Murilo Ferreira
Estou em frente a minha loja, em frente ao meu sonho, que agora se transformou em cinzas, vejo a fachada onde tinha o nome da loja, “Pony clothes” mas até mesmo as lindas letras foram queimadas, respiro fundo e adentro o local, vejo algumas fachas de não ultrapasse mas ainda assim sigo para dentro, a polícia esteve no local mais cedo, agora tudo se encontra vazio, passo pelos corredores onde os manequins com apenas o que sobrou de algumas roupas estão, todos queimados, paro por um tempo ali no meio do grande salão, vendo as roupas pelo chão, todas viraram **, sinto meu peito apertar e inflo minhas narinas em busca de ar quando não o encontro em meu pulmão. Toco um tecido que balança levemente ao meu lado de um cabide na arara, ele devia ser azul como o oceano, ainda resta uma parte intacta, quando sinto o tecido entre meus dedos meus joelhos vão ao chão, minhas mãos cobrem meu rosto e me curvo para frente, meu peito doe tanto que sinto como se meu coração fosse sair pela boca, meu soluço sai por entre meus lábios e o choro reverbera pelo espaço agora vazio.
— Por que agora? Tudo estava tão bem. Eu estava bem. — Pergunto para o teto, que um dia foi rosa, mas agora é preto. Preto assim como minha alma está nesse momento.
Me sento sobre meus calcanhares e olho mais um pouco no que meu sonho se transformou.
— Achou que estaria livre de mim, borboleta. — Meu corpo gela e obrigo minhas pernas se levantarem, girando encontro atrás de mim quem eu nunca imaginaria rever outra vez, meu corpo parece paralisado diante o rosto que vejo com um sorriso brilhante e diabólico. — Não achou que seria fácil se livrar de mim certo? — Ele pergunta num português arrastado, meu corpo treme e olho para todos os lados procurando uma saída. — Eu sempre te tratei feito um príncipe meu amor, mesmo você não sendo alguém a minha altura, com essas maquiagens e roupas, querendo ser uma mulher. Isso me dá nojo! Você deveria ter me ouvido e parado de vez com essas coisas.
Coisas que levei meses para superar caíram por terra com suas palavras, estou me sentindo nojento, pequeno e indefeso, eu não sou assim, mas porque ele ainda tem esse poder sobre mim com suas palavras maldosas? Fecho os olhos abraçando meu corpo finalmente tomo coragem para falar, mesmo que minha voz saia trêmula e eu pareça um gato indefeso.
— Como me encontrou, você estava preso. — Ele solta uma gargalhada que todos os meus pelos arrepiam, e não é de um modo bom.
— Eu sou Diogo Rinaldi, tenho contatos, meus pais são um dos melhores advogados da França, acha que é apenas nesse país de m***a que as leis não funcionam, o mundo todo gira em torno do dinheiro minha borboleta.
— Vai embora. — Meus olhos enchem de lágrimas novamente, ele da um passo em minha direção e eu dou um para trás, mas rápido demais ele chega perto o suficiente para tocar meu rosto.
— Ir embora? — Ele sorri para mim. — Eu vim buscar o que é meu!
— Eu não sou um objeto. Vai embora! — Tento soar firme. — Seu sorriso é quase insano quando ele aperta meu queixo.
— Tudo isso por causa daquele escritor de m***a? Você está dando para aquele escritor que tanto ama e por isso não quer voltar comigo. — Minhas sobrancelhas se franzem e tento entender a que ponto ele quer chegar. — Terei que acabar com ele para que mais nada te prenda nesse país?
— Do que está falando? — Ele parece confuso por alguns segundos, mas logo seu rosto tem uma expressão divertida.
— Então ele não lhe contou?
— Ele quem? O que não me contou? — Estou tão confuso, mas logo uma peça se encaixa nesse quebra-cabeça. — Foi você. — Acuso, ele me olha sem entender. — Foi você que colocou fogo aqui, foi você! — Levo minhas mãos ao seu peito o empurrando para longe. — Você fez isso tudo, acabou com meus sonhos. — Mais lágrimas brotam em meus olhos.
— Não se preocupe, em paris uma loja maior e melhor o espera. — Ele fala como se não estivesse confessando um crime, como se não fosse algo importante.
— Você acabou com a minha vida, como pode falar tão tranquilamente assim? — Ele sorri em escarnio.
— Tudo que me importa é ter você, o modo como vou conseguir isso não importa.
— Você é um lunático! Nunca serei seu, nunca!
— É o que vamos ver. — Ele sorri, quem diria que esse sorriso meses atrás me deixava com um sorriso bobo e todo apaixonado, hoje apenas sinto medo. Nada mais que medo.
— Então quer dizer que o i****a que você está saindo não te contou quem ele é? — Seu sorriso chega a ser macabro.
— Pare com isso, seja lá como descobriu da minha vida, você não sabe de nada, suas palavras venenosas não vão surtir efeito sobre mim. — Tento soar o mais firme que consigo.
— Você é muito t**o, meu amor. Acha que alguém te amaria como eu te amo? Ninguém nunca olharia para você se não fosse para brincar com você. Porque acha que Max, esse não é o nome dele? Por que acha que ele se aproximou de você? Tudo não passou de um jogo para ele, aquele homem está apenas brincando com você. — Ele passa seus dedos em minha face. Tem um brilho de admiração quase insano em seus olhos, meu corpo se retrai e tremo de medo e pavor.
