A viagem

1232 Palavras
Olhei através da janela e constatei que o dia estava lindo. Já eram sete horas da manhã, o ônibus passaria às oito. Lembrei-me que ainda não havia arrumado minha mochila. Em um sobressalto, me joguei no chão, e acabei desastrosamente tropeçando na mesa de cabeceira. Arrumei minhas coisas depressa, tomei um banho de quinze minutos e, sem tempo algum para tomar café da manhã, me despedi da tia Elizabeth, que tentou me fazer ouvir - sem sucesso - uma lista interminável de orientações, que ela foi gritando enquanto eu corria porta afora. Por sorte o ônibus ainda não havia chegado, mas já o avistava virando a esquina. Quando enfim parou em minha porta, Beto desceu do ônibus e me ajudou com as mochilas, juntamente com tia Elizabeth, que se despediu de mim com um rápido beijo na testa. Em todas as viagens da escola, Beto e eu ficávamos juntos nos bancos mais próximos mas, dessa vez, Elisa sentou ao seu lado. Sentei-me em outro banco e, para a minha alegria, Ana sentou ao meu lado. Eu gostava dela, era educada e sempre muito gentil, simpatizei-me instantaneamente com o seu jeito. Durante a viagem, pude ouvir risadas vindas do banco do Beto. Olhei rapidamente para trás e percebi que ele estava contando histórias para Elisa. Ela ria muito, e também contava muitas histórias que o faziam gargalhar. Algumas horas se passaram e, para enfrentar o tédio da viagem, alguns ouviam música, liam livros, outros preferiam dormir ou conversar. Mais uma vez dei uma olhada no banco do Beto. Elisa estava dormindo encostada no ombro dele, enquanto ouvia música em seu celular. Para minha completa infelicidade, ele acariciava seu rosto. Virei rapidamente antes que ele percebesse, então respirei fundo, contei até três, e decidi que agiria normalmente. Após mais algum tempo, finalmente chegamos ao acampamento. Elisa teria que acordar do seu sono profundo no ombro do Beto, o que, de um modo estranho, me animou. Claro, repreendi esses pensamentos o mais rápido que pude, afinal, não deveria me importar. Todos desceram do ônibus, cansados, com sono e com fome. Tiramos nossas malas e alguns decidiram sentar ali mesmo no chão. Alguns grupinhos decidiram andar em volta do lago, mas a maioria reclamava da fome e do cansaço. Não acampamos em barracas como comumente acontece. Nosso acampamento era realizado há anos, e muita coisa evoluiu ao longo desse tempo. Devido ao grande número de inscritos, e também de mosquitos, a escola preferiu construir os pequenos chalés de madeira em volta do lago. Não eram as acomodações mais confortáveis e luxuosas mas, sem dúvida, mais seguras do que as barracas. Os grupos foram divididos, meninos com meninos, meninas com meninas. Cada chalé agrupava quatro pessoas, e nós seríamos divididos em um sorteio. Primeiro sortearam os meninos. Beto, muito sortudo, ficou com seus três amigos mais próximos, os da sua banda, no chalé 15. Apesar de eu sempre desconfiar de sua tamanha sorte em ficar com os mesmos garotos todo ano, ele me jurou que era mera coincidência. Em seguida, sortearam as meninas. Fiquei no chalé com Raquel, uma garota maluca que dizia ter visões, e Charlotte, que era conhecida por espalhar fofocas mais rapidamente do que qualquer veículo de informação. O quarto nome demorou a ser sorteado, por alguma confusão nos papéis mas, após alguns minutos... voilá! Elisa Hoffmann. Definitivamente eu teria que aguentar aquela garota durante o final de semana. Sei que não fazia o menor sentido não gostar dela, afinal, ela não havia feito absolutamente nada contra mim, mas algo me dizia que Elisa não era confiável. Todos foram dispensados e se dirigiram aos seus devidos chalés. O chalé 13, o qual eu ficaria, estava imundo. Foram necessárias algumas horas de