Pré-visualização gratuita 1- YASMIM
YASMIM NARRANDO
O barulho da chave girando na fechadura me fez olhar pro relógio pela milésima vez.
Duas e quarenta e sete da manhã.
Mais uma noite em claro. Mais uma vez eu fingindo pra mim mesma que ia ser diferente.
Levantei do sofá, ainda com o corpo cansado do dia inteiro, e fui até a porta. O som da bota dele batendo no piso ecoava alto pela casa — pesado, impaciente. Aquele som que antes me dava segurança, agora só me dava medo.
— Gustavo… — chamei baixo, tentando manter a voz firme. — Cê sabe que hora é essa, né?
Ele me olhou de canto, o cheiro forte de álcool invadindo o ar. Tava com a farda aberta, o cinto pendendo, o olhar frio. O mesmo olhar que um dia eu achei bonito.
— Tu vai começar, Yasmim? — ele falou arrastado, jogando a chave em cima da mesa. — Trabalhei o dia inteiro, quero paz.
— Paz? — retruquei, sentindo o peito apertar. — Paz é o que eu não tenho mais aqui dentro. Tu some o dia todo, chega bêbado, e acha que pode fingir que nada aconteceu.
Ele bufou, rindo de canto.
— Lá vem o discurso da vítima de novo…
— Eu só queria entender, Gustavo! — falei mais alto. — Onde tu tava? E por que chegou com esse cheiro de perfume barato?
Foi rápido.
O estalo da mão dele no meu rosto cortou o ar. A dor veio quente, junto com o gosto de ferro na boca.
— Cala a boca. — ele rosnou, o rosto colado no meu. — Tu esquece que quem manda nessa casa sou eu.
Segurei o rosto, o olho já ardendo. A lágrima veio sem pedir licença.
— Cê não tem o direito… — murmurei, tentando recuar.
Ele segurou meu braço com força, os dedos cravando na pele.
— Eu tenho todos os direitos! — gritou. — Sou teu marido!
Tentei me soltar, mas ele apertou mais.
— Gustavo, tá me machucando… — supliquei, a voz embargada.
Ele me empurrou contra a parede com força. O impacto fez minha cabeça bater e uma tontura tomou conta. Por um segundo, o tempo parou. Só o som da respiração dele e o meu choro.
Depois, silêncio.
Ele soltou o braço, pegou uma cerveja na geladeira e foi pro quarto como se nada tivesse acontecido. Fiquei ali, caída no chão da cozinha, tentando entender como o homem que eu amei tanto tinha virado meu maior pesadelo.
Passei a mão no rosto e vi o sangue escorrendo do canto da boca. Olhei pro teto e prometi pra mim mesma que aquilo ia acabar.
De um jeito ou de outro, eu ia sair dali.
Nem que fosse com a alma em pedaços.
O dia amanheceu devagar, mas dentro de mim ainda tava tudo escuro. A cabeça latejava, o rosto ardia, e cada vez que eu me olhava no espelho, o reflexo me lembrava do que eu tinha virado: uma mulher com medo dentro da própria casa.
Peguei o celular com as mãos tremendo. Já fazia tempo que eu pensava em pedir ajuda, mas nunca tive coragem. Só que dessa vez, eu não aguentava mais.
Abri a conversa com a Rafaela, uma amiga de faculdade que tinha se mudado pro Rio depois de se formar. Respirei fundo e comecei a digitar.
_ Rafa, pelo amor de Deus, eu não sei mais o que fazer. Minha vida virou um inferno. O Gustavo chegou bêbado de novo ontem, me bateu. Eu tô com medo dele, de verdade.
A mensagem ficou parada ali por alguns segundos, com o coração martelando no peito.
Quando as duas setinhas ficaram azuis, eu prendi a respiração.
Ela respondeu rápido:
– Yasmim, meu Deus, cê tá bem? Tu tá machucada? Sai daí, amiga, agora.
As lágrimas começaram a cair antes mesmo que eu respondesse.
– Eu não tenho pra onde ir, Rafa. Não tenho ninguém aqui. Ele não me deixa trabalhar, nem sair direito. Minha família mora longe, e lá seria o primeiro lugar que ele iria me procurar.
