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763 Palavras
Velhos fantasmas usam perfume barato. Helena Eu tava organizando as araras da nova coleção, tentando manter o foco no trabalho enquanto o rádio da loja tocava um pagode baixinho. Ajeitei uma blusa listrada no cabide, dei dois passos pra trás e respirei fundo. A campainha da porta tilintou. Levantei os olhos por reflexo — e congelei. Ali, parado na entrada da loja, de óculos escuros, jaqueta preta e aquele sorriso cínico que eu reconheceria até de costas, estava Lucas. O garoto que, um dia, fez meu coração acelerar no pátio da escola… e depois esmagou ele com uma frase só. Meu estômago virou. O braço gelou. E o tempo pareceu recuar uns bons dez anos. — Lucas? — minha voz saiu mais firme do que eu me sentia. — Que diabos você tá fazendo aqui? Ele tirou os óculos, devagar, revelando os mesmos olhos de deboche. — Olha só quem tá viva… — disse, sorrindo torto. — Quase não te reconheci. Cresceu, hein? Cruzei os braços na frente do peito, instintivamente me protegendo. — Coincidência demais pra mim. Fala logo: o que você quer? Ele deu alguns passos pela loja, como se tivesse direito de estar ali. Como se não carregasse a lembrança de quando me chamou de “ridícula” por achar que poderia ter chance com ele. — Relaxa, Helena… só queria conversar. Matar a saudade. — ele piscou. — Ou você já esqueceu dos velhos tempos? Dei um passo pra trás, firme. — Esqueci. E ainda tô tentando esquecer o pesadelo que foi ter me apaixonado por você. Por um instante, vi o sorriso dele vacilar. Mas logo voltou, mais venenoso. Lá do fundo da loja, a Pri me chamou: — Hel! Dá uma força aqui, por favor! Agradeci mentalmente pela salvação. Virei pra ele uma última vez: — Vai embora, Lucas. Aqui você não vai conseguir o que quer. Nem conversa, nem atenção. Ele se virou devagar, mas antes de sair, lançou por cima do ombro: — A gente vai se ver de novo… mais cedo do que você imagina. A porta se fechou com um tilim seco, e eu fiquei ali parada, com o coração batendo forte — mas não por ele. Era por mim mesma. Pela menina de antes. Pela mulher que agora sabia se defender. Peguei a blusa da arara com mais força do que precisava e sussurrei pra mim mesma: — Nunca mais. Eu ainda tava com os ombros tensos e as mãos trêmulas por causa do encontro inesperado com o Lucas. Tentei disfarçar, lavei o rosto, voltei pra sala, mas o gosto r**m não passava. Era como se a menina de quatorze anos ainda estivesse ali, chorando em silêncio no banheiro da escola. Foi quando ouvi três batidinhas suaves na porta. Abri com cuidado… e lá estava o Kaique. Na mão, um potinho de brigadeiro de panela, com uma colherzinha enfiada de lado. No rosto, aquele sorriso torto de quem sabe entrar na hora certa. — Trouxe sobremesa — disse, erguendo o pote. — Brigadeiro de panela. Meio doce, meio amargo… tipo eu. Deixei escapar um sorriso cansado. — Obrigada… — peguei o potinho e abri espaço pra ele entrar. — Mas tá tudo bem? Ele me olhou nos olhos e percebeu antes mesmo de eu responder. — Tá tudo bem? Suspirei, sentando no sofá. Balancei a cabeça devagar. — Apareceu alguém do meu passado hoje… alguém que eu preferia esquecer. Ele se aproximou, sentou do meu lado sem invadir o espaço, só ficando ali, presente. — Ele te fez m*l? Encarei o chão antes de olhar pra ele. Meus olhos arderam, mas não queria chorar de novo. — Muito. — minha voz saiu baixa, firme mesmo assim. O rosto dele ficou sério. Mas não com raiva. Com cuidado. Com aquele tipo de firmeza que protege sem sufocar. — Então fica tranquila. — ele disse. — Qualquer coisa, eu tô aqui. Ninguém mais te machuca. Ele estendeu a mão, simples, direta, sincera. Segurei sem pensar. Era quente. Forte. Real. As lágrimas queimaram de novo, mas dessa vez foi diferente. Era como se eu tivesse abrindo uma fresta na muralha. — Obrigada por estar aqui — sussurrei. Ele sorriu, e naquele olhar tinha algo mais profundo do que palavras. Um tipo de promessa muda. — Não tem pra onde fugir. — ele apertou minha mão de leve. — Eu já sou parte da tua vida agora… e do Miguel também. Fechei os olhos por um segundo, deixando aquela frase pousar no meu peito como um cobertor quente. Pela primeira vez em muito tempo… eu acreditei.
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