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O dono do morro e a professora

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os opostos se atraem
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Sinopse

Yasmim sempre acreditou que tinha encontrado o amor da vida dela. Recém-formada em pedagogia, casada com um policial exemplar, achava que vivia um conto de fadas. Mas o sonho virou pesadelo logo depois do casamento. Entre traições, humilhações e proibições, ela se viu presa em uma casa onde o amor virou cárcere.Cansada de sofrer, Yasmim decide fugir. Quando surge uma vaga de professora numa escola comunitária na Penha — uma das favelas mais temidas do Rio de Janeiro — ela aceita sem pensar duas vezes. Longe do marido, ela recomeça do zero, tentando reconstruir a própria vida e redescobrir quem é.Do outro lado, Magrão é o dono do morro. Um homem forjado na dor e na rua, criado em orfanato, que aprendeu cedo que o mundo só respeita quem impõe respeito. Frio, calculista e temido, ele controla tudo na Penha — menos o coração, que nunca conheceu amor de verdade.Mas o destino resolve brincar.A professora e o dono do morro se cruzam. Yasmim desafia as regras, querendo mudar a escola, organizar festas para as crianças e trazer luz pra um lugar que ele mantém nas sombras. E, aos poucos, o homem que não acreditava em sentimento nenhum se vê rendido por ela.Entre mundos opostos, nasce uma paixão perigosa, intensa e proibida — capaz de transformar tanto o coração da professora quanto o do homem que comanda o morro.

