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647 Palavras
Fantasmas à Espreita Helena Eu estava terminando de acomodar o Miguel na cama. Ele já respirava fundo, com os cílios longos descansando sobre as bochechas rosadas. Ajeitei o cobertor com carinho e beijei sua testa, prestes a sair do quarto, quando uma voz firme rompeu o silêncio da rua quase deserta: — Tá procurando alguma coisa aí, irmão? Era o Kaique. A voz dele atravessou a janela entreaberta como um trovão calmo, mas ameaçador. Meu corpo congelou. Fui até a janela devagar, com o coração acelerado, e espiando pelo vidro, vi. Lá estava ele. Parado do outro lado da rua, mãos no bolso, corpo inclinado pra frente. Lucas. O mesmo olhar cínico de sempre. O mesmo sorriso arrogante. — Não tem nada de bonito em espiar a casa de uma mulher sozinha com filho pequeno. Tu conhece ela? — Kaique falou de novo, já se afastando da parede em que estava encostado. Lucas cruzou os braços e respondeu num tom que me fez querer vomitar. — Conheço. E muito mais do que você pensa. Kaique deu um passo à frente, o corpo inteiro tenso. — Então já devia saber que esse tipo de atitude não vai colar. Tá assustando a Helena e o filho dela, e eu não vou deixar isso acontecer. Vai embora. Lucas riu, debochado, como fazia quando queria provocar. — E você é quem pra dar ordem? A resposta veio seca. — Sou o cara que tá aqui agora. E que não vai deixar nenhum lixo do passado vir perturbar a vida dela. Se tu tem alguma pendência, resolve na justiça. Mas se vier com gracinha, eu mesmo dou conta de ti. Por um segundo, tudo ficou em silêncio. Os dois se encarando como numa batalha sem armas. Lucas levantou o queixo, sarcástico: — Tá apaixonadinho, é? Kaique nem se abalou. — Tô cuidando de quem importa. Isso te incomoda? Azar o teu. A tensão era tanta que dava pra cortar o ar com uma faca. Eu não conseguia desgrudar os olhos da cena. Até que Lucas deu um passo pra trás. Ainda jogou as últimas palavras, como uma ameaça murcha: — Isso não acabou. Kaique, firme, sem piscar: — Pra você acabou sim. Some daqui antes que eu faça você se arrepender de ter voltado. Lucas lançou um último olhar pra casa. Aquele olhar que me fez encolher anos atrás. Mas agora… agora tinha alguém lá fora, firme no meu lugar. Ele virou as costas e desapareceu na escuridão da rua. Corri pra sala, ainda trêmula, quando ouvi a chave girando. Kaique entrou devagar, fechando a porta atrás de si. O rosto dele ainda carregava tensão, mas a voz saiu baixa, suave, como quem não queria me assustar mais. — Nada que você precise se preocupar… só um fantasma do passado que apareceu, mas já mandei ele embora. Me sentei no sofá, as mãos tremendo, o coração numa batida descompassada. — Era o Lucas, né? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta. Ele assentiu e se aproximou, sentando ao meu lado. — Olha pra mim… — ele disse, firme e calmo — Ele não vai te fazer m*l, eu prometo. Enquanto eu estiver por perto, ninguém encosta um dedo em você ou no Miguel. Meus olhos marejaram. Estiquei a mão e apertei a dele com força, como se aquilo pudesse me ancorar. — Obrigada, Kaique… você não faz ideia do que isso significa pra mim. Ele sorriu, daquele jeito que só ele tem. Aquele sorriso de “tô aqui”, de quem não precisa fazer promessas vazias, porque cumpre tudo no olhar. — Não tem pra onde fugir. — ele disse, apertando de volta minha mão. — Eu já sou parte da tua vida agora… e do Miguel também. Olhei pra ele, e tudo em mim quis acreditar. E pela primeira vez em muito tempo… eu senti que podia descansar de verdade.
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