– Vem pra cá. Sério. Eu tô morando na Penha, trabalho numa escola comunitária aqui. Tão precisando de professora. Se tu quiser, eu falo com a diretora hoje mesmo.
Li e reli aquelas palavras umas dez vezes, o coração acelerando. Penha. Favela.
Era assustador e libertador ao mesmo tempo.
– Rafa, eu não tenho dinheiro pra começar a vida aí. Só o que tá guardado pra emergência.
– Fica comigo. Eu moro num apartamentinho pequeno, mas a gente divide as despesas. É simples, mas é paz, Yasmim. E paz é o que tu precisa agora.
Dei um sorriso fraco, o primeiro em muito tempo.
– Obrigada, amiga. Tu não tem ideia do que isso significa pra mim. Eu só quero viver de novo.
– Então vem. Junta tuas coisas e vem. Eu te ajudo.
Eu ainda tava no sofá, com o celular escondido entre as almofadas, quando ouvi a porta do quarto se abrir.
Meu coração disparou na hora.
Os passos dele vieram lentos, arrastados, o barulho da fivela do cinto batendo no metal da calça. Respirei fundo e disfarcei, fingindo que tava mexendo em nada, só tentando manter o corpo quieto.
— Que que cê tá fazendo aí, Yasmim? — ele perguntou, a voz rouca, ainda meio sonolenta.
— Nada… — respondi baixo, tentando soar calma. — Só acordei cedo.
Ele passou por mim e foi direto pra cozinha. Pegou o maço de cigarro que deixava em cima da pia, acendeu um, e soltou a fumaça devagar, sem tirar os olhos de mim.
— Prepara o café. — ordenou, frio. — Tô com fome.
Engoli seco e me levantei, indo até o armário. As mãos tremiam tanto que quase deixei a garrafa cair. Ele se sentou à mesa, folheando o jornal como se nada tivesse acontecido na noite anterior.
O cheiro de café começou a se espalhar pela cozinha, misturado com o de cigarro e silêncio. A cada segundo, eu só pensava no celular escondido no sofá. Se ele achasse…
— Tu tá muda por quê? — ele perguntou de repente, sem levantar o olhar. — Aconteceu alguma coisa?
— Nada não — respondi rápido, sem olhar pra ele. — Só tô cansada.
Ele riu baixo, aquele riso que dava arrepio.
— Cansada de quê? De não fazer nada o dia todo?
Fingi que não ouvi. Me concentrei em despejar o café na xícara sem derramar. Mas ele se levantou, veio por trás e encostou o queixo no meu ombro. O cheiro do perfume dele e de cigarro me embrulhou o estômago.
— Tu anda estranha, Yasmim. — ele sussurrou no meu ouvido. — Tá escondendo alguma coisa de mim?
Meu corpo travou.
— N-não… claro que não.
Ele ficou me olhando por alguns segundos, aquele olhar que parecia atravessar a alma, e então soltou um suspiro pesado.
— É bom mesmo. — disse, voltando pra mesa. — Porque se eu descobrir que tem alguma gracinha, tu vai se arrepender.
A xícara quase escapou da minha mão.
O medo era tanto que até o ar parecia pesar.
Ele terminou o café, pegou as chaves e saiu sem dizer mais nada. A porta bateu forte atrás dele.
Fiquei parada no meio da cozinha, o coração martelando, o suor frio escorrendo pelas costas.
Corri até o sofá, peguei o celular e digitei rápido:
– Rafa, eu vou. Hoje ainda. Ele saiu agora. Vou juntar minhas coisas e pegar o primeiro ônibus.
– Vem, Yasmim. Tô te esperando. Te prometo que cê nunca mais vai precisar passar por isso.
Guardei o celular no sutiã e respirei fundo.
Olhei em volta — a casa perfeita que ele sempre fez questão de mostrar pros outros — e senti um vazio. Aquele lugar nunca foi um lar. Foi uma prisão bonita. Fui pro quarto, abri a mala e comecei a arrumar tudo às pressas, com o barulho do relógio marcando cada segundo da minha coragem.
Dessa vez, eu não ia voltar atrás.