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769 Palavras
Kaique O reencontro na loja Entrei na loja na moral, só pra trocar uma ideia com a Jas mesmo. Nada demais. Mas assim que botei o pé dentro, ouvi a voz dela do balcão. — Olha quem resolveu aparecer... E aí, sem-vergonha? — Vim ver se cê ainda trampava aqui ou já tinha sido demitida por preguiça — respondi, rindo. A gente já tinha essa liberdade. Era leve. Ela riu, apontando com a cabeça pra dentro da loja. — Engraçadinho... A Helena tá aí, hein. Se comporta. Virei o rosto, meio sem pensar, e foi aí que eu vi. Ela tava ali, agachada, arrumando umas peças na arara. Coque simples no cabelo, maquiagem leve, roupa básica. Mas por algum motivo... travou minha atenção. Como se fosse a primeira vez que eu via ela de verdade. — Quem é essa menina? — soltei sem perceber que tava perguntando alto. Jas caiu na risada. — Para de caô. Tu sabe muito bem quem é. A Helena, filha do Digão. — Sei... é que... sei lá. Ela tá diferente hoje? — Tá não. Tu que nunca parou pra olhar de verdade — respondeu, debochada. Helena levantou o rosto e sorriu pra mim. Um sorriso simples, mas certeiro. — Oi... tudo bem? Dei uma engasgada seca. — Tudo... tudo sim. E você? — Tô bem. Só cansada. Final de expediente é puxado, né? — É... imagino. Fiquei uns segundos ali, meio travado. Até que escapou. — Tu sempre foi assim? — Assim como? — Sei lá... simpática. Ela sorriu de canto. — Às vezes. Depende da pessoa... — Então tô no lucro, né? — soltei, meio brincando, meio falando sério. A gente trocou um olhar que durou mais do que devia. A Jas ainda falava alguma coisa no fundo, mas eu já não ouvia. Tava ali, prestando atenção no que até pouco tempo atrás eu nem percebia. Alguma coisa tinha mudado. Ou talvez... eu só tivesse finalmente acordado. [ALGUNS DIAS DEPOIS – FIM DE TARDE] Voltei. Nem sabia bem por quê. Quer dizer, sabia. Mas menti até pra mim mesmo dizendo que tava “só passando”. Ela tava no balcão, arrumando a vitrine, sozinha. O sininho da porta tocou e ela olhou na minha direção. A expressão dela mudou na hora. E eu, tentando parecer natural, fui até ela. — Ué... você de novo? — disse, sorrindo surpresa. — Tava passando por aqui... pensei “vou ver se tem alguma parada maneira pra dar de presente”. — Presente? Pra quem? — ela levantou a sobrancelha, desconfiada. Soltei a primeira coisa que me veio à cabeça. — Ah... pra minha prima. — Qual das dezessete? Soltei uma risada sem graça. Era isso que ela fazia comigo. Me deixava leve. — Tá, talvez não seja pra ninguém. Mas vai que eu compro alguma coisa e aparece alguém pra eu dar, né? Ela riu, balançando a cabeça, e eu fui me aproximando mais do balcão. — E aí, como você tá? Sobreviveu à semana? — Tô viva, então acho que sim. Mas tô exausta. Só o Miguel pra me dar energia no fim do dia. Ela falou dele com tanto carinho que eu parei por um instante. — Cê fala dele com tanto amor... isso é bonito de ver, sabia? Ela ficou um pouco tímida. E isso me fez sorrir. — Ele é minha vida. Sem ele eu não sei nem quem eu seria. — Acho que seria a mesma Helena... forte pra caramba. Talvez um pouco menos brava — falei, rindo. — Brava? Eu? Eu sou um anjo! — Anjo com gênio de escorpião — provoquei. Ela me empurrou de leve no ombro. O silêncio que veio depois não foi desconfortável. Foi daqueles que dizem mais do que qualquer fala. A gente se olhou. Por um segundo, o tempo desacelerou. Desviei o olhar, meio sem jeito. — Enfim... só passei pra ver se cê tava bem mesmo. — Tô sim. Obrigada por vir — ela disse, sincera. Dei um passo pra trás, já indo embora, mas não consegui sair sem tentar: — Qualquer dia desses, se você topar, podia me deixar te levar pra tomar um açaí. Nada demais... só trocar ideia. Ela pareceu pega de surpresa, mas o sorriso dela foi daquele tipo que desmonta a gente inteiro. — Vou pensar no seu caso, Kaique. Pisquei pra ela. — Já é. Mas não demora a pensar, hein. Vai que a “prima” aparece mesmo. Saí da loja com um sorriso i****a no rosto. E pela primeira vez em muito tempo, senti que queria mesmo conhecer alguém... de verdade.
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