Frio na barriga e um convite inesperado
Helena
Tô deitada na cama, mexendo no celular, mas minha cabeça tá longe. Aquele momento na loja... não sai da minha mente. O jeito como ele me olhou, o jeito como falou comigo. Tinha alguma coisa diferente no ar. Uma tensão boa, sabe?
A Jas entra no quarto com uma tigela de pipoca, fazendo aquele barulho irritante de sempre.
— Que cara é essa, menina? Tá com fome ou tá apaixonada?
Reviro os olhos, já sabendo onde isso vai parar.
— Aff, Jas...
Ela se joga na cama do meu lado, como sempre faz quando tá a fim de arrancar alguma confissão.
— Fala logo! Desembucha, vai. Que que aconteceu? Tô vendo esse sorrisinho disfarçado.
Dou uma risadinha, meio sem querer.
— O Kaique... passou lá na loja hoje.
Ela arregala os olhos.
— Eita! Foi comprar o quê?
— Nada. Quer dizer... ele inventou que ia comprar um presente pra “prima”.
— Ah, para! — ela ri — Ele foi só pra te ver, Lena. Esse negócio de prima é um golpe velho. Continua...
Suspiro, olhando pro teto como se fosse encontrar as palavras lá.
— Ele só ficou ali conversando... perguntou de mim, do Miguel... no fim, ele meio que me chamou pra tomar um açaí.
A Jas solta um grito que quase me faz pular da cama.
— QUÊÊÊ?! — a pipoca voa metade no colchão — Eu sabia! Sabia que aquele homem tava te olhando diferente!
— Calma, nem aceitei ainda. Ele só falou “se eu topasse”...
— E você vai topar, né? Vai dizer que não ficou com aquele friozinho na barriga? Hein?
Fico quieta. Sorrio de canto. A verdade é que fiquei sim. Mas...
— Sei lá, Jas. Ele é amigo do meu pai. E o Digão não vai curtir nada isso, você conhece ele...
— Ah, Lena, teu pai não precisa saber agora. E outra... se for pra esperar o Digão aceitar, tu vai virar freira.
Rio alto.
— i****a!
— Eu tô falando sério, mulher! Você merece ser feliz, sair, se permitir. E o Kaique, olha... ele parece ser diferente, viu? Meio largado, mas com aquele jeito meio bruto de cuidar.
Fico em silêncio de novo. O jeito dele me desmonta. Simples. Verdadeiro. Mas o medo...
— Eu só tenho medo de me envolver e me machucar de novo, Jas...
— Medo tu vai ter sempre, mas às vezes é nesse “vai com medo mesmo” que a vida muda, sabia?
Me afundo no travesseiro, olhando pro teto. A voz dela ecoa na cabeça.
— Eu vou pensar...
Ela se deita do meu lado e me encara.
— Só não demora muito, que esse tipo de homem não fica solteiro dando sopa por aí.
— Tá parecendo a Kaylane falando.
— Pois escuta ela, que nesse caso, tá certa!
A gente cai na risada juntas. E naquele riso, tem algo novo. Expectativa. Desejo. E um pedacinho de coragem nascendo.
Tô sentada na cama com a Jas de novo, como se nada tivesse mudado — mas tudo mudou.
— E aí, dona Helena... vai continuar enrolando ou já vai aceitar logo esse convite?
Cruzo os braços, meio nervosa.
— Ai, Jas... eu não sei. Ele é diferente, sabe? Me trata com respeito, é gentil, não força nada. Mas ao mesmo tempo, dá um frio na barriga.
— É exatamente esse frio que tu tem que sentir! Se fosse morno, eu ia mandar tu correr.
— Ele me chamou pra dar um rolê... nada demais, só uma volta no Vidigal, tomar um açaí.
Ela já tá com aquele brilho no olho, me esperando dizer sim.
— E tu vai dizer o quê? Que não pode porque o coração está com medo? Amiga, tu sobreviveu ao pior! Tu merece viver melhor.
— Tá bom, tá bom... eu vou aceitar. Mas não vou me empolgar, tá?
— Ahhh, que emoção! Já posso preparar teu look?
— Nem vem! Eu escolho. E sem exagero dessa vez!
[EXT. ESCADARIA DO VIDIGAL – NOITE]
Subo devagar, com aquele frio na barriga me acompanhando a cada passo. Quando vejo ele encostado na mureta, olhando a cidade, meu coração dá uma batida mais forte.
Camiseta preta, corrente discreta, boné pra trás. Simples. Mas bonito. Autêntico.
Ele vira e sorri.
— Atrasada, mas perdoada... Tá linda.
Sinto meu rosto queimar.
— Obrigada. Você também... tá bem diferente do que eu tô acostumada.
— Diferente como?
— Sei lá... calmo. Tranquilo. Parece que o mundo lá fora não te afeta.
— Quando tô com você, o mundo lá fora não importa muito mesmo.
A gente começa a andar devagar. Ele compra dois açaís e me entrega um.
— Com leite condensado, do jeitinho que tu gosta, né?
Olho surpresa.
— Como tu sabe?
— Eu observo. Quem observa, entende.
A gente senta ali mesmo, na mureta. O vento bate leve, a cidade lá embaixo brilha. Silêncio bom.
— Você tem um brilho diferente, sabia? Mesmo com tudo que já passou... ainda brilha.
Sinto meu peito apertar. Engulo seco.
— Nem sempre eu me sinto assim.
— Então deixa eu te lembrar sempre que esquecer.
Olho pra ele. Os olhos dele são calmos. Sinceros. Ele não me pressiona. Só fica ali, presente.
— Você é cheio das palavras bonitas, né?
— Não. Só falo a verdade... quando ela vale a pena.
A gente ri, quebrando o clima intenso. E assim seguimos, entre um gole de açaí e uma confissão leve, descobrindo um ao outro. Sem pressa. Sem máscaras.