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841 Palavras
HELENA Dizem que o tempo cura tudo. Mentira. O tempo não cura. Ele ensina a esconder. Ensina a disfarçar a dor, a camuflar o vazio, a colocar a saudade dentro de uma caixinha bem escondida no peito, onde ninguém mais consegue ver. Mas esquecer? Não. Esquecer nunca foi uma opção. Nunca aconteceu. Já se passaram cinco anos desde que o Luan morreu. Cinco longos anos. E ainda hoje, tem dias em que acordo esperando que ele entre pela porta. Com aquele sorriso meio torto, voz rouca, rindo como se tudo tivesse sido só um plano, uma encenação m*l elaborada. Um jeito estranho dele tentar me proteger — como sempre fazia. Mas ele não aparece. Nunca apareceu. Aceitar foi um processo dolorido, arrastado. A saudade virou rotina, e o choro virou hábito silencioso. Me peguei tantas vezes sentada no chão do banheiro, com o rosto entre os joelhos, chorando baixinho pra não assustar o Miguel. Escondia as lágrimas atrás de um sorriso, ensaiava respostas, fingia que estava tudo bem. Fingir virou uma habilidade. Me enganar também. Quando descobri a gravidez, eu congelei. Não senti alegria, nem esperança. Senti medo. Medo paralisante. Eu não me achava pronta, não me achava digna, não me achava capaz. A mulher que eu era naquele momento não conseguia enxergar a maternidade como algo possível. E todo mundo dizia: “Você vai dar conta, você é forte”. Mas ninguém sabia o quanto eu estava esfarelada por dentro. A força que eles viam era só o resto da minha coragem tentando não desmoronar em público. Mas aí ele nasceu. O choro do Miguel foi o primeiro som que me fez sentir viva depois da morte do Luan. Foi como se meu mundo, desabado e em ruínas, começasse a erguer uma parede. Depois outra. E mais outra. Aos poucos. Com o nascimento dele, tudo mudou. Não de forma mágica — não existe mágica pra dor. Mas houve uma virada. Uma luz. Uma pequena chance de recomeçar, mesmo aos pedaços. Hoje, o quarto está uma bagunça. Roupas de criança espalhadas, brinquedos no chão que já testaram meu limite de dor pisando neles, pacotes abertos de fralda, lenços umedecidos em cima da cômoda. Uma playlist de Djavan toca baixinho, tentando acalmar o caos. Eu tô sentada na cama, cercada por meias, bodyzinhos e um lápis de sobrancelha ainda na mão. O cansaço me venceu, e eu dormi ali mesmo, largada no meio da guerra civil que é criar um filho sozinha. De repente, a porta se abre com tudo. — Tá maluca que eu vou deixar ela dormir no meio dessa zona... — QUE CARALHOS, JASMIN!? — Te batizei de novo, mulher! Tá renovada! Água e sono, as energias foram realocadas! — Eu vou te encher de porrada! Tá louca? Tento levantar, ainda meio zonza, os olhos ardendo. Ela corre porta afora, e eu vou atrás. Jasmin se esconde atrás do sofá da sala. Eu pego uma almofada e já lanço a primeira ofensiva. — Sai daí, sua vaca! — Eu te salvei, sua ingrata! Tava roncando igual uma senhora de setenta anos! Boca aberta, babando! Uma vergonha pública! A almofada atinge o ombro dela. Jasmin revida com uma maior. E pronto. Guerra declarada. No meio da confusão, escuto os passinhos apressados descendo as escadas. — Eu ouvi bagunça! Quero brincar também! — ele surge no topo da escada, olhos brilhando de empolgação. Ele corre até a Jasmin e se joga no sofá ao lado dela. — É isso mesmo, filho? Vai trair a própria mãe? — Eu sou do time da titia hoje! — Isso, amor! Sua mãe é má, bagunceira e roncadora! — Mentirosa! Caluniadora! — pego outra almofada. — Isso é GUERRA! A guerra de almofadas se intensifica. Risadas ecoam pela sala. Miguel ri tão alto que fica com o rostinho vermelho. Eu o pego no colo e começo um ataque de cócegas. — Ataque de cócegas no traidorzinho da mamãe! — Mããããe, paraaaa! — ele se contorce nos meus braços. Jasmin aproveita e começa a fazer cócegas em mim também. A gente cai junto no tapete, rindo, embolados. Por um momento, tudo para. O riso diminui. A respiração ainda ofegante. O coração batendo rápido — não de tristeza, não de medo — mas de alegria. Aquela alegria simples que a gente às vezes esquece que ainda é capaz de sentir. Olho pro Miguel ali, jogado de barriga pra cima, cabelo bagunçado, sorriso no rosto. Olho pra Jasmin, com os olhos marejados de tanto rir. E percebo que, apesar de tudo, eu ainda estou aqui. Apesar da dor. Apesar da saudade. Apesar de tudo que a vida já levou, ela também me deu. E nesses momentos simples, entre fraldas e risos, almofadas voadoras e frases debochadas, é que a vida se reconstrói. É isso. Entre um caos e outro, entre a saudade que nunca vai embora e o amor que só cresce, eu sigo. Com meu filho nos braços. Com uma amiga maluca na vida. Com a lembrança dele no coração. A vida continua. E eu também.
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