NORA
— Você vai falar ou terei que adivinhar seus pensamentos? Vou logo informando que não faço uso de tarô ou bola de cristal. — Questiono, m*l humorada, acompanhando os movimentos inquietos dos seus dedos explorando minhas maquiagens.
—Eu não sou como ela. — Resolve falar, espirrando um pouco do meu perfume mais caro no pulso.
Meu maxilar aperta.
Hoje não é um bom dia para enigmas.
— Como quem? — Retiro o pequeno frasco de suas mãos e o posiciono de volta ao meu armário de cosméticos, trancando as duas portas com a chave. — Tilly. — Arqueio a sobrancelha, esperando que alguma palavra saia de sua boca.
— Eu não sou como nenhuma de vocês, na verdade. —Sussurra, como um segredo e volta a se sentar sobre a cama. Aguardo que continue em silêncio, ela suspira, joga o corpo pra trás e leva um dos meus travesseiros de pluma de ganso ao rosto.
Solto uma lufada de ar. Acaricio minha têmpora e vou até ela.
— Olhe pra mim. — Puxo o travesseiro do seu rosto e sento ao seu lado. — Tilly.
— Hmmm ...
— O que aconteceu? — Me deito também, virando o rosto na direção do dela. Ela se concentra no teto, apoiando as duas mãos na barriga e passa a castigar os lábios com os dentes.
Me sentindo como uma irmã mais velha e de alguma maneira responsável por ela, encaixo uma de suas mãos com a minha.
— Você pode me contar, o que aconteceu? — Refaço a pergunta, dessa vez usando um tom mais brando.
Aperto sua mão e ela me olha.
—Cresci ouvindo que eu era a sombra de Ariel, uma versão menos brilhante, talvez. Enquanto minha irmã atraía olhares e transbordava simpatia, eu ficava no canto, apenas refletindo sua perfeição.
Ela volta a encarar o teto, mas não retira a mão da minha. Seu tom é baixo, ressentido e me sinto culpada por fazer parte do grupo que nunca a enxergou além de uma sombra.
— Isso era o que Ariel causava, dificilmente ela dividia os holofotes com alguém. — As palavras simplesmente pulam da minha boca.
Franzo o cenho, percebendo que elas fazem sentido. Ariel sempre gostou de ter toda a atenção para sim, mas eu me importava com essa sua característica?
Sempre achei que não. Mas, talvez eu tenha me importado em dado momento.
— Isadora não parece alguém que aceite viver no escuro. — Pisco, voltando pra realidade com essa sua observação.
Oh, boa sacada, garota.
— Não gosta.
— Elas eram boas amigas? — Existe curiosidade em seu tom e com o canto dos olhos percebo que suas íris claras estão atentas em mim. Sorrio e reflito sobre sua pergunta.
— Éramos boas juntas, nos dias bons e ruins. —Me limito a dizer e ela faz uma careta, não parecendo gostar da minha resposta.
— O que essa p***a significa?
— Continue andando conosco que vai entender. — Dou um tapa de leve em sua coxa e salto da cama. Ofereço a mão e ela impulsiona o corpo pra cima, ficando de pé em um pulo.
Lhe dou um sorriso e vou até meu closet, abro a segunda gaveta do armário branco e pequeno que mantenho acoplado no amplo espaço que ficam minhas roupas e pego o primeiro biquíni que vejo.
— Eu nunca me importei em ser a sombra de Ariel, mesmo depois que entrei na adolescência, mas agora...— Pausa, causando certa aflição em mim.
—Agora?
— Eu não quero ser uma substituta, não quero a vida dela e muito menos dar continuidade ao seu legado.
Descarto a peça de biquíni na gaveta e apoio meu ombro no armário, a fitando de frente.
— E o que você quer?
—Sumir, desaparecer, esquecer que nasci naquela família e começar uma vida em outro lugar. — Joga os braços pra cima em uma ação performático, típica de sua idade.
Contenho a vontade de revirar os olhos, sabendo que estou a poucos passos de agir como uma megera.
— Do que exatamente quer fugir? De uma família com bens que te proporciona uma vida confortável, de uma educação privilegiada, barriga cheia, casa luxuosa e possibilidades que as demais crianças levarão a vida inteira para conseguir e ainda assim terão insucesso? — Seu rosto cai, a boca imediatamente formando um bico.
— Você não entende. — Resmunga como uma criança birrenta. Mordo a parte interna da minha bochecha para segurar a risada e arqueio uma de minhas sobrancelhas, tentando ficar séria.
