17

831 Palavras
Pastel, Caldo e Confissões Helena O Miguel já dormia, enrolado no cobertor, o peito subindo e descendo devagar, sereno. Fiquei ali por alguns segundos, admirando aquele coraçãozinho tranquilo que era meu mundo inteiro. Depois me aconcheguei no sofá da sala, só com uma manta fina, abraçando minhas próprias dúvidas. A casa estava em silêncio — só o som da minha respiração e o relógio da parede. Foi quando a campainha tocou. Meu peito deu um pulo. Fui até a porta, hesitante, e abri devagar. Kaique estava ali, com um sorriso meio tímido e uma sacola na mão. — Trouxe pastel e caldo de cana — disse, erguendo a sacola como se fosse um presente valioso. — Não sei se você já jantou, mas achei que podia ser legal… só nós dois. Sorri, surpresa e aliviada. — Você leu meus pensamentos. Tô morrendo de fome! Pouco depois, a sala tava tomada por aquele cheiro maravilhoso de pastel estalando no papel pardo. Sentamos no chão mesmo, entre risadas e goles de caldo doce, improvisando um jantar como dois adolescentes famintos. — Você sabia que o Miguel me pediu pra ensinar ele a andar de skate? — perguntou, enquanto mastigava. — Sério? — me espantei. — Ele nunca pede nada assim pra ninguém. Kaique sorriu, orgulhoso. — É… acho que ele tá começando a confiar em mim. E eu gosto disso, Helena. Gosto de vocês dois. Fiquei sem jeito, baixei o olhar, mas meu coração já pulava no peito. Ele continuou, com a voz mais firme: — Eu sei que você ainda tá se curando. Que tem cicatrizes. Mas eu não tô com pressa. Tô aqui. E, se você deixar, quero fazer parte disso. Parte da sua história… da história do Miguel também. Senti os olhos arderem. Respirei fundo, olhei pra ele e deixei sair: — E se eu te disser que também tô começando a querer isso? Que, pela primeira vez em muito tempo, eu consigo imaginar alguém do meu lado sem dor? O sorriso dele iluminou o ambiente mais que qualquer lâmpada. — Então a gente vai construindo juntos. No nosso tempo. Me aproximei e encostei a cabeça no ombro dele, sentindo o corpo dele relaxar sob o meu toque. Ficamos em silêncio, só ouvindo o coração um do outro. — Obrigada… por ser diferente — murmurei. Ele segurou minha mão, entrelaçando os dedos com os meus. — Não precisa agradecer. Só me promete uma coisa? — Qual? — Que você vai me dar a chance de te fazer feliz. Assenti, sentindo pela primeira vez em anos… que eu podia me permitir tentar de novo. Digão Eu tava debaixo de um Chevette, todo sujo de graxa, quando ouvi o portão bater. Empurrei o carrinho com o corpo e levantei a cabeça — Kaique vinha entrando com duas cervejas na mão e aquele sorrisinho de moleque que fez merda. — E aí, véi… trouxe uma gelada. Você merece depois desse trampo aí. Saí debaixo do carro, limpei as mãos na camiseta velha e peguei a cerveja. — Até que enfim tu fez algo que presta, hein! — disse, estourando a tampa com o polegar. — Fala logo, o que tu quer? — Nada não… só vim trocar uma ideia, de leve. E saber se a Helena tá bem. Franzi a testa, tentando disfarçar o incômodo. — Ué, desde quando tu se preocupa com a minha filha? Ele deu de ombros, tentando parecer casual, mas eu conheço homem. E conheço ele. — Ah, Digão… tu sabe. Ela é gente boa. Conversar com ela é diferente, tá ligado? Cruzei os braços, ficando em pé diante dele. — Diferente como, Kaique? Tipo… diferente de quem tu já pegou por aí? Ele soltou um riso rápido. — Pô, nem vem com essa. Eu gosto da presença dela, só isso. Tomei um gole da cerveja, sem tirar os olhos dele. — Ahn… presença… sei… e esse “gostar” aí tem limite, né? Tipo… limite de amigo do pai dela? Ele ficou sério. — Relaxa, véi. Eu não sou moleque. Tô sendo sincero. Não tô aqui pra zoar com o coração de ninguém não. Soltei uma risada seca, mas verdadeira. A sinceridade tava ali, mesmo que disfarçada de ginga. — Se eu descobrir que tu tá metido com gracinha com a Lena… tu vai virar graxa junto com esse carro aqui, ouviu? Ele ergueu as mãos, rindo nervoso. — Tá tranquilo, patrão! Só tô me aproximando na moral. Se for pra dar certo, vai ser com respeito. Assenti devagar, batendo no ombro dele com um pouco mais de força do que o necessário. — Tá bom… vou fingir que a cerveja me convenceu. Mas se magoar minha filha, Kaique… a oficina vira teu túmulo. Ele engoliu em seco, mas manteve o sorriso. — Entendido, chefia. A gente brindou em silêncio. E eu pensei: se esse moleque tiver coragem de encarar minha menina com o mesmo cuidado que encara a rua, o perigo… então talvez ele mereça uma chance.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR