Digão 🦂
Assim que entrei em casa, já senti o clima pesado no ar. O silêncio era denso, quase sólido. Um daqueles silêncios que grita. A luz da sala estava acesa, mas o ambiente parecia escuro, sufocado pela energia carregada.
Soraya estava parada no meio da sala, os olhos esbugalhados, o peito arfando, e o rosto vermelho de raiva. Suas unhas cravadas nas próprias mãos denunciavam o controle prestes a estourar. Ela não precisava falar — o ódio já estava no ar, escorrendo pelas paredes.
— Onde você estava, Rodrigo?! — a voz dela veio em forma de grito, cortando o ar como uma lâmina. — Eu tô falando com você, c*****o!
Respirei fundo. Não era a primeira vez. E infelizmente, eu sabia que não seria a última. A loucura de Soraya não tinha fundo, e eu já tava mergulhado até o pescoço.
— Na moral... fala com a minha mão — revirei os olhos, sem disposição nenhuma pra brigar. Virei as costas e fui direto pro quarto, ignorando a tempestade que vinha atrás.
Ela bateu a porta com tanta força que a madeira gemeu. Marchou até mim, os passos pesados como de quem pisa pra machucar o chão. Me encarou como se fosse me devorar com os olhos.
— Cheiro de perfume barato... Onde você tava, Rodrigo? — o tom agora vinha com nojo, como se ela estivesse cuspindo veneno a cada palavra.
— Tava por aí — respondi seco, tirando minha camisa. O calor do quarto parecia aumentar junto com a tensão. Fingi não ver a fúria crescendo nela, mas sentia cada segundo como uma bomba prestes a explodir.
— COM QUEM VOCÊ TAVA? NÃO ADIANTA NEGAR! — ela gritou descontrolada, os olhos vermelhos e as mãos tremendo. Sem pensar, começou a me bater com força, socos desordenados no peito, no braço, onde conseguia atingir.
— PARA COM ISSO, p***a! — segurei os braços dela com firmeza, sem machucar, mas com a intensidade de quem perdeu a paciência. — Abaixa esse tom pra falar comigo! Tá achando que é quem? Com quem ou onde eu ando não é, e nunca foi da tua conta!
— NÃO É DA MINHA CONTA?! — ela deu uma risada insana, descontrolada. — EU SOU TUA MULHER, c*****o! E VOCÊ É MEU MARIDO! TEM UMA ALIANÇA NESSA MÃO, NÃO TEM?!
Olhei pra minha mão. A aliança de ouro ali brilhando como se fosse prisão.
— f**a-se essa p***a de aliança! — cuspi as palavras, sentindo o sangue ferver. — A gente é casado só naquele papel maldito. Eu nunca te amei, e nunca vou amar!
Ela me deu um tapa. Um estalo seco que queimou meu rosto. Fiquei parado por um segundo, sentindo a ardência, lutando contra o impulso de revidar. Nunca encostei a mão nela. Não porque ela não merecesse, mas porque não ia descer ao nível da insanidade.
— É por causa daquela vagabunda, né? Aquela desgraçada... a mãe daquela pirralha maldita!
Meu corpo travou. O nome delas... na boca dela... sujo daquele jeito... era demais.
— Lava a boca pra falar delas! — avancei um passo, o peito inflado de raiva. — Esse assunto é nosso. Não mete elas no meio dessa tua loucura, Soraya!
Ela riu. Mas foi uma risada vazia, quase chorosa. Como se, por um segundo, tivesse percebido a própria miséria. Depois, veio até mim e tentou me abraçar. Meus ombros tremeram de nojo quando senti as mãos dela.
— Se ela não tivesse cruzado meu caminho, você seria meu. Todinho MEU!
— Me solta! — empurrei com força. — Tu é fora da casinha! Mesmo sem a Virgínia, eu jamais ia amar você. Nosso casamento sempre foi um acordo de conveniência, nada mais.
— Não é verdade! — os olhos dela encheram de lágrimas, mas era o tipo de lágrima que queima. — Eu te amo, Rodrigo! Eu te amo de verdade... pra sempre!
— Para de se enganar! Isso não é amor, é doença! — disse com nojo. — Tu sempre teve tudo na vida: carro, luxo, status... mas tem uma coisa que não pode comprar: meu coração. E isso te corrói por dentro, né?
Ela ficou em silêncio. Um segundo só. Mas aquele segundo foi suficiente pra eu entender: algo pior viria.
— Me diz aí... como é viver com alguém que só tá contigo porque foi obrigado? Como é ter um “marido” que não sente nada por você, só nojo e pena?
— Você não vai me deixar... — ela sussurrou, e o olhar se perdeu por um instante antes de explodir. — NÃO VAI! Se você me deixar, eu JURO... eu dou um jeito naquela sua filhinha e sumo com aquele trambolho de filho! Sabe, Rodrigo... acidentes acontecem o tempo todo...
O mundo parou.
O tempo se curvou.
Meu corpo congelou.
O que ela tinha acabado de dizer?
Meus olhos cravaram nos dela e um gelo percorreu minha espinha. Senti um ódio que nunca tinha sentido na vida. Um ódio que podia matar.
— Isso é uma ameaça?! — avancei com fúria, segurando o rosto dela, apertando o maxilar com tanta força que os olhos dela arregalaram. — Tenta encostar um dedo neles pra ver. Eu te juro, Soraya... juro que vou te matar da pior maneira possível. E nem vou me arrepender.
— Você acha que me mete medo, seu bosta? — ela cuspiu no meu rosto, os olhos completamente tomados pela loucura. — Você não sabe com quem tá lidando!
— Você é completamente doente! — gritei, limpando o rosto com o antebraço. A respiração arfava. O coração pulsava como se quisesse explodir no peito.
— Doente? Jura? — ela riu alto, insana. — Se isso é ser doente, então me interna logo. Porque você ainda nem viu a pior parte de mim... e vai ver.
Ela se jogou no sofá como se tivesse acabado de assistir a um bom espetáculo. Um sorrisinho cínico nos lábios, como se tivesse vencido.
— Agora sai da minha frente. Tua cara me dá enjoo.
Fiquei parado, olhando pra ela por alguns segundos. Não era mais só raiva. Era medo. Não por mim — eu já tinha lidado com gente muito pior que Soraya — mas por eles. Pela minha filha. Por Virgínia. Por tudo que eu ainda podia perder.
Neguei com a cabeça. Eu conhecia a loucura dela... mas agora ela tinha cruzado uma linha que não dava pra voltar.
E eu?
Eu tava pronto pra guerra.