Cleo já tinha visitado alguns lugares do enorme colégio, tendo o cuidado para não se perder naquela imensidão e conseguiu voltar para seu quarto sem pedir ajuda para algum dos semideuses dispersos nos corredores.
Assim que entrou, se deparou com Luna sentada em uma das camas com um fone de ouvido, balançando a cabeça no ritimo da música que escutava enquanto lia um livro.
— Luna? — Cleo chamou com um sorriso, acenando para ela.
— Filha de Afrodite, não é? — Luna tirou os fones e apontou para ela com um sorriso.
— Meu nome é Cleo, não sei se lembra.
— Eu lembro sim, aliás vai ser meio difícil esquecer já que todos estão falando na garota que ficou ensopada de suco de laranja.
— Ah, nem me lembre. — Ela colocou a mão sobre o rosto, balançando a cabeça negativamente. — Foi tudo culpa do meu parceiro de trabalho.
— Quem é esse parceiro?
— O Tyler Leblanc, filho de Hades. — Cleo revirou os olhos ao pronunciar o nome dele.
— Ele é encrenca mesmo — Luna concordou, fazendo careta. — Não se mete com ele, não. É um conselho.
— Por quê?
— Filho de Hades, você sabe.
— Vai ser meio impossível já que ele está no meu trio, mas estou evitando ele o máximo possível. Aliás, fiquei desapontada em não te ver na aula.
— É porque eu não estou na mesma sala que vocês. Eu estou com o Harry, não sei se lembra dele.
— Como não lembrar dele? — Cleo sorriu sem perceber.
— Que cara é essa?
— Qual cara?
— Cara de quem está gostando do Harry. — Luna estreitou os olhos.
— Eu acho ele bonitinho, só isso.
— Bonitinho? — A outra soltou uma risada. — Ele é um deus grego, literalmente. Pode admitir.
— Não estou apaixonada por ele, essa é a verdade. E eu nem conseguiria me apaixonar tão rápido por alguém.
— Vai saber se o cupido não te flechou.
Cleo soltou um sorriso, desviando o olhar, sabendo que aquilo seria impossível, a menos que ela mesma se flechasse, mas não faria isso e nem poderia já que é contra as regras.
— Não fui flechada, nem estou apaixonada por alguém. O Harry é lindo, é verdade, mas quando ele iria olhar para mim se tem várias mais bonitas aos pés dele?
— O Harry só ficou com umas três garotas aqui em todo esse tempo. Ele não é do tipo galinha, vai por mim.
— Você foi uma delas? — O olhar de Cleo agora parecia desinteressado, ou era isso que ela queria que Luna pensasse.
— Não, o Harry é como um irmão pra mim. — Ela franziu o nariz, fazendo careta. — Se fizéssemos isso, seria contado como i*****o.
— Quem contaria?
— Eu contaria. O Harry é bonito, filho de Zeus e Têmis, mas não faz meu tipo. Eu já vi ele chorar porque fez xixi na calça.
Cleo não se conteu o riso e se jogou na cama, rindo do que Luna havia acabado de dizer, porém batidas na porta interromperam as duas e a porta se abriu na terceira batida, revelando Harry.
— Falando no d***o! — Luna apontou a mão para ele, ainda rindo.
— Falando no deus, você quer dizer.
— Harry sorriu e entrou no quarto sem pedir permissão. — Espero que tenham falado coisas boas sobre mim.
— A Cleo estava me contando o quanto te acha gato — a outra respondeu com um sorriso despreocupado e sem vergonha.
— Eu não disse isso — Cleo tentou negar, sentindo seu rosto esquentar.
— Eu falei que você se destaca entre os outros.
— Em outras palavras, ela está caidinha por você — Luna concluiu.
Harry ergueu as sobrancelhas e olhou para Cleo com um sorriso de lado, que apenas colocou as mãos no rosto e fingiu que não estava ali.
— Não precisa se envergonhar. — Harry sentou do lado dela e a empurrou de leve, ainda com o sorriso em rosto. — Minha amiga sabe dar uma de cupido de vez em quando.
— Falando nisso — Luna começou com voz maliciosa e a cabeça levemente inclinada —, vou bancar a cupido pra vocês.
— Não! — Cleo colocou as mãos na frente, em sinal de rendição, mas não pôde conter o riso de nervoso que queria sair. — Você não é a cupido e não vai fazer o trabalho dela.
— Como sabe que o cupido é mulher?
— Eu só imaginei, mas voltando ao assunto, não por favor, Luna.
— Deixa ela tentar — Harry disse, apoiando seus braços na cama atrás do corpo. — Ela se diverte com isso.
— Façam o que quiserem, eu já acabei com o medidor de vergonha por hoje. — Cleo se levantou rapidamente, antes que Luna pudesse dizer mais alguma coisa e se direcionou para a porta.
— Aonde você vai? — Harry questionou, rindo.
— Vou explorar a escola.
— Harry, vai com ela — Luna mandou, apontando para a porta com um olhar sério. — Eu preciso estudar e você vai me atrapalhar.
— Se a chefona mandou, eu vou —Harry respondeu, se rendendo as ordens de Luna.
Ela sorriu, piscando discretamente para Cleo e os dois saíram em silêncio.
— Olha, você não precisa fazer isso se não quiser — Cleo começou, balançando a cabeça negativamente. — Essa ideia louca da Luna vai me m***r de vergonha.
— Não pode culpá-la por tentar. — Harry sorriu. — E eu quero te mostrar a escola, mas se você não quiser nada disso eu peço para ela parar.
Cleo colocou um dedo nos lábios, pensando se deveria ou não deixar Luna ocupar seu lugar lugar como cupido, e concluiu que seria uma coisa divertida de ver.
— Se você quer, eu também quero — ela respondeu com os olhos fixos no chão, constrangida demais para olhá-lo nos olhos.
— Eu quero.
— Então vamos deixar a Luna tentar, ok? Se ela conseguir, ótimo, se não a gente vê o que faz no final. O que acha?
— Gostei da ideia. — Harry abriu um sorriso. — Mas isso não significa que as coisas vão ficar estranhas entre nós, não é?
— Exatamente, continuamos amigos independente de qualquer coisa.
Talvez fosse aquilo fosse inesperado e súbito demais, mas Cleo queria essa aventura e queria ainda mais saber se finalmente daria certo com alguém, já que sua paixão de infância nunca abriu brechas para ela.
— Você tem orgulho dos seus pais?
— Cleo questionou, mudando de assunto.
— Acho que sim, na maioria das vezes.
— Mesmo sendo deixado aqui?
— Eu sei que Zeus e Têmis tem muitas coisas para fazer e pouco tempo para pensar em um filho, então eu entendo a escolha deles.
— Você poderia ter ficado no Olimpo.
— Eu nunca me senti suficientemente bom, sabe? E acho que não sou bom o suficiente pra eles também. Ninguém sabe como é carregar o peso enorme de ser o rosto dessa escola e ter que ser o melhor nas competições com outras escolas. Ser o filho de Zeus é muito difícil.
— Por quê você faz isso, então?
— Quero agradar meus pais.
— Não pode viver a vida pra agradar os outros. É a sua vida, não deles. Não importa que sejam seus pais ou deuses.
— Você segue isso?
— Não seguia. Eu tinha medo de desapontá-los também, mas quando eu percebi que temos duas vidas e a segunda começa quando você percebe que tem só uma, parei viver sob roteiro.
— Você sabe como juntar as palavras certas. — Harry parou e a olhou.
Cleo parou também e encarou Harry, esperando qual seria sua próxima ação.
— Eu não acredito! — Cleo escutou um grito e palmas em sua direção, então virou a cabeça e viu Tyler. — Eu fico alguns minutos longe e você já está flertando.
— Só ignore — ela falou a Harry com um sorriso sem graça.
— Você não pode me ignorar, estamos no mesmo trio — Tyler respondeu.
— Só para estudos e não estamos estudando.
— Então se precisamos estudar para eu ter o privilégio de ter sua disputada atenção, vamos estudar.
— Agora não, Tyler.
— É agora ou nunca. Aproveita que eu estou de bom humor porque eu nunca estou.
Cleo revirou os olhos, ciente de que teria que estudar com ele ou se daria m*l nos trabalhos, e pensou com raiva que teria que aproveitar isso porque Tyler realmente estava fazendo um esforço.
— Pode ir — Harry falou com um sorriso. —Exploramos a escola depois.
— Eu vou estar no meu quarto, se quiser me ver. — Cleo beijou a bochecha de Harry rapidamente e se virou para Tyler. — Vamos?
Tyler revirou os olhos com tédio e fez sinal para Cleo segui-lo.