Faltava ainda mais algumas horas para o horário da aula, então, com todo aquele sono acumulado dos últimos dias sem dormir o suficiente, cochilei sem querer. Pior decisão.
Quando o despertador tocou, acordei suada e com o coração acelerado. Tive pesadelos outra vez, os quais sequer me lembrava. Há muito tempo eu havia os deixado para trás. Porém, naquele dia, resolveram fazer uma surpresa, tirando o meu sossego como de costume. Após alguns minutos no banho e o mesmo percurso de sempre, cheguei à escola.
Na entrada, lá estavam as pessoas as quais eu convivia há anos, e no início do corredor... isso mesmo, o Beto. Me esperando e apontando para o relógio, como um pai quando sua filha chega tarde demais em casa.
O que foi agora? - Beto perguntou, andando em minha direção, com sua calça preta cheia de pequenos rasgos no joelho. Era o terceiro dia consecutivo que ele a usava, observei ligeiramente.
Dá para parar? - Respondi, furiosa, enquanto tirava alguns fios de cabelo do meu rosto ainda suado devido a correria.
Calma Alice, só estou brincando. Mas por que tanta demora?
Por que se importa tanto? Eu cochilei sem querer, acordei assustada, tive pesadelos... - suspirei, lembrando-me aos poucos deles - Enfim.
Como os de antes? Pensei que tinham acabado...
Bom, parece que resolveram me assombrar novamente.
Vai passar, fique tranquila... Acho melhor sentarmos lá fora. Perdemos o primeiro horário - Disse ele, segurando meu braço.
Perdemos? Se você estava aqui o tempo todo, por que não foi para a aula? - O encarei com nítido espanto.
Não queria que perdesse o horário sozinha.
Um suspiro foi a única resposta que encontrei após ver, naqueles olhos esverdeados, tamanho carinho e bondade.
Às vezes não entendo as suas atitudes… - Olhei para ele com o coração contrito.
Alice, você é minha melhor amiga. – Disse ele, tirando mais alguns fios de cabelo que caíram sobre meu rosto. - É assim que devemos tratar os amigos.
Melhor amiga, pensei. Era ainda mais claro agora, era apenas assim que ele me via. Deveria estar feliz mas, ao ouvir essa frase, meu coração foi invadido por uma onda de insatisfação. Só queria expulsar esses sentimentos de mim, e não permitir que minha mente voltasse a confundir nossa amizade com qualquer outra coisa.
Olha, me desculpe. Eu sei que sou uma i****a às vezes, principalmente quando se trata do seu cuidado... é que eu realmente não compreendo, parece que você está tentando ser meu pai. – Disse, em um tom brando, buscando compreensão.
Não Alice, mas é claro que não! Isso não tem nada a ver com o que te aconteceu. É que nos conhecemos há tantos anos, eu estava lá quando…
O "quando" se refere ao funeral falso dos meus pais? - O interrompi
Sim. Sei que não gosta desse assunto. Me desculpa. Ando pegando no seu pé ultimamente mas, é que eu sinto como se tivesse que protegê-la sempre.
O abracei. Abracei o Beto com todas as minhas forças, abracei-o com meu coração, onde ele sempre estaria. Não importa o que acontecesse. Naquele momento, eu senti em seu abraço, uma paz fora do comum. Senti o calor de alguém que sempre estaria ao meu lado, enquanto eu vivesse. Alguém cujo coração era incorruptivelmente bondoso.
Vamos esperar lá fora - Disse, após me desvencilhar de seu abraço.
É... – Respondeu ele, que agora parecia pensativo.
