Um Lugar para Ficar
Alice estava sentada à mesa da cozinha, organizando alguns papéis da consulta médica, quando Olyver se aproximou com duas xícaras de chá. Ele colocou uma diante dela com cuidado, como se cada gesto ainda precisasse ser pensado.
— Você anda cansada — comentou, sentando-se à frente dela.
— Um pouco — respondeu Alice, sincera. — Mas é um cansaço bom. Diferente.
Ele observou o apartamento ao redor. Pequeno, simples, organizado do jeito que sempre fora. Nada ali lembrava a mansão Blayck, com seus corredores largos, quartos vazios e silêncios caros demais.
— Alice… — começou ele, com cuidado. — A gente precisa conversar sobre o espaço.
Ela ergueu os olhos imediatamente.
— Eu já disse que não vou para a mansão — falou antes mesmo que ele continuasse. — Lá não é meu lugar.
Olyver não suspirou, não insistiu. Apenas assentiu devagar.
— Eu sei. E eu respeito isso.
Ela relaxou um pouco.
— Então… — disse ele — eu pensei em outra solução.
Alice franziu a testa.
— Que solução?
— Eu comprei o apartamento ao lado — respondeu, simples. — Aquele que estava vazio há anos.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu sei — disse por fim. — Alfredi comentou algo.
— A ideia não é mudar você daqui — continuou Olyver. — É unir os dois. Derrubar algumas paredes, ampliar os cômodos. Criar algo maior… mas ainda seu.
Alice passou a mão pela mesa, pensativa.
— Você quer reformar tudo? — perguntou.
— Só o necessário — respondeu ele. — Um quarto maior para você. Um quarto para o bebê. Um espaço onde você possa se sentir confortável sem deixar de ser… você.
Ela encostou as costas na cadeira.
— Eu não quero viver cercada de luxo — disse. — Não quero empregados andando atrás de mim o tempo todo. Não quero me sentir uma visita na minha própria casa.
— Eu sei — respondeu ele, firme. — Por isso pensei nisso. Aqui você tem controle. Tem história. Tem o Chad.
Como se fosse chamado pelo nome, o gato apareceu na porta da cozinha, caminhando com dignidade até se esfregar na perna de Alice.
— Ele não sobreviveria à mansão — comentou ela, com um leve sorriso.
— Nem eu — disse Olyver, surpreendendo-a.
Ela ergueu o olhar.
— Como assim?
— A mansão sempre foi grande demais — explicou ele. — Cheia demais de passado. Aqui… aqui parece real.
Alice ficou em silêncio, absorvendo aquelas palavras.
— Mas unir os apartamentos… — ela hesitou — não vai transformar isso em algo que eu não reconheça mais?
— Só se você deixar — respondeu ele. — Eu não vou tomar nenhuma decisão sem você. É o seu espaço. Nosso, talvez. Mas só se fizer sentido.
Ela respirou fundo.
— Eu tenho medo — admitiu. — Medo de perder esse lugar. Ele sempre foi meu refúgio.
Olyver se levantou e se aproximou devagar, agachando-se à frente dela para ficar na mesma altura.
— Então a gente não perde — disse. — A gente soma. Mantém o que importa e muda só o que precisa.
Ela olhou nos olhos azuis dele, tão atentos, tão diferentes dos primeiros anos em que o conhecera apenas como chefe distante.
— Você realmente aceitou que eu não vou para a mansão — disse ela, quase testando.
— Aceitei — respondeu ele. — Porque eu quero que você esteja bem. Não impressionada. Não intimidada. Apenas em casa.
Alice sentiu algo aquecer no peito.
— E se eu disser que quero manter o quarto como está? — perguntou. — Com a janela pequena e o armário antigo?
— A gente mantém — respondeu ele sem hesitar. — Posso reformar o meu lado.
Ela sorriu.
— E se eu quiser pintar a parede de uma cor que não combine com nada?
— Eu compro a tinta — disse ele. — E ainda ajudo a pintar.
Ela riu, um riso baixo, sincero.
— Você realmente está aprendendo a namorar — comentou.
— Com a melhor professora — respondeu ele.
Alice se levantou e caminhou pelo apartamento, como se o estivesse vendo pela primeira vez. Imaginou uma porta onde antes havia uma parede. Um corredor mais amplo. Um quarto claro para o bebê. Um canto de leitura onde antes era apenas espaço vazio.
— Talvez… — começou ela, devagar — talvez unir os apartamentos não seja tão r**m.
Olyver não sorriu de imediato. Esperou.
— Mas eu quero participar de tudo — continuou ela. — Cada decisão. Cada mudança.
— É um acordo — respondeu ele. — Sem contratos dessa vez.
Ela se virou para ele.
— Promete?
— Prometo — disse. — Esse lugar vai crescer com a gente. Não contra você.
Alice caminhou até ele e, com naturalidade, segurou a mão dele.
— Então vamos pensar juntos — disse. — Um passo de cada vez.
Olyver apertou a mão dela com cuidado.
— Sempre.
Chad pulou no sofá e se acomodou, como se marcasse território, completamente alheio às decisões humanas. Alice observou a cena e sorriu.
— Acho que ele aprovou — comentou.
— Isso é o mais importante — respondeu Olyver.
Naquele apartamento pequeno, que começava a se transformar não em algo maior, mas em algo mais verdadeiro, Alice percebeu que não precisava abandonar quem era para construir algo novo.
Ela só precisava escolher ficar.
E Olyver, ao lado dela, escolhia esperar, construir e respeitar.
Não uma mansão.
Mas um lar.