trabalho para deixá-lo devidamente apropriado para nossa estadia. Elisa, em muito ajudou, recolhendo o lixo deixado pelos últimos alunos e arrumando as camas. Raquel e Charlotte tiraram a poeira dos móveis. Eu providenciei roupa de cama e lavei o banheiro. Depois de deixar tudo em ordem, descansamos. Raquel e Charlotte, que eram melhores amigas, ficaram na nossa varanda conversando e comendo doces que trouxeram em um pacote. Me sentei na cama e analisei cada parte do chalé que agora estava limpo. Resolvi tomar um banho, colocar uma roupa e dar uma volta. Enquanto isso, Elisa continuava imóvel, deitada sobre sua cama, observando o teto como se houvesse algo interessante lá em cima. Parecia distante, e sua expressão facial, ligeiramente melancólica. Está tudo bem? – perguntei, enquanto procurava por minha toalha de banho. Oi? – respondeu Elisa, confusa após despertar de um devaneio profundo. Você estava tão quieta e… desculpe a intromissão… pareceu triste. Não, só estava pensando... E aí, está gostando do acampamento? – perguntou, visivelmente tentando mudar de assunto. Estou na dúvida se gostei mais da parte em que lavei o banheiro ou arrastei os móveis. – falei com uma risada. É verdade, que pergunta ridícula. Acabamos de chegar. – disse ela, rindo também. Sua irmã disse que você não viria, que não gostava desse tipo de programação. É… digamos que ela gosta muito de concluir qualquer coisa a meu respeito sem ter certeza. – disse Elisa em um tom ríspido – Mas eu acho que vou gostar muito daqui sim. Logo concluí que Elisa e Ana não pareciam ser grandes amigas. Espero que sim. – disse eu, tentando parecer gentil. Você e o Beto são muito amigos? – quando tocou no nome dele, senti meu coração acelerar rapidamente. Por que ela estaria perguntando isso? Pensei de imediato. Somos amigos desde a infância. Só amigos? – disse ela com um meio sorriso. Isso seria uma espécie de pedido de permissão para ficar com ele? Pensei comigo mesma. Só amigos. – disse, enfim. Ah... – Elisa respondeu, pensativa. Não queria continuar o papo, muito menos vê-la prosseguir com essa conversa sobre o Beto e a nossa amizade. Era nítido que ela estava interessada nele, e mesmo não querendo, essa história me incomodava profundamente. Mesmo meu silêncio e ligeiro afastamento não foram suficientes para que o diálogo fosse interrompido. Ele tem uma banda, não é? Achei isso tão legal. - disse Elisa, sentando-se na cama, com ares de quem estava mesmo interessada naquela conversa sobre o Beto.. Não podia culpá-la, eu havia deixado claro que não éramos nada mais do que amigos. É, também acho muito legal. Apesar de ser bem difícil eles conseguirem fazer sucesso. Tem tantas outras bandas tentando. Quando se é bom de verdade, não precisa se preocupar com isso. Não estou dizendo que não são bons, mas há muita concorrência. Apesar de nunca ter ouvido nada deles, dou a maior força. Tenho certeza que vão conseguir. - Elisa respondeu, me dirigindo um sorriso triunfante Ouvimos alguns barulhos lá fora, e aproveitei essa interrupção para cessar aquela incômoda conversa. Ao olharmos pela janela, de longe notamos os garotos procurando gravetos e pedaços de madeira para a fogueira, fazia parte do ritual anual: cantar canções e contar histórias de terror em volta dela. Um dos principais costumes do acampamento é que é ideal esperarmos todas as colegas do chalé se arrumarem e sairmos juntas para a fogueira, pois é feita a chamada de acordo com os grupos. Minhas colegas de chalé terminaram no horário esperado. Exceto por Elisa, que demorou horas no banho. Após alguns minutos de atraso, lá estávamos nós, finalmente prontas para a atração principal do primeiro dia de acampamento.
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