Estava sentada na varanda de casa, vendo o Miguel brincar com uns carrinhos no quintal. O Digão chega devagar, com uma expressão séria, mas um sorriso contido ao ver a cena.
DIGÃO: — Posso chegar, princesa?
HELENA: — Sempre pode. - sorri de lado
Meu pai puxa uma cadeira ao lado.
DIGÃO: — Esse moleque é desenrolado igual tu. Um olho no carrinho, outro no mundo. - se senta, observa Miguel.
HELENA: — É o jeitinho dele. Vê tudo, escuta tudo, e fala na hora errada.
Digão fica em silêncio por uns segundos, depois respira fundo
DIGÃO: — Olha, eu vim trocar uma ideia séria contigo, Helena.
HELENA: — Quando tu chega assim, já sei que vem bomba. — erguei a sobrancelha, desconfiada.
DIGÃO: — Não é bomba… é proteção. É cuidado. - pausa — Eu quero que tu e o Miguel vão morar comigo no Vidigal.
HELENA: — O quê? Como assim, pai? Você sabe o que tá dizendo? - perguntei assustada.
DIGÃO: — Sei. Mais do que nunca. Eu vejo o jeito que tu tá tentando segurar o mundo nas costas sozinha. Trabalha, cuida do Miguel, vive com o coração apertado, achando que tem que ser forte o tempo inteiro.
HELENA: — Mas… morar aí contigo? No morro? Não é perigoso?
DIGÃO: — Helena… tu me conhece. Eu nunca ia botar vocês num canto onde não fosse seguro. Lá no alto do morro eu ajeitei uma casa pra mim, espaçosa, com dois quartos, varanda, até jardim tem. É tranquilo, ninguém mexe comigo. E ninguém encosta em vocês.
HELENA: — E se isso mudar? Se alguma coisa acontecer? - olho pro Miguel, pensativa.
DIGÃO: — Então deixa eu cuidar. Me deixa ser esse porto seguro. Tu não precisa mais enfrentar tudo sozinha. E ele… (olha pro neto) o Miguel merece crescer cercado de amor, de gente que protege ele.
HELENA: — Eu só… eu só quero paz, pai. Só isso. - falo com a voz embargada.
DIGÃO: — E é isso que eu tô te oferecendo. Uma chance de recomeçar. Com apoio, com colo, com família. - se levanta, se abaixa diante de mim, pega minhas mãos.
HELENA: — Você tem certeza que quer aguentar duas bocas a mais? - por fim, sorri fraco, com os olhos marejados.
DIGÃO: — Aguento até três se você quiser ter outro.
HELENA: — i****a! - dou um tapa leve no braço dele, rindo.
DIGÃO: — Mas teu pai i****a, né?
A gente se abraçam. Miguel, do outro lado, grita.
MIGUEL: — Vovô Digão! Olha meu carrinho novo!
DIGÃO: — Já tô indo aí, meu parceiro!gritando de volta.
Eu observo os dois, com o coração mais leve. Talvez, pela primeira vez em muito tempo, sentindo que pode confiar em alguém de novo.
Perfeito! Aqui vai a continuação emocionante: a mudança de Helena e Miguel para o Vidigal, marcada por expectativa, medo do novo e também aquele calor de recomeço com amor e união.
•••
Na manhã seguinte. Eu já terminei de fechar uma mala enquanto Miguel coloca os brinquedos favoritos numa mochila. Há caixas pela casa e uma sensação de despedida no ar.
HELENA: — A casa nem era tudo isso… mas foi aqui que tudo mudou. - suspira olhando ao redor)
MIGUEL: — A gente vai voltar um dia?
HELENA: — Talvez, filho… mas por enquanto a gente vai pra um lugar onde tem o vovô, e onde a mamãe vai poder respirar melhor. Vai ser bom, você vai ver.
SOM de buzina do lado de fora. É o Digão, no carro, esperando. Helena respira fundo mais uma vez e se levanta.]
HELENA: — Pronto? - pergunto e ele sorri confirmando.
MIGUEL: — Pronto!
O carro de Digão já está com o porta-malas aberto. Miguel, com sua mochilinha nas costas, segura a mão da mãe. Kaylane e Petra estão parados na calçada, meio sem saber como começar a despedida.]
Kay: — c*****o… não acredito que tu vai mesmo, mulher. - abraça Helena forte, segurando o choro.
HELENA: — A vida mudou, Kay… Agora é o Miguel. É o futuro dele. Mas tu sabe que meu coração vai ficar aqui contigo, né?
Kay: — Eu sei. Mas dói, viu? Cê foi minha parceira em tudo… nos lutos, nas loucuras, nas madrugadas doidas… Quem vai rir das minhas palhaçadas agora?
HELENA: — O w******p tá aí pra isso, sua doida. E ó… não é um adeus, é só um “até daqui a pouco”.
Kaylane se agacha, ficando na altura de Miguel. Segura as mãozinhas dele com carinho.
Kay: — Ei, coisa linda… cuida da tua mãe, viu? Tu é o homenzinho dela agora. E quando der saudade, tu me liga, nem que seja só pra contar que comeu besteira escondido!
MIGUEL: — Eu vou sentir saudade, dinda. Tu é legal… e faz as melhores panquecas do mundo!
Kaylane sorri com os olhos marejados, dá um beijo estalado na bochecha dele e se levanta.
Petra, que tava em silêncio, se aproxima de Helena. Os dois trocam um olhar firme, carregado de história.
PETRA: — Nunca fui bom com palavras… mas você sabe que eu torço por ti, né? Sempre torci. Tu é guerreira demais.
HELENA: — Sei sim. Obrigada por tudo que fez por mim, Petra. Cê foi mais irmão do que muito sangue por aí. Cuida da Kaylane por mim, tá?
PETRA: — Pode deixar. E qualquer coisa… qualquer coisa mesmo, tu sabe onde me achar.
Eu dou um sorriso, seguro a mão do meu filho e começa a caminhar em direção ao carro. Antes de entrar, ela se vira uma última vez.
HELENA: — Amo vocês. Obrigada por terem sido minha família quando eu mais precisei.
Kay: — A gente te ama, p***a! Vai ser feliz! E manda um vídeo do Miguel aprendendo a andar de bike, hein!
Eu entro no carro com Miguel. O carro vai saindo devagar, enquanto Petra abraça Kaylane de lado, e os dois ficam ali, olhando até sumirem na esquina.
O carro vai subindo, com o sol nascendo por trás dos morros. Olho pela janela, observando as ruas, os grafites, os campos improvisados de futebol, as crianças brincando. Um retrato da vida real. Da resistência.
DIGÃO: — Tá preparada pra nova vida, filha?
HELENA: — Não sei… mas acho que ninguém nunca tá preparado de verdade, né?
DIGÃO: — O importante é que tu tá indo pra perto de quem te ama. E lá em cima, vocês vão ter paz. Palavra do Digão.
A casa é simples, mas cheia de vida. Pintada de branco com detalhes em azul, plantas na varanda, brinquedos já espalhados no quintal. O sol bate bonito no jardim.
MIGUEL: — Mamãe! Tem uma rede! E tem um pé de jabuticaba! Eu posso subir? - correu pelo quintal.
HELENA: — Não! Primeiro entra e tira o tênis!
DIGÃO: — Aqui ninguém vai te julgar se ficar de pijama até meio-dia ou se chorar sem motivo. Essa casa aqui é tua agora. Tudo nosso.
HELENA: — Eu não sei nem como te agradecer.
DIGÃO: — Só me deixe cuidar de vocês. Só isso. - coloca a caixa no chão, passa o braço ao redor dela)
Miguel entra na casa correndo, rindo alto. Um novo capítulo começa ali. Um recomeço com cheiro de café fresco, com barulho de passarinhos e esperança no peito.