• • •
Ao chegar à sala de aula, me deparei com uma figura diferente, provavelmente uma aluna nova. Ela se vestia de modo estranho, usava botas pretas, calças jeans rasgadas, estilo destroyed, talvez umas duas blusas de cores diferentes, preta e azul. Ambas cobertas de acessórios como caveiras, zumbis e alguns símbolos. Apesar do estilo incomum, a garota tinha uma beleza nunca antes vista na escola. Quiçá em toda a região onde morávamos. Cabelos loiros e incrivelmente brilhantes, um corte incrível que ressalta seu rosto perfeitamente simétrico, olhos azuis bem claros e um nariz de “boneca de porcelana”, como dizia minha avó. Ao seu lado, a mesma imagem, figuras idênticas, porém, com estilos diferentes, a garota estranha tinha uma irmã gêmea idêntica. Entretanto, gêmeas apenas em aparência física, pois seus estilos e provavelmente personalidades deviam ser completamente opostas. A outra gêmea se vestia de um jeito básico e mais adequado ao ambiente em que estava, calças jeans e uma blusa simples azul clara, sapatilhas e um colar dourado. Nele, havia um pingente com a letra A. Ela me passava a imagem de uma garota tranquila e centrada, o oposto de sua irmã, que parecia aquelas garotas cuja energia emana uma vibração caótica. Porém, apesar de idênticas em suas aparências, a primeira tinha algo diferente, um olhar enigmático, que parecia capaz de arrebatar com qualquer. A descreveria como um misto de fascínio e domínio. Minha primeira impressão quanto a gêmea da calça destroyed, não foi das melhores.
Após observá-las durante um tempo, eu sentei em meu lugar de costume. Beto à minha frente, também se mostrava curioso quanto às meninas. Ao meu redor toda a sala em seus devidos grupinhos, cochichavam olhando para elas. A de estilo chamativo, com certeza era a que mais dava o que falar. Aos poucos pude ouvir diversos comentários do tipo "Garota estranha" ou "Por que alguém se vestiria assim para vir à escola?" indagações que vinham, principalmente das meninas. Quanto aos garotos, os burburinhos giravam em torno de quem seria o primeiro a ficar com uma delas e o quanto eram bonitas demais. Após uma pausa nos cochichos, a professora resolveu apresentar as novas colegas.
Alunos, receio que já tenham visto as meninas que acabaram de chegar aqui na escola. Ficarão pelo resto do ano letivo conosco. Seus pais acabaram de chegar na cidade, são gêmeas, como já perceberam... A de blusa azul é a Ana Hoffmann, e a de blusa preta é a.... - a professora franziu o cenho enquanto tentava se lembrar - Elisa! - exclamou com mais entusiasmo do que pretendia - Meninas, quero que sintam-se à vontade nessa escola, espero que esse lugar seja realmente acolhedor para vocês.
Obrigada. – As duas responderam em uníssono. Ana ficou um tanto envergonhada por receber tamanha atenção. Elisa, olhava de soslaio os garotos e garotas que comentavam sobre seu estilo, sentindo, de um jeito que eu não poderia afirmar com tanta certeza, uma espécie de prazer naquela atenção.
Também gostaria que estivessem atualizadas… - Continuou a professora - Quanto às nossas programações. Como o acampamento que teremos amanhã, dia 23. A maioria dos alunos já colocaram seus nomes na lista, mas creio que ainda há vagas para vocês duas. Hoje é o último dia, aliás. Falem com a Alice, ela está logo ali. – Orientou a professora, apontando para mim.
Após a rápida apresentação, nos dividimos em grupos para a organização do trabalho que apresentaremos na semana que vem. Almoçamos na escola pois, naquele dia em especial, teríamos aulas à tarde. Ao final da aula, Ana veio falar comigo.
Oi, tudo bem? - Perguntou com um sorriso simpático.
Tudo, e com você? Prazer em conhecê-la - Respondi apertando a sua mão.
Eu queria saber mais sobre o acampamento - disse Ana, de um jeito tímido.
É amanhã. O ônibus da escola nos busca em nossas casas, e vamos até o local do acampamento. - Arrumei as pastas que eu segurava o tempo inteiro comigo - É um lugar lindo com um lago enorme onde ocorrem algumas competições, temos uma programação bem divertida com jogos, fogueira, essas coisas de acampamento... – Mostrei algumas fotos em meu celular – Esse foi o do ano passado, todos da escola foram, foi bem animado.
Que legal. Eu gostaria de ir. - Respondeu Ana, repassando todas as fotos com atenção, especialmente as do lago.
Vou te dar um formulário para preencher. Sua irmã também quer?
Sinceramente não consigo imaginá-la participando - Ana soltou uma rápida risada - Ela não gosta muito dessa coisa de... - Ana gesticulou enquanto procurava a palavra certa - Socialização – disse, completando a fala com uma risada curta. - Ah, entendo... É uma pena porque eu tenho certeza que ela iria gostar do nosso passeio. Vou tentar convencê-la.
É, não garanto que consiga. Mas tente. – respondeu com um semblante alegre.
Olha… aqui está o formulário - Apontei todas as linhas com atenção - Você deve preencher e me entregar o quanto antes. Tenho que levar à casa da coordenadora, daqui a pouco. É bom dar uma lida aqui em cima, pois tem uma pequena lista do que você deve levar. A propósito, não esqueça do repelente - Sorri.
Tudo bem, eu vou preencher e te entrego agora mesmo - Ana pegou uma caneta dourada em sua bolsa rapidamente - Ah! e obrigada pela indicação do repelente, eu sou muito esquecida e também muito alérgica aos mosquitos.
Imagina… não precisa agradecer. É só o meu papel como organizadora.
Esperei Ana terminar de preencher a sua inscrição, organizei as fichas em uma pasta e fui procurar o Beto. Para a minha surpresa, ao seu lado estava a outra aluna novata, Elisa. Ela o olhava fixamente e ria de algumas piadas que ele devia ter contado. Pensei que a esquisita não fosse tão sociável afinal.
Ah, oi Beto, estava te procurando - Falei, enquanto direcionava um leve aceno para Elisa.
Oi Alice, essa é a Elisa... - Disse ele, um tanto assustado com minha chegada inesperada, e ainda se recuperando de algumas últimas risadas de sua conversa com ela.
É, eu sei, a professora nos apresentou. - Expressei um sorriso amarelo a contragosto.
Sei que não fui simpática mas, de um jeito inexplicável, eu sentia ciúmes e não entendia o porquê do Beto estar ali, sem sequer ter me procurado quando a aula acabou.
Oi, prazer em conhecê-la - disse Elisa, levantando-se do banco para me estender a mão.
Prazer em conhecê-la também – falei em um tom ríspido que escapou sem que eu tivesse muito controle. Observei aqueles olhos azuis cobertos de delineador preto. Olhos dominadores.
Elisa, agora eu preciso ir… - Beto interrompeu nossa troca de olhares fulminantes - Prometi à Alice que a ajudaria a levar as fichas de inscrição para a Sra. Clarice. Mas foi ótimo conhecê-la, você é muito divertida.
Foi ótimo te conhecer também Roberto... aliás, você vai ao tal acampamento? - indagou Elisa, enquanto mascava chiclete de um jeito estranhamente atraente.
Vou sim, e você, pretende ir?
Eu não estava muito animada… Mas agora que te conheci, acho que será bem legal. - completou com uma piscadela
Elisa sorriu para mim também. Um sorriso inocente mas que, ao meu ver, pareceu uma provocação. Por que ela me provocaria? Eu e ele éramos visivelmente apenas amigos.
Se quiser ir mesmo, precisa se inscrever agora. – disse ele, virando-se para mim para pegar uma ficha.
Claro... - me contive como nunca. A minha vontade era de gritar um sonoro não, impedir que ela fosse e passasse mais tempo com ele.
Elisa, esse é o formulário, tente preencher o mais rápido possível, porque eu preciso entregar as fichas agora. Tem algumas informações aí. Aliás, a sua irmã já leu, então, para não me atrasar, é melhor perguntar a ela.
Tudo bem! - Disse Elisa, enquanto preenchia o formulário com uma caneta emprestada pelo Beto, enquanto fazia bolas de goma de mascar.
Minutos depois ela me entregou o formulário. Coloquei o último na pasta e puxei o Beto pela camisa, sem nem mesmo dar tchau à garota ou permitir que ele o fizesse.
• • •
No caminho para a casa da Sra. Clarice, ambos permanecemos calados, o silêncio era tão profundo que eu podia ouvir sua respiração, um tanto ofegante devido à caminhada. Resolvi puxar conversa.
- Então... - Comecei, tentando pensar em uma maneira menos direta de chegar ao assunto que pretendia. Ora olhava para os cadarços do meu sapato, ora para a rua à nossa frente. Decidi então seguir pelo modo direto. Nosso nível de i********e deveria me deixar à vontade o bastante para isso. - Como começou a conversar com aquela garota?
- Ela estava sozinha no canto do pátio… - Beto tentava se recordar melhor - Parecia excluída, pensei que seria legal conhecer alguém.
