11

936 Palavras
Helena Entrei na loja com o coração batendo rápido, como se estivesse indo para uma entrevista de emprego… o que, na prática, era exatamente o que estava acontecendo. As prateleiras estavam impecáveis, os manequins muito bem vestidos, e um pagodinho baixinho tocava de fundo, criando uma atmosfera leve, mas que não conseguia acalmar a bagunça dentro de mim. Eu estava com meu jeans escuro mais conservado, uma blusa branca básica e o r**o de cavalo alto, que ainda balançava com os reflexos do meu nervosismo. A Jas estava ao meu lado, como uma âncora na tempestade. Ela sempre teve essa energia que acalma e empurra ao mesmo tempo. Me deu um apertãozinho de leve no ombro quando a mulher da loja veio até nós. — Você que é a Helena, né? A amiga da Jas? — Sou sim… bom dia! — respondi, com um sorriso um pouco tímido, mas sincero. Ela sorriu como se já gostasse de mim. — Ótimo! Bem-vinda. Já te adianto que aqui não tem moleza, mas também não tem patrão carrasco. É só tratar bem o cliente, manter a loja arrumada e ser esperta. O resto você pega com o tempo, beleza? — Beleza. Obrigada pela oportunidade, de verdade. Na hora que ela virou de costas pra me mostrar onde estavam os cabides, senti a Jas se inclinar até meu ouvido: — Arrasa, garota! E não esquece de sorrir… cliente adora simpatia. Respirei fundo e fui. Comecei a mexer nas araras como quem tenta aprender uma nova dança: errando um pouco no começo, mas tentando acompanhar o ritmo. No fundo, aquilo me fazia bem. Colocar as peças em ordem, dobrar com cuidado, passar os dedos nos tecidos macios. Me distraía da vida lá fora. Era uma nova chance de me reencontrar, mesmo que ainda um pouco machucada por dentro. Uns quinze minutos depois, a campainha da porta tocou. Só que, dessa vez, junto com o som, veio também uma sensação esquisita no peito. Levantei os olhos por reflexo… e lá estava ele. Kaique. Entrou com a calma debochada de sempre, como quem não deve nada a ninguém. Boné virado pra trás, camiseta preta colada no peito largo, corrente prateada brilhando no pescoço. E o sorriso. Aquele maldito sorriso que me desconcentrava inteira. — Bom dia, vendedora… — Você tá me perseguindo, só pode! — disse, arregalando os olhos, surpresa. Ele riu e veio andando até o balcão como se fosse dono da loja. — Que isso! Vim comprar uma camiseta. Pode ser que eu queira impressionar alguém… — Impressionar? Quem? Uma das tuas meninas? — Quem sabe… uma ex‑dondoca, agora vendedora… bem gata por sinal. Revirei os olhos, mas não consegui conter o sorrisinho no canto da boca. Ele tinha essa mania de provocar e ainda achar graça da minha reação. Eu, que só queria focar no novo emprego e deixar o passado pra trás, me via ali, de novo, com o coração acelerando só por vê-lo se aproximar. — Olha, se for pra atrapalhar, a porta é logo ali, viu? Ele pegou uma blusa da arara, qualquer uma, e mostrou pra mim: — Tá me atendendo, não tô? Então não atrapalho. Aliás… essa aqui fica boa em mim? Peguei a peça da mão dele, tentei parecer profissional, mas o toque da nossa pele se roçando por um segundo foi o suficiente pra bagunçar minha concentração. Avaliei o tamanho, o tecido, mas minha voz saiu quase sussurrada: — Serve… mas acho que o preto já tá batido pra você. Experimenta azul marinho. Dizem que transmite mais… confiança. Ele me olhou de um jeito diferente. Aquele olhar sério, profundo, que ele só usava quando queria deixar as brincadeiras de lado. A voz dele também abaixou: — Então escolhe uma pra mim. Confio no teu gosto. Entreguei a peça com os dedos meio trêmulos. Ele foi para o provador e, assim que a cortina fechou, eu soltei o ar que estava prendendo. — É seu namorado? — cochichou a gerente, aparecendo do meu lado, com um sorrisinho curioso. — Credo! Claro que não! — Uhum… tá bom. Mas ele olhou pra tu como se fosse. Fingi ignorar. Não dava pra explicar o que era aquilo entre a gente. Nem eu sabia ao certo. Mas sabia que ele me tirava do eixo. Sempre tirou. Kaique saiu do provador usando a camiseta azul marinho. Ficou perfeita nele. Como tudo. Ele girou, brincando como se estivesse numa passarela: — E aí? Gostou? — Ficou ótimo… — falei, antes mesmo de pensar. A gente se olhou por alguns segundos. Aquela tensão boa pairando no ar. A respiração um pouco mais presa, o olhar mais demorado. Ele pegou a blusa e foi direto pro caixa. — Vou levar. Assim você lembra de mim toda vez que ver essa peça na arara. — Duvido que eu vá esquecer… Ele pagou, piscou um olho e saiu como se tivesse certeza de que deixaria um rastro. E deixou. Voltei pro sistema do computador tentando fingir costume, tentando ignorar o calor no meu rosto. Mas era impossível. Meu sorriso escapou. Veio leve, involuntário. — Começou a novela, meu amor… — disse Jas, do nada, surgindo ao meu lado. — Jasmin… — Ai, nem adianta fingir! Eu vi o jeito que ele olhou pra você. Vi o jeito que você olhou pra ele. Parecia cena de filme! — Não é nada disso… — Claro que não… ainda. Revirei os olhos, mas no fundo, no fundo… meu coração já estava escrevendo o próximo capítulo. E por mais que eu quisesse fugir, parte de mim... queria mesmo era ver onde essa história ia dar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR