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928 Palavras
Frio na barriga e um convite inesperado Helena Tô deitada na cama, mexendo no celular, mas minha cabeça tá longe. Aquele momento na loja... não sai da minha mente. O jeito como ele me olhou, o jeito como falou comigo. Tinha alguma coisa diferente no ar. Uma tensão boa, sabe? A Jas entra no quarto com uma tigela de pipoca, fazendo aquele barulho irritante de sempre. — Que cara é essa, menina? Tá com fome ou tá apaixonada? Reviro os olhos, já sabendo onde isso vai parar. — Aff, Jas... Ela se joga na cama do meu lado, como sempre faz quando tá a fim de arrancar alguma confissão. — Fala logo! Desembucha, vai. Que que aconteceu? Tô vendo esse sorrisinho disfarçado. Dou uma risadinha, meio sem querer. — O Kaique... passou lá na loja hoje. Ela arregala os olhos. — Eita! Foi comprar o quê? — Nada. Quer dizer... ele inventou que ia comprar um presente pra “prima”. — Ah, para! — ela ri — Ele foi só pra te ver, Lena. Esse negócio de prima é um golpe velho. Continua... Suspiro, olhando pro teto como se fosse encontrar as palavras lá. — Ele só ficou ali conversando... perguntou de mim, do Miguel... no fim, ele meio que me chamou pra tomar um açaí. A Jas solta um grito que quase me faz pular da cama. — QUÊÊÊ?! — a pipoca voa metade no colchão — Eu sabia! Sabia que aquele homem tava te olhando diferente! — Calma, nem aceitei ainda. Ele só falou “se eu topasse”... — E você vai topar, né? Vai dizer que não ficou com aquele friozinho na barriga? Hein? Fico quieta. Sorrio de canto. A verdade é que fiquei sim. Mas... — Sei lá, Jas. Ele é amigo do meu pai. E o Digão não vai curtir nada isso, você conhece ele... — Ah, Lena, teu pai não precisa saber agora. E outra... se for pra esperar o Digão aceitar, tu vai virar freira. Rio alto. — i****a! — Eu tô falando sério, mulher! Você merece ser feliz, sair, se permitir. E o Kaique, olha... ele parece ser diferente, viu? Meio largado, mas com aquele jeito meio bruto de cuidar. Fico em silêncio de novo. O jeito dele me desmonta. Simples. Verdadeiro. Mas o medo... — Eu só tenho medo de me envolver e me machucar de novo, Jas... — Medo tu vai ter sempre, mas às vezes é nesse “vai com medo mesmo” que a vida muda, sabia? Me afundo no travesseiro, olhando pro teto. A voz dela ecoa na cabeça. — Eu vou pensar... Ela se deita do meu lado e me encara. — Só não demora muito, que esse tipo de homem não fica solteiro dando sopa por aí. — Tá parecendo a Kaylane falando. — Pois escuta ela, que nesse caso, tá certa! A gente cai na risada juntas. E naquele riso, tem algo novo. Expectativa. Desejo. E um pedacinho de coragem nascendo. Tô sentada na cama com a Jas de novo, como se nada tivesse mudado — mas tudo mudou. — E aí, dona Helena... vai continuar enrolando ou já vai aceitar logo esse convite? Cruzo os braços, meio nervosa. — Ai, Jas... eu não sei. Ele é diferente, sabe? Me trata com respeito, é gentil, não força nada. Mas ao mesmo tempo, dá um frio na barriga. — É exatamente esse frio que tu tem que sentir! Se fosse morno, eu ia mandar tu correr. — Ele me chamou pra dar um rolê... nada demais, só uma volta no Vidigal, tomar um açaí. Ela já tá com aquele brilho no olho, me esperando dizer sim. — E tu vai dizer o quê? Que não pode porque o coração está com medo? Amiga, tu sobreviveu ao pior! Tu merece viver melhor. — Tá bom, tá bom... eu vou aceitar. Mas não vou me empolgar, tá? — Ahhh, que emoção! Já posso preparar teu look? — Nem vem! Eu escolho. E sem exagero dessa vez! [EXT. ESCADARIA DO VIDIGAL – NOITE] Subo devagar, com aquele frio na barriga me acompanhando a cada passo. Quando vejo ele encostado na mureta, olhando a cidade, meu coração dá uma batida mais forte. Camiseta preta, corrente discreta, boné pra trás. Simples. Mas bonito. Autêntico. Ele vira e sorri. — Atrasada, mas perdoada... Tá linda. Sinto meu rosto queimar. — Obrigada. Você também... tá bem diferente do que eu tô acostumada. — Diferente como? — Sei lá... calmo. Tranquilo. Parece que o mundo lá fora não te afeta. — Quando tô com você, o mundo lá fora não importa muito mesmo. A gente começa a andar devagar. Ele compra dois açaís e me entrega um. — Com leite condensado, do jeitinho que tu gosta, né? Olho surpresa. — Como tu sabe? — Eu observo. Quem observa, entende. A gente senta ali mesmo, na mureta. O vento bate leve, a cidade lá embaixo brilha. Silêncio bom. — Você tem um brilho diferente, sabia? Mesmo com tudo que já passou... ainda brilha. Sinto meu peito apertar. Engulo seco. — Nem sempre eu me sinto assim. — Então deixa eu te lembrar sempre que esquecer. Olho pra ele. Os olhos dele são calmos. Sinceros. Ele não me pressiona. Só fica ali, presente. — Você é cheio das palavras bonitas, né? — Não. Só falo a verdade... quando ela vale a pena. A gente ri, quebrando o clima intenso. E assim seguimos, entre um gole de açaí e uma confissão leve, descobrindo um ao outro. Sem pressa. Sem máscaras.
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