Helena
Entrei no fim de tarde, exausta, ajeitando a bolsa no ombro. O céu ardia em laranja e roxo sobre o Vidigal, e eu suspirei, olhando pra cima:
> — Até que não foi tão ruim...
Caminhei devagar, deslizando os dedos pela tela do celular, quando a voz dele cortou o silêncio:
— Ô mina... nem espera o fã número um?
Virei o rosto e o encontrei encostado num poste, braços cruzados, sorriso safado.
— Você de novo? Sério? — brinquei, revirando os olhos, mas sentindo um sorriso nascer.
Ele deu de ombros e andou na minha direção:
— Tava passando... aí lembrei que cê sai a essa hora. Coincidência, né?
Caí na risada:
— Coincidência é você aparecer em todo lugar que eu tô, isso sim!
Ele fingiu estar ofendido:
— Quer que eu suma? Posso ir, se quiser...
Cruzei os braços, fingindo pensar:
— Deixa de ser b***a, vai...
Ele voltou a andar ao meu lado, e soltou no tom provocador de sempre:
— E aí? Primeiro dia na selva, sobreviveu?
— Uhum... cansativo, mas bom. A Pri é firme, mas gente boa.
Ele me olhou de lado, avaliando:
— Você se saiu bem. E de vendedora não tem nada de dondoca, tá? Tava lá toda focada, toda profissional... até me deu bronca.
Sorri de canto:
— Você mereceu. m*l educado do caramba!
Ele riu:
— Ah, eu sou gente boa... só dou trabalho quando gosto.
O som de um samba distante embalava nossos passos, crianças corriam pra lá e pra cá, o morro respirava vivo ao nosso redor. Então ele ficou mais quieto, mais sincero:
— Tu tem um sorriso bonito, sabia?
Baixei o olhar, surpresa, sentindo o rosto esquentar.
— Faz tempo que ninguém me fala isso... — confessei.
Ele sorriu de verdade:
— Então acostuma, porque eu vou repetir até tu acreditar.
Chegamos na minha casa. Olhei pra fachada simples e falei de brincadeira:
— Chegamos... obrigada pela “escolta”.
Ele encostou no portão, os olhos ainda em mim:
— Eu que agradeço a companhia.
Ficamos ali, por segundos que pareceram mais. Ele quebrou o silêncio primeiro:
— Amanhã cê trabalha de novo, né?
— Todo dia agora, ué.
— Então acho que vou começar a passar por ali mais vezes... vai que eu precise de outra camiseta.
Dei risada, encostada no portão:
— Vai ver tu só quer uma desculpa...
Ele me encarou sério, sem desviar:
— Talvez...
Acenei e entrei. Pela janela, vi que ele continuou ali por uns segundos, me observando sumir pela porta.
Fechei os olhos por um instante. Sorri sozinha.
Talvez esse recomeço improvável... fosse exatamente o que eu precisava pra voltar a sentir alguma coisa viva dentro de mim.
Entrei no quarto exausta, deixando meus sapatos caírem no chão com um suspiro. Me joguei de costas na cama e encarei o teto, um sorriso bobo se espalhando pelo meu rosto. Nem percebi quando a Jas apareceu na porta, com os braços cruzados e um sorriso malicioso.
— Ih, olha só quem tá toda boba… — ela cutucou.
Virei o rosto, tentando parecer séria.
— Para de graça, menina.
Ela pulou na cama ao meu lado, toda animada.
— Conta… o Kaique te trouxe em casa, né? Eu vi de longe! Pareciam até casal de novela das sete.
Me virei de lado e abracei o travesseiro.
— Ele só me acompanhou… nem foi nada demais.
Jas arqueou a sobrancelha, desconfiada.
— Ah, tá… e por que você tá sorrindo assim então? Nem quando como pastel de carne fico assim.
Fingi segurar o riso, mas não consegui. Dei um tapinha no braço dela.
— Ele é… diferente, sabe? Meio marrento, mas engraçado… e atencioso também.
Os olhos dela brilharam de empolgação.
— Amiga, já shippei! Pelo amor de Deus, esse homem é um bonde! E se ele tá te cercando desse jeito, é porque gostou MESMO.
Suspirei, sentindo o peito apertar.
— Só que eu tenho medo, Jas… medo de me envolver e me machucar de novo. Tem tanta coisa aqui dentro que nem sei se já cicatrizou de verdade.
Ela ficou séria e pegou minha mão com cuidado.
— Amiga, o que eu sei é que você tem um coração gigante. Mas chega de viver pela metade. O Luan sempre vai fazer parte de você, mas isso não quer dizer que você tem que congelar sua vida por causa dele.
Assenti, olhando pro teto.
— Às vezes parece que, se eu seguir em frente, tô traindo ele. Entende?
Jas sorriu, doce.
— Não, Helena. Você tá honrando o amor que teve, mostrando pro Benício que dá pra ser feliz mesmo depois da dor. E o Kaique… ele pode ser só o começo de uma nova história.
Baixei o olhar, quase sussurrando.
— Será?
— Só tem um jeito de descobrir. E, sinceramente? Já tá na hora de escrever capítulos novos. Você merece.
Ficamos em silêncio, dividindo aquele alívio de amizade que só a verdade e o afeto trazem. Jas se levantou, pegou o celular e voltou com seu jeitinho maroto:
— Agora falando sério… se você não quiser, me avisa que eu corro atrás! Porque, ó… aquele homem, misericórdia!
Me virei e atirei o travesseiro nela, rindo.
— Você é muito cara de p*u!
Ela jogou a mão pro lado, gargalhando:
— Só tô garantindo meu futuro, ué!
E caímos na risada, como nos velhos tempos.