Capítulo 5

979 Palavras
A tarde seguiu quente, leve… e perigosa. Entre risadas soltas, taças sempre sendo preenchidas e olhares que duravam mais do que o normal, Pablo começou a perceber algo que não conseguia mais ignorar. Mateus tinha um jeito diferente com Sophia. Pequenos gestos — a mão demorando um pouco mais ao entregar o copo, o sorriso mais aberto só pra ela, os comentários com duplo sentido disfarçados de brincadeira. Sophia, já com o rosto levemente corado pelo vinho, parecia não perceber… ou talvez estivesse simplesmente deixando acontecer. Pablo observava em silêncio. Por fora, ele ainda sorria, ainda participava das conversas, mas por dentro algo começava a incomodar — uma sensação incômoda, como um aviso que ele não queria escutar. Quando o dia começou a cair, decidiram ir embora. No caminho de volta, Sophia estava diferente. Mais solta, rindo sozinha de coisas pequenas, encostando a cabeça no vidro do carro. Chegaram em casa, e sem muita conversa, ela foi direto para o banho. A água caindo levou embora o cheiro do vinho… mas não as dúvidas que tinham começado a nascer. Pouco tempo depois, Sophia saiu do banheiro, vestiu uma roupa leve e se jogou na cama. — Tô com muito sono… — murmurou, já fechando os olhos. Em poucos minutos, ela estava completamente apagada. Pablo ficou ali, parado no quarto, olhando para ela. O silêncio da casa parecia mais alto do que qualquer barulho. Ele tentou ignorar. Tentou deitar. Tentou dormir. Mas não conseguiu. A imagem de Mateus sorrindo para Sophia voltava. O jeito como ela retribuía… mesmo que sem perceber. Seu olhar, então, foi lentamente até o celular dela, largado ao lado da cama. O coração começou a bater mais forte. Ele já tinha visto algo antes… e aquilo não tinha saído da cabeça. Ficou alguns segundos imóvel. Era errado. Ele sabia. Mas a dúvida estava maior que a razão. Com cuidado, para não fazer barulho, Pablo pegou o celular. Olhou para Sophia — ela continuava dormindo profundamente. Respirou fundo. E desbloqueou a tela. Dessa vez, ele não ia parar na primeira mensagem. A luz fraca da tela iluminou o rosto de Pablo. As mãos estavam levemente trêmulas. Ele deslizou pelos aplicativos, indo direto para as mensagens. O coração batia tão forte que parecia fazer barulho no silêncio do quarto. Conversas normais. Amigas. Família. Nada fora do comum. Por um instante, ele quase se sentiu aliviado… quase. Mas então, um nome chamou sua atenção. Mateus. A conversa estava lá. Recente. Muito recente. Pablo engoliu seco antes de abrir. As primeiras mensagens eram simples… aparentemente inofensivas. “Gostou do dia hoje?” “Foi bom demais 😄” “Você tava linda.” Pablo sentiu o peito apertar. Sophia tinha respondido. “Ah para… 🙈” “Você também tava diferente hoje…” Diferente. A palavra ficou ecoando na mente dele. Ele continuou rolando. Cada mensagem parecia puxar mais fundo aquele sentimento estranho que já não dava mais pra ignorar. “Queria ter ficado mais tempo do seu lado.” “Pablo nem percebeu nada kkk” Pablo travou. O ar pareceu sumir por um segundo. Ele virou lentamente o rosto na direção de Sophia, que dormia tranquila, respirando leve… como se nada estivesse acontecendo. Voltou os olhos para o celular. A resposta dela veio logo abaixo. “Para com isso…” “Você não presta 😅” Mas não tinha raiva ali. Nem corte. Nem limite claro. Só… jogo. Só proximidade. Pablo sentiu algo quebrar por dentro. Não era uma prova concreta de traição… mas também não era inocente. Era o suficiente. Mais do que suficiente. Ele bloqueou o celular com cuidado, como se aquilo pudesse fazer tudo desaparecer. Colocou de volta no mesmo lugar. E ficou sentado na beira da cama, olhando pro nada. A confiança… já não era mais a mesma. E o pior de tudo… Era saber que, na manhã seguinte, ele teria que olhar nos olhos dela — fingindo que não sabia de nada. Mas agora ele sabia. E aquilo mudava tudo. Pablo respirou fundo, tentando manter o controle. Mas a curiosidade — ou talvez a necessidade de saber até onde aquilo ia — falou mais alto. Com o celular ainda nas mãos, ele voltou para o w******p. Dessa vez, não iria parar naquela conversa. Se havia algo acontecendo… ele precisava entender o quadro inteiro. Abriu a conversa com Mateus novamente. Subiu mais. As mensagens antigas começaram a aparecer, revelando que aquilo não tinha começado naquele dia. Dias antes. “Você some 😒” “Saudade de você” Pablo apertou o maxilar. Sophia tinha respondido. “Também senti… mas é complicado” “Você sabe…” Complicado. Ele passou a mão pelo rosto, sentindo o peso daquela palavra. Continuou. Áudios. Fotos apagadas. Mensagens excluídas. E aquilo era o que mais gritava. Algo estava sendo escondido. Ele abriu outro chat, tentando distrair a mente, mas tudo parecia normal. Era só ali… só com Mateus que o tom mudava. Voltou. Mais mensagens. “Queria você aqui agora.” “Para… você vai me deixar doida assim 😅” O coração de Pablo acelerou de novo, mas agora não era só ansiedade. Era raiva. Era decepção. Era um vazio estranho crescendo dentro dele. Ele olhou mais uma vez para Sophia, deitada na cama, completamente vulnerável, respirando tranquila… como se fosse a mesma mulher de sempre. Mas agora, para ele, algo tinha mudado. Ele bloqueou o celular com força dessa vez, sem o mesmo cuidado de antes. Levantou da cama devagar, tentando não fazer barulho, e foi até a janela. A noite estava silenciosa. Mas dentro dele… era um caos. Ele não tinha visto uma traição concreta. Não ainda. Mas tinha visto o suficiente para entender que havia uma linha sendo cruzada. E talvez… Já tivesse sido tarde demais. Pablo ficou ali, olhando para o escuro, com uma decisão começando a se formar — lenta, pesada… e inevitável.
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