosamente. — Eu ensino — disse. — E aprendo com você também. Naquela noite, não houve pressa. Não houve ultrapassar limites. Houve apenas descobertas pequenas: o conforto de um toque respeitado, o prazer de ser ouvida, a segurança de saber que poderia parar a qualquer momento. Alice adormeceu mais tarde com a sensação de algo novo crescendo dentro de si — não apenas o filho, mas a certeza de que seu corpo não era um lugar de medo. Era um lugar de aprendizado. E Olyver, ali ao lado, entendeu que amar também era isso: ensinar sem exigir, desejar sem dominar, esperar sem se afastar. Para ele, aquele foi o começo mais íntimo de todos.
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