- Ah, você como sempre muito bondoso.
- Acabei descobrindo que ela é uma ótima pessoa. Muito engraçada. Você deveria conhecê-la também.
- Legal. - Foi apenas o que eu disse. Nem forcei um sorriso para parecer de fato animada com a nova amiguinha que ele havia feito, acredito que o Beto tenha notado que eu estava insegura.
- Alice... eu só... - Beto começou a se explicar, enquanto gaguejava,
- Beto, você não me deve explicações. - Segurei a pasta com ainda mais força entre os meus braços - Somos só amigos, certo? O que uma amiga deveria fazer nessa situação? Ficar feliz e torcer para que ela seja… sei lá… como se diz por aí, essa baboseira que eu não acredito. Bom, sua alma gêmea.
Beto explodiu em gargalhadas,
Do que você está rindo? - Perguntei séria, tentando conter a risada que estava prestes a vir, contagiada pela dele.
Alma gêmea, Alice? - Beto pegou as pastas que estavam em meu braço - Eu acabei de conhecer essa garota e, de repente, você já está falando de alma gêmea! - Beto disse, tentando conter o riso.
É que eu vi o jeito que você olhava para ela… e ah, Beto, por favor. Eu te conheço quando você ainda usava fraldas. - Tomei as pastas de volta - Nem estão pesadas, deixa que eu carrego sozinha.
Você está com ciúmes, Alice?
Meu rosto enrubesceu.
Ciúmes? Do que eu estaria com ciúmes - Consertei a postura para tentar disfarçar ao máximo o rumo desconcertante daquela conversa.
Ah, não sei… ciúmes de eu me tornar mais amigo da Elisa do que seu. De perdermos o que temos, essa amizade tão forte. Você sabe. Ciúmes por medo de eu ser menos amigo do que eu sempre fui.
Alívio.
É… É exatamente esse tipo de ciúmes. Só que é uma bobagem. Eu bem sei que é. E olha… - Entreguei as pastas nas mãos dele novamente - Chega dessa conversa, tudo bem? Esse papo só está atrasando nosso caminho até a casa da Sra. Clarice. Além de não nos levar a lugar algum.
Você que manda. - Beto me beliscou com um sorriso, achando tudo aquilo muito engraçado.
Por dentro, eu só conseguia sentir medo. Um medo inexplicável. Medo de sentir? Não, não parecia ter medo de sentir o que quer que fosse. Era um medo estranho daquela nova presença. Medo de algo que estava por vir e eu não compreendia, ainda, o quê exatamente.
•••
Chegamos à casa da Sra. Clarice. Entreguei as fichas de inscrição e observei que a da Elisa estava na extremidade da pasta. Com a maior facilidade, eu poderia tirá-la dali sem que ninguém percebesse. Me contive, pois não fazia o menor sentido. Precisava controlar imediatamente essas emoções insensatas. Eu, Alice, era sempre racional, e deveria continuar cultivando esse hábito. No caminho de volta para casa, Beto resolveu me levar até a porta.
Obrigada, nos vemos amanhã no ônibus para o acampamento. - disse, enquanto o abraçava.
Nos veremos, sim. Se cuida. Promete? - Beto perguntou, preocupado com meu silêncio no caminho da volta.
Eu sempre me cuido. - Respondi com um toque em seus braços - Você também deveria. Até amanhã.
Nos despedimos com um abraço que, por minha causa, foi mais demorado do que o normal, abracei-o como se fosse uma despedida definitiva. Depois olhei em seus olhos, e senti um ímpeto desejo de dizer alguma coisa, mas não saiu som algum da minha boca. O que eu queria dizer , não foi dito.
A verdade é que nem eu mesma sabia o que queria falar, ou mesmo se deveria. Ele me olhou fixamente após nosso abraço, deu um de seus sorrisos maravilhosos, que sempre me deixavam mais feliz sem motivo algum e foi embora. Eu olhei, de longe, seu caminhar em direção à sua casa, e meu coração ficou apertado. Eu deveria ter dito.
“Dito o quê, Alice?” a voz em meus pensamentos me torturam… Eu não sei. Posso cometer um grande engano ao dizer sabe-lá-o-quê eu estou sentindo por causa desse coração irracional e instável demais.