— Não, eu não entendo. — Falo e ela bufa. Ok, talvez seja apenas meu m*l humor se destacando. Acontece que eu tive uma infância difícil, sei o que é desejar uma mesa farta e pais amorosos.
— Não precisa fingir que somos amigas, não sou igual Ariel e estou bem com isso, mas saiba que ficarei aqui até a noite cair. — Ignoro suas palavras e desço os olhos por seu corpo, percebendo o caimento elegante do seu vestido.
— Você estava em casa? — Acho estranho a roupa de festa.
— Não, eu deveria está a caminho de um coquetel entediante onde eu seria o alvo principal.
Cruzo os braços na frente do corpo.
— Você fugiu?
Volta a bufar.
— Bem, foi você mesma que ofereceu sua casa como refúgio. — Argumenta e mordo a língua por não poder rebater.
— Pegue, acredito que servirá. — Estendo um biquíni vermelho de amarrar. — Minha casa é o último lugar onde sua mãe te procuraria, mas mande uma mensagem avisando que está bem. — Acrescento, virando de costas para deixá-la mais à vontade.
— Isadora tinha razão. — Murmura baixo, mas ainda consigo escutar.
— O que disse?
— Nada.
Hum.
— Não ande tanto com Isadora. — A alerto, ainda que isso pareça algo e******o de se dizer vindo de mim. Prevendo que minha fala trará uma sequência de questionamento, apenas começo a andar para longe. — Pode se trocar, aí. Vou apenas tomar uma ducha e volto.
Ela tenta falar algo, começar uma possível sessão de tortura, mas a calo com uma portada na cara.
Melhor.
Não é hora de falarmos sobre as meninas, porque não há nada que eu possa fazer sobre. Minha lealdade ainda está com elas e apesar de não aprovar o meio, ainda compartilho da mesma ideia de fim ideal.
Amarro meu cabelo no alto da cabeça, o prendendo firme com uma mecha larga. Retiro minha roupa simples e ligo o chuveiro, regulando a temperatura até que a água seja capaz de queimar minha pele, mesmo que suavemente. Abaixo a cabeça para que a água alcance da minha nuca aos pés e fico em transe, contando até 120 em voz baixa, pulando os números ímpares. Quando desligo o chuveiro minha pele está sensível ao toque, ainda assim, passo o sabonete líquido, deixando o creme viscoso escorrer pelos meus s***s e barriga.
— Será que você está viva? — Batidas na porta me despertam e pulo no lugar, assustada,acordando de algum lugar na minha cabeça. Droga.
Me perdi por alguns segundos.
Ligo novamente o chuveiro e começo a me enxaguar, limpando cada centímetro do meu corpo que consigo alcançar como se isso fosse livrar-me do desejo proibido e nojento que ando sentindo por Zé.
— Nora!
— Já estou indo!
Pego uma toalha limpa no armário da pia e me enxugo, passo protetor solar pelo meu corpo e visto o biquíni, abro a porta e passo por Tilly até chegar ao espelho largo e me olhar. O tecido branco da peça contrasta com a tonalidade morena da minha pele, se destacando no meu corpo. Desato as cordinhas laterais da parte inferior do biquíni e faço laços perfeitos, seleciono dois cordões dourados, ambos de corrente grossas e os prendo no meu pescoço. Olhando de esguelha, capturo o olhar de interesse nas retinas azuis.
— Ficou bom em você. — Comento, reparando no conjunto vermelho destacado na pele pálida. A garota sorrir de canto, corando na área das bochechas e pescoço, desviando o olhar do meu. Suas mãos apertadas contra o peito, cobrindo o decote no estilo aviador do biquíni.
Pego um óculos pra mim e outro pra ela, a espero dobrar o vestido em que estava e depositar no meio da minha cama.
Capturo sua mão e a puxo para o andar debaixo, pulando dois degraus de uma vez ao ouvir a voz masculina próxima.
Do lado de fora, a solto e pulo na piscina, sendo capaz apenas de jogar o chapéu em cima da espreguiçadeira antes de jogar água pra cima. Afundando até usar todo o oxigênio armazenado nos meus pulmões, só volto a emergir quando a água começa a entrar pelo meu nariz, mas estar de volta a superfície só me faz lamentar.
— O que essa mulher está fazendo aqui?
— Quem? — Tilly pergunta e percebo que meu pensamento foi dito em voz alta.
Foda-se.
Como essa p**a teve coragem?
Minha pulsação está acelerada, meus punhos fechados.
Controle-se, Nora.
1, 2, 3, 4 , 5...
Argh!