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1- YASMIM
YASMIM NARRANDO O barulho da chave girando na fechadura me fez olhar pro relógio pela milésima vez. Duas e quarenta e sete da manhã. Mais uma noite em claro. Mais uma vez eu fingindo pra mim mesma que ia ser diferente. Levantei do sofá, ainda com o corpo cansado do dia inteiro, e fui até a porta. O som da bota dele batendo no piso ecoava alto pela casa — pesado, impaciente. Aquele som que antes me dava segurança, agora só me dava medo. — Gustavo… — chamei baixo, tentando manter a voz firme. — Cê sabe que hora é essa, né? Ele me olhou de canto, o cheiro forte de álcool invadindo o ar. Tava com a farda aberta, o cinto pendendo, o olhar frio. O mesmo olhar que um dia eu achei bonito. — Tu vai começar, Yasmim? — ele falou arrastado, jogando a chave em cima da mesa. — Trabalhei o dia inteiro, quero paz. — Paz? — retruquei, sentindo o peito apertar. — Paz é o que eu não tenho mais aqui dentro. Tu some o dia todo, chega bêbado, e acha que pode fingir que nada aconteceu. Ele bufou, rindo de canto. — Lá vem o discurso da vítima de novo… — Eu só queria entender, Gustavo! — falei mais alto. — Onde tu tava? E por que chegou com esse cheiro de perfume barato? Foi rápido. O estalo da mão dele no meu rosto cortou o ar. A dor veio quente, junto com o gosto de ferro na boca. — Cala a boca. — ele rosnou, o rosto colado no meu. — Tu esquece que quem manda nessa casa sou eu. Segurei o rosto, o olho já ardendo. A lágrima veio sem pedir licença. — Cê não tem o direito… — murmurei, tentando recuar. Ele segurou meu braço com força, os dedos cravando na pele. — Eu tenho todos os direitos! — gritou. — Sou teu marido! Tentei me soltar, mas ele apertou mais. — Gustavo, tá me machucando… — supliquei, a voz embargada. Ele me empurrou contra a parede com força. O impacto fez minha cabeça bater e uma tontura tomou conta. Por um segundo, o tempo parou. Só o som da respiração dele e o meu choro. Depois, silêncio. Ele soltou o braço, pegou uma cerveja na geladeira e foi pro quarto como se nada tivesse acontecido. Fiquei ali, caída no chão da cozinha, tentando entender como o homem que eu amei tanto tinha virado meu maior pesadelo. Passei a mão no rosto e vi o sangue escorrendo do canto da boca. Olhei pro teto e prometi pra mim mesma que aquilo ia acabar. De um jeito ou de outro, eu ia sair dali. Nem que fosse com a alma em pedaços. O dia amanheceu devagar, mas dentro de mim ainda tava tudo escuro. A cabeça latejava, o rosto ardia, e cada vez que eu me olhava no espelho, o reflexo me lembrava do que eu tinha virado: uma mulher com medo dentro da própria casa. Peguei o celular com as mãos tremendo. Já fazia tempo que eu pensava em pedir ajuda, mas nunca tive coragem. Só que dessa vez, eu não aguentava mais. Abri a conversa com a Rafaela, uma amiga de faculdade que tinha se mudado pro Rio depois de se formar. Respirei fundo e comecei a digitar. _ Rafa, pelo amor de Deus, eu não sei mais o que fazer. Minha vida virou um inferno. O Gustavo chegou bêbado de novo ontem, me bateu. Eu tô com medo dele, de verdade. A mensagem ficou parada ali por alguns segundos, com o coração martelando no peito. Quando as duas setinhas ficaram azuis, eu prendi a respiração. Ela respondeu rápido: – Yasmim, meu Deus, cê tá bem? Tu tá machucada? Sai daí, amiga, agora. As lágrimas começaram a cair antes mesmo que eu respondesse. – Eu não tenho pra onde ir, Rafa. Não tenho ninguém aqui. Ele não me deixa trabalhar, nem sair direito. Minha família mora longe, e lá seria o primeiro lugar que ele iria me procurar. – Vem pra cá. Sério. Eu tô morando na Penha, trabalho numa escola comunitária aqui. Tão precisando de professora. Se tu quiser, eu falo com a diretora hoje mesmo. Li e reli aquelas palavras umas dez vezes, o coração acelerando. Penha. Favela. Era assustador e libertador ao mesmo tempo. – Rafa, eu não tenho dinheiro pra começar a vida aí. Só o que tá guardado pra emergência. – Fica comigo. Eu moro num apartamentinho pequeno, mas a gente divide as despesas. É simples, mas é paz, Yasmim. E paz é o que tu precisa agora. Dei um sorriso fraco, o primeiro em muito tempo. – Obrigada, amiga. Tu não tem ideia do que isso significa pra mim. Eu só quero viver de novo. – Então vem. Junta tuas coisas e vem. Eu te ajudo. Eu ainda tava no sofá, com o celular escondido entre as almofadas, quando ouvi a porta do quarto se abrir. Meu coração disparou na hora. Os passos dele vieram lentos, arrastados, o barulho da fivela do cinto batendo no metal da calça. Respirei fundo e disfarcei, fingindo que tava mexendo em nada, só tentando manter o corpo quieto. — Que que cê tá fazendo aí, Yasmim? — ele perguntou, a voz rouca, ainda meio sonolenta. — Nada… — respondi baixo, tentando soar calma. — Só acordei cedo. Ele passou por mim e foi direto pra cozinha. Pegou o maço de cigarro que deixava em cima da pia, acendeu um, e soltou a fumaça devagar, sem tirar os olhos de mim. — Prepara o café. — ordenou, frio. — Tô com fome. Engoli seco e me levantei, indo até o armário. As mãos tremiam tanto que quase deixei a garrafa cair. Ele se sentou à mesa, folheando o jornal como se nada tivesse acontecido na noite anterior. O cheiro de café começou a se espalhar pela cozinha, misturado com o de cigarro e silêncio. A cada segundo, eu só pensava no celular escondido no sofá. Se ele achasse… — Tu tá muda por quê? — ele perguntou de repente, sem levantar o olhar. — Aconteceu alguma coisa? — Nada não — respondi rápido, sem olhar pra ele. — Só tô cansada. Ele riu baixo, aquele riso que dava arrepio. — Cansada de quê? De não fazer nada o dia todo? Fingi que não ouvi. Me concentrei em despejar o café na xícara sem derramar. Mas ele se levantou, veio por trás e encostou o queixo no meu ombro. O cheiro do perfume dele e de cigarro me embrulhou o estômago. — Tu anda estranha, Yasmim. — ele sussurrou no meu ouvido. — Tá escondendo alguma coisa de mim? Meu corpo travou. — N-não… claro que não. Ele ficou me olhando por alguns segundos, aquele olhar que parecia atravessar a alma, e então soltou um suspiro pesado. — É bom mesmo. — disse, voltando pra mesa. — Porque se eu descobrir que tem alguma gracinha, tu vai se arrepender. A xícara quase escapou da minha mão. O medo era tanto que até o ar parecia pesar. Ele terminou o café, pegou as chaves e saiu sem dizer mais nada. A porta bateu forte atrás dele. Fiquei parada no meio da cozinha, o coração martelando, o suor frio escorrendo pelas costas. Corri até o sofá, peguei o celular e digitei rápido: – Rafa, eu vou. Hoje ainda. Ele saiu agora. Vou juntar minhas coisas e pegar o primeiro ônibus. – Vem, Yasmim. Tô te esperando. Te prometo que cê nunca mais vai precisar passar por isso. Guardei o celular no sutiã e respirei fundo. Olhei em volta — a casa perfeita que ele sempre fez questão de mostrar pros outros — e senti um vazio. Aquele lugar nunca foi um lar. Foi uma prisão bonita. Fui pro quarto, abri a mala e comecei a arrumar tudo às pressas, com o barulho do relógio marcando cada segundo da minha coragem. Dessa vez, eu não ia voltar atrás.

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