• • •
Subi as escadas lentamente, pois estava muito cansada. Cansada dos preparativos para o acampamento, das idas e vindas à casa da Sra. Clarice, da semana exaustiva pedindo aos alunos para preencherem logo suas fichas, e de tantos pensamentos perturbadores que me afligiam. Tudo isso somado aos pesadelos que retornaram após anos, sem qualquer motivo aparente. Ao menos o fim de semana finalmente estava chegando, e logo eu estaria no acampamento me divertindo com o Beto e com as poucas meninas que eu conversava. Deitei em minha cama e aos poucos pude ouvir o barulho dos passos da tia Elizabeth subindo as escadas, me senti um tanto culpada por não ter avisado que havia chegado, mas eu estava realmente exausta. A porta se abriu e a tia Elizabeth entrou com uma expressão assustada.
Alice, minha querida, fiquei preocupada com você, demorou tanto para chegar! E nem sequer me avisou. - disse tia Elizabeth com os olhos arregalados e com as mãos no peito como faz de costume quando está apreensiva.
Desculpe, tia, eu demorei porque tive que entregar as inscrições do acampamento na casa de uma das coordenadoras da escola. Não se preocupe, Beto foi comigo. Eu não te avisei porque cheguei muito cansada... Também me esqueci de avisar que hoje teríamos aula à tarde - Levantei para abraçá-la - Sabe como é, não é?! Estar sobrecarregada e ter tantos esquecimentos.
Tudo bem meu amor , seu rosto está pálido e cansado mesmo. Mas você precisa me avisar quando for demorar... Já viu esses noticiários na televisão? Ontem uma garota foi encontrada morta em um terreno próximo à escola onde estudava, quanta barbaridade! Imagine se algo assim acontece a você, Alice... - - Tia, já disse que é melhor não assistir aos noticiários policiais… você fica totalmente paranoica. - falei enquanto guardava a mochila que havia jogado no chão, quando cheguei.
E com razão! Olha quanta coisa r**m está acontecendo... meu Deus... meu Deus – tia Elizabeth disse reflexiva, enquanto fechava a janela.
Me desculpa, tá? prometo que vou avisar. – falei tentando confortá-la.
Tudo bem, te perdoo dessa vez. Agora vamos descer , você está com uma carinha abatida. Precisa de uma boa refeição e um bom banho. Fiz uma torta de limão maravilhosa para a sobremesa.
A preferida da minha mãe? - Sorri - Tá bom, tia. Vou tomar um banho rápido e descer.
Te espero lá embaixo.
Me dirigi ao banheiro, tomei o banho mais rápido que pude, para que tia Elizabeth não viesse outra vez ao meu quarto. Ela tomava conta de mim desde que meus pais faleceram, e eu sentia uma imensa gratidão por ela ter me acolhido, me dado um novo lar e me ajudado a superar a perda. Mesmo assim, confesso que às vezes, a convivência é muito difícil. Tia Elizabeth é viciada em tragédias - está sempre assistindo aos noticiários policiais e acompanhando todo tipo de crime horrendo. Isso a deixa paranóica e pessimista quanto a tudo. É muito protetora, e demasiadamente preocupada com qualquer coisa que diz respeito a mim. Quase como se, a qualquer momento, fossem me roubar dela. Cresci com essa estranha impressão.
Após o banho, desci às pressas e comi a torta que estava, de fato maravilhosa. Deitei em minha cama mais uma vez e comecei a pensar nos acontecimentos do dia, e como já esperava... pensei no Beto. Em sua possível futura amizade com Elisa e, é claro, tentei expulsar esses pensamentos o mais rápido possível. Eu provavelmente estava muito sensível. TPM, talvez. Não costumava ser dramática assim. Revirei na cama algumas vezes até que finalmente adormeci mais cedo do que o normal. Tive outro pesadelo. Mas este, me lembrei claramente no dia seguinte.
Eu estava no lago escuro do acampamento, afundando. Gritava pedindo ajuda. No entanto, não estava desesperada por isso, e sim porque precisava contar alguma coisa. Porém, o segredo que eu queria desesperadamente sobreviver para revelar, não me recordei no dia seguinte. Levantei mais uma vez suada e com o coração acelerado, depois deixei que o alívio de estar em minha casa e não em um lago frio, invadisse meu corpo aos poucos.