Isso simplesmente não vai dar certo. Esta é a casa da minha mãe!
— Você quer brincar? — Desvio o olhar para a loira e sou recebida por duas íris travessas, ela olha para trás e me dar a confirmação com um balançar de cabeça. Perfeito.
— Como está sua mãe? — Seu tom é atencioso e compreensivo, até mesmo ingênuo quando combinado com seu rosto de menina, no entanto, ainda assim, existe selvageria no azul de suas íris, a mesma fome pela justiça que está nas minhas e isso me anima, leva embora meu m*l humor.
— Em coma.— Sem mais perguntas, saio da piscina e espero o corpo de Zé se aproximar junto do da mulher, sem demonstrar está afetada jogo o cabelo pra trás e apanho o chapéu.
Hora do show.
— Qual o plano? — Tilly sussurra, inclinada contra meu ombro.
— Seja simpática. — Murmuro tão baixo quanto ela, já forjando um sorriso no meu rosto. Protegida pelo óculos escuro estudo a escolha de roupas da mulher, e, apesar, de Cecília nunca ter sido nem uma rainha da moda, hoje ela definitivamente escolheu bem o que vestir.
— Nora. — A mulher cumprimenta, exageradamente simpática. Aumento meu sorriso, entrando no seu jogo e a puxo para um abraço.
— Cecília, que prazer revê-la. — Aumento meu aperto, sabendo que estou molhando seu vestido caro com água cheia de cloro. A mulher se contorce, tentando fugir do meu aperto, mas a prendo com força, até mesmo roço meu cabelo ensopado em seu rosto maquiado. — Opa, desculpe. Acabei te molhando inteira.
— Não tem problema. — Responde e nada parece mais forçado que seu sorriso.
Bom, o meu é muito verdadeiro agora.
— Nora, esqueci de avisar que Cecília estaria vindo almoçar conosco hoje, sinto muito, boneca. Ela tem alguns assuntos do seu novo empreendimento e quer minha opinião.— Os olhos pratas me sondam com cautela enquanto as palavras saem de sua boca, provavelmente esperando alguma reação negativa após nossa conversa mais cedo. Bom, não dessa vez, apesar de que isso está indo para minha lista.
— Tudo bem, Tilly também ficará. — Não o pergunto se isso será um problema, mas ele assente de qualquer forma. Trocamos mais algumas palavras e os dois entram para dentro, meus olhos os seguindo até que sumam.
— No que está pensando? — Tilly questiona e sorrio.
Oh, isso vai ser divertido.
Entramos de volta a casa e peço para Carla, a última empregada contratada por mamãe e a única que eu verdadeiramente goto para preparar o suco favorito de Zé.
— Deixa que eu mesma sirvo. — Pisco para a mulher e deixo a cozinha, subo para o andar de cima e entro no quarto de mamãe, vou direto para o banheiro e vasculho entre os medicamentos que ela costumava manter aqui.
— O que está procurando? — Tilly se repete, enquanto vigia a porta.
— Você já ouviu falar em dulcolax? — Balanço o vidro com comprimidos perante seus olhos e ela junta as sobrancelhas.
— Não. — Resmunga, checando o corredor como a todo momento.
— Relaxe, menina. — Bato em seu ombro e passo por ela, ouvindo seus passos barulhentos bem atrás de mim.
— É um medicamento que minha mãe usava quando estava com algumas dificuldades para ir ao banheiro. — Explico, descendo o último degrau da escada para voltar a cozinha. Escondo o medicamento na minha saída de banho e pego a bandeja de suco já feita.
— Você é maravilhosa, Carla. — Jogo um beijo no ar para mulher e carrego a bandeja comigo.
— Cuidado. — Ela grita ao me ver balançar com o peso da vidraria. Pisco e lhe mando outro beijo.
— Tudo em ordem.
— Nora ...— Tilly chama pelo meu nome, olhando para todos os lados enquanto avançamos rumo ao escritório do meu padrasto.
— Geralmente leva de 4 à 6 horas para fazer efeito, mas acho que uma dosagem tripla vai resolver nosso problema. — Descanso a bandeja sobre uma mesinha com uma estátua sem cabeça e a uso para amassar os comprimidos, derramando o pó dentro do suco.
— Eu pensei que fosse colocar só no copo dela.
Dou de ombros.
Ele não está saindo impune.
— Agora entendo o motivo de você e Ariel serem amigas.
Tomo isso como elogio, sorrindo pra ela sobre o ombro.
— Vamos. — A chamo, incapaz de esconder minha empolgação.