Velhos fantasmas usam perfume barato.
Helena
Eu tava organizando as araras da nova coleção, tentando manter o foco no trabalho enquanto o rádio da loja tocava um pagode baixinho. Ajeitei uma blusa listrada no cabide, dei dois passos pra trás e respirei fundo.
A campainha da porta tilintou.
Levantei os olhos por reflexo — e congelei.
Ali, parado na entrada da loja, de óculos escuros, jaqueta preta e aquele sorriso cínico que eu reconheceria até de costas, estava Lucas. O garoto que, um dia, fez meu coração acelerar no pátio da escola… e depois esmagou ele com uma frase só.
Meu estômago virou. O braço gelou. E o tempo pareceu recuar uns bons dez anos.
— Lucas? — minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. — Que diabos você tá fazendo aqui?
Ele tirou os óculos, devagar, revelando os mesmos olhos de deboche.
— Olha só quem tá viva… — disse, sorrindo torto. — Quase não te reconheci. Cresceu, hein?
Cruzei os braços na frente do peito, instintivamente me protegendo.
— Coincidência demais pra mim. Fala logo: o que você quer?
Ele deu alguns passos pela loja, como se tivesse direito de estar ali. Como se não carregasse a lembrança de quando me chamou de “ridícula” por achar que poderia ter chance com ele.
— Relaxa, Helena… só queria conversar. Matar a saudade. — ele piscou. — Ou você já esqueceu dos velhos tempos?
Dei um passo pra trás, firme.
— Esqueci. E ainda tô tentando esquecer o pesadelo que foi ter me apaixonado por você.
Por um instante, vi o sorriso dele vacilar. Mas logo voltou, mais venenoso.
Lá do fundo da loja, a Pri me chamou:
— Hel! Dá uma força aqui, por favor!
Agradeci mentalmente pela salvação.
Virei pra ele uma última vez:
— Vai embora, Lucas. Aqui você não vai conseguir o que quer. Nem conversa, nem atenção.
Ele se virou devagar, mas antes de sair, lançou por cima do ombro:
— A gente vai se ver de novo… mais cedo do que você imagina.
A porta se fechou com um tilim seco, e eu fiquei ali parada, com o coração batendo forte — mas não por ele. Era por mim mesma. Pela menina de antes. Pela mulher que agora sabia se defender.
Peguei a blusa da arara com mais força do que precisava e sussurrei pra mim mesma:
— Nunca mais.
Eu ainda tava com os ombros tensos e as mãos trêmulas por causa do encontro inesperado com o Lucas. Tentei disfarçar, lavei o rosto, voltei pra sala, mas o gosto r**m não passava. Era como se a menina de quatorze anos ainda estivesse ali, chorando em silêncio no banheiro da escola.
Foi quando ouvi três batidinhas suaves na porta.
Abri com cuidado… e lá estava o Kaique.
Na mão, um potinho de brigadeiro de panela, com uma colherzinha enfiada de lado. No rosto, aquele sorriso torto de quem sabe entrar na hora certa.
— Trouxe sobremesa — disse, erguendo o pote. — Brigadeiro de panela. Meio doce, meio amargo… tipo eu.
Deixei escapar um sorriso cansado.
— Obrigada… — peguei o potinho e abri espaço pra ele entrar. — Mas tá tudo bem?
Ele me olhou nos olhos e percebeu antes mesmo de eu responder.
— Tá tudo bem?
Suspirei, sentando no sofá. Balancei a cabeça devagar.
— Apareceu alguém do meu passado hoje… alguém que eu preferia esquecer.
Ele se aproximou, sentou do meu lado sem invadir o espaço, só ficando ali, presente.
— Ele te fez m*l?
Encarei o chão antes de olhar pra ele. Meus olhos arderam, mas não queria chorar de novo.
— Muito. — minha voz saiu baixa, firme mesmo assim.
O rosto dele ficou sério. Mas não com raiva. Com cuidado. Com aquele tipo de firmeza que protege sem sufocar.
— Então fica tranquila. — ele disse. — Qualquer coisa, eu tô aqui. Ninguém mais te machuca.
Ele estendeu a mão, simples, direta, sincera. Segurei sem pensar. Era quente. Forte. Real.
As lágrimas queimaram de novo, mas dessa vez foi diferente. Era como se eu tivesse abrindo uma fresta na muralha.
— Obrigada por estar aqui — sussurrei.
Ele sorriu, e naquele olhar tinha algo mais profundo do que palavras. Um tipo de promessa muda.
— Não tem pra onde fugir. — ele apertou minha mão de leve. — Eu já sou parte da tua vida agora… e do Miguel também.
Fechei os olhos por um segundo, deixando aquela frase pousar no meu peito como um cobertor quente. Pela primeira vez em muito tempo… eu acreditei.