JASMIN
O gosto dele ainda estava na minha pele. No meu pescoço. No meu peito acelerado.
Me afastei dele com a respiração descompassada, tentando recompor o mínimo de dignidade que ainda me restava. Meus dedos trêmulos tentavam arrumar os cabelos, ajeitar a roupa, dar algum sinal de normalidade ao que era, por dentro, puro caos.
Eu devia dizer que acabou. Que não dá mais. Que ele precisa voltar pra realidade dele, pra família dele, pra mulher que ainda carrega o sobrenome dele — mesmo que seja só por fachada.
Mas eu não consigo. Não quando ele me olha daquele jeito.
Não quando meu corpo inteiro implora por mais, mesmo que meu coração sangre de culpa.
— Jasmin... — ele falou meu nome num sussurro, como se dissesse uma prece. Ou um pecado.
Virei o rosto, porque se eu encarasse aqueles olhos agora, eu cederia de novo. E de novo. Até não sobrar mais nada de mim.
— A gente não pode continuar com isso, Rodrigo. — minha voz saiu baixa, quase inaudível. Mas era tudo o que eu conseguia. — É errado. É errado de todos os jeitos possíveis.
Ele se aproximou, encostou a testa na minha.
— Eu sei. Mas também sei que isso aqui é a única coisa que me faz sentir vivo.
Fechei os olhos, porque doía ouvir isso. Doía saber que eu era o escape dele. Que, mesmo sem querer, me tornei o refúgio de um homem que não era meu.
— E a Soraya? E a Helena? — perguntei quase sem voz. — Ela é minha melhor amiga, Rodrigo. Isso aqui... pode acabar com tudo.
Ele se afastou um pouco, passou a mão pelos cabelos, visivelmente perturbado. O nome da filha mexia com ele. Talvez fosse o único limite que ainda existia nele.
— Eu não sei o que fazer, Jas. Eu só sei que... quando tô longe de você, tudo parece cinza. Mas quando eu te toco... parece que o mundo volta a ter cor.
Quis gritar. Quis fugir. Quis apagar tudo e começar de novo.
Mas a vida não me deu essa opção.
Então, ao invés disso, me afastei. Peguei minha roupa no chão, vesti cada peça com o coração pesando mais que o corpo. Vesti não só a roupa, mas a culpa. O arrependimento. A sensação de que estava vivendo uma história que não podia terminar bem.
Antes de sair, olhei pra ele mais uma vez. E foi aí que disse:
— Se você quiser mesmo me ter... então me tenha do jeito certo. Fora das sombras. Fora da mentira. Do contrário... me deixa ir.
Saí do quarto dele sem olhar pra trás. Mas a alma ficou lá, presa entre os lençóis, no cheiro da pele dele, no peso dos nossos segredos.
Cada passo fora dali parecia pesar toneladas.
Lá fora, o som abafado da festa ainda ecoava. As risadas, a música, a vida — tudo seguia como se nada estivesse acontecendo. Mas dentro de mim, o mundo desmoronava.
Caminhei até o banheiro, lavei o rosto. Olhei no espelho.
Não me reconheci.
Quem era aquela mulher?
A que se deixava consumir por um amor que não podia existir?
A que traía uma amizade de anos por causa de um desejo incontrolável?
Me odiei.
Mas, pior que isso, desejei voltar.
DIGÃO
Eu devia deixar ela ir. Era o certo.
Mas o certo nunca me atraiu. E com a Jasmin... o certo parecia um castigo.
Ela era tempestade. Era veneno. Era salvação.
E eu era o covarde que nunca teve coragem de escolher.
Soraya podia ser um inferno, mas era o inferno que eu conhecia.
Com a Jasmin... era tudo novo. Intenso. Assustador.
Ela tinha um fogo nos olhos que me queimava por dentro.
Tinha um jeito de me olhar que me fazia sentir homem de novo.
Com ela, eu não era pai. Não era marido. Não era patrão, nem herói de ninguém.
Com ela, eu era só eu. E isso... era libertador.
— "Me tenha do jeito certo", — ela disse.
Como se fosse fácil. Como se eu não tivesse construído minha vida inteira em cima de pilares falsos, frágeis e podres.
Soraya não era mais amor. Era vício. Controle. Chantagem emocional.
Quantas vezes ela ameaçou se machucar se eu a deixasse? Quantas vezes fez da nossa filha um escudo?
E aí veio a Jasmin. Livre. Linda. Cheia de alma, cheia de feridas que ela tentava esconder — mas que eu via mesmo assim.
Eu não sabia tudo sobre ela.
Mas sabia que tinha dor ali.
Uma dor que me puxava, porque se parecia com a minha.
Quando ela falou em sair das sombras...
Algo em mim tremeu.
Eu sabia que não podia manter as duas. Que tava chegando o limite.
E, mesmo assim... a ideia de viver à luz com a Jasmin acendeu uma esperança que há muito tempo eu não sentia.
Talvez fosse tarde.
Talvez não houvesse jeito.
Mas, pela primeira vez, eu queria tentar.
JASMIN
Minhas pernas ainda tremiam quando encontrei a Helena na varanda, distraída olhando o celular. O coração disparou. Cada vez que a via, o peso da culpa me engolia mais.
Ela sorriu ao me ver, inocente, feliz.
— Sumiu, hein? — disse, me abraçando.
Engoli seco.
— Dei uma volta, precisava de um ar — menti. Como sempre.
Ela riu, me puxou pela mão.
— Vem, que o DJ começou a tocar funk raiz. Você vai amar!
Fui com ela. Porque era isso que eu sabia fazer. Fingir. Dançar. Sorrir.
Enquanto por dentro, morria um pouco mais.
Mas agora... depois do que aconteceu hoje... eu sabia que o tempo estava acabando.
Eu precisava escolher entre continuar sendo cúmplice da mentira — ou destruir tudo de uma vez.
Só não sabia ainda qual escolha doía mais.