— Nada que fale, irá mudar o fato de que Max quer estar comigo por ser quem eu sou, eu sou uma pessoa incrível e apaixonante, ele quer estar ao meu lado, não por causa de algum jogo, mas por gostar da pessoa que eu sou.
Ele rir histericamente, chega até mesmo colocar a mão em sua barriga e se curvar para frente. Me sinto um bobo diante desse homem, ele parece saber muito mais do que eu, tenho medo do que ele tem para me falar, medo que possa ser verdade e não apenas mais um de seus jogos para me manipular.
— Max, ou devo chamá-lo de Valério, esse não é o nome daquele escritor que você tanto gosta? — Ele sorri, ele está sorrindo demais, e isso me deixa em pânico, meu corpo trava, ele não estaria falando a verdade, certo?
— Está mentindo.
— Por que será que ele nunca lhe contou nada? será que foi apenas para brincar com o maior fã dele? Coitado de você, não passou de um brinquedo nas mãos de um escritor de m***a.
Tudo ao meu redor parece paralisar, as vezes que ele fugiu de falar sobre seu trabalho, o modo como ficou quando deixou escapar que era escritor, mas que não publicava seus livros, era apenas um hobbie, ele sempre fugiu desse assunto, a forma como ele ficou maravilhado quando contei sobre meu escritor favorito, mas fingiu não saber quem era, sendo que ele estava ali na minha frente. Sinto minhas pernas bambas, agora tudo parece se encaixar. Tudo parece estar em seu lugar.
Por que ele mentiu? Por que fingiu esse tempo todo quando o que eu mais falei era que amava seus livros? Como eu deixei me enganar assim tão facilmente depois de tudo o que vivi e passei?
Meu coração está em pedaços nesse momento, me sinto perdido, enganado e traído. Imaginei que passar pelo que eu passei seria a maior dor que eu viria a sentir na minha vida, mas agora percebi que quando não amamos de verdade, quando não nos importamos, é uma dor suportável, o que mais doía era as palavras e ações maldosas, não porque partiam de alguém que eu amava. Mas eu amo o Max, saber que ele mentiu, ocultou uma parte tão importante da sua vida de mim me faz doer muito, é como se eu não pudesse respirar, fica difícil fazer isso quando o que lhe mantinha em pé é o motivo de te colocar para baixo apenas em um sopro.
Não aguento segurar mais as lágrimas, elas caem sem que eu possa impedir ou fazer algo a respeito, mas dizem que deixar sair ajuda, não é? diminui a dor, e tudo o que mais quero é tirar essa dor de mim, é agoniante, sinto que não posso respirar.
Eu deveria ter aprendido a não me deixar cair assim tão facilmente pelas atitudes alheias, mas não posso deixar de sentir, de me sentir usado, ele chegou de mansinho, com seu jeito alegre, divertido e sem papas na língua, falava abertamente o que queria e deixava claro que eu era seu objeto de desejo, ele me conquistou com seu jeitinho largado de ser, ele parecia verdadeiro, amoroso e gentil, me deixei enganar pelo que estava na superfície, me deixei ser feito de bobo novamente, eu deveria ter blindado melhor meu coração contra ele, devia ter feito de tudo para que ele não entrasse na minha vida, eu devia ter me preparado melhor par algo desse tipo, nenhum homem merecia minha lágrimas, num entanto eu me deixei ser enganado por dois e chorei por esses dois.
— Sinto muito meu amor, mas tenho que te alertar, você precisa saber que o melhor para você sou eu, eu te amo, tudo que falei ou fiz foi porque te amo e o quero para mim, não gosto que vejam e desejem o que é meu, você é meu. — Estava tão mergulhado em minha dor que esqueci que esse homem ainda continuava em minha presença.
— Amar, é apesar, apesar de me querer para você, me deixar ser livre e fazer, usar, o que eu quiser, me prender a você não é amor, é maluquice, é obsessão doentia. Vai embora, me deixe paz. Suma da minha vida de uma vez por todas. — Suplico, imploro para que ele me deixe. — Deixe que eu viva a minha vida, por favor Diogo, vai embora e me esquece, esquece dessa sua obsessão, me deixe viver. — Mesmo que eu tenha que me ajoelhar aos seus pés eu faria, se isso garantisse que ele nunca mais iria aparecer na minha frente.
Ele segura meu rosto com suas duas mãos e as seguro, tentando me afastar dele, sua boca avança sobre a minha e ele força um beijo ao qual eu não retribuo, sentir sua boca contra a minha me enche de nojo, tenho vontade de vomitar, mas não tenho forças de o empurrar para longe, agradeço quando ele me solta, rezo que ele não tenha aprofundado o beijo e que não passou de um encostar de lábios, da forma que me encontro, sua força seria o suficiente que ele fizesse o que quisesse comigo sem que eu pudesse me defender, isso faz meu cérebro entrar em colapso, ao imaginar possíveis cenas onde acabariam em desastre.
— Não vou desistir de você, sei que me ama, sei que sou o melhor para você meu amor, vou deixar que resolva essa questão com esse i****a, então voltarei para lhe buscar.
— Você é...
Ele não deixa que eu fale, coloca um dedo sobre minha boca e beija minha testa, esse ato me deixa tenso, mas relaxo quando ele olha em meus olhos e vai embora, vejo apenas suas costas se afastando para longe.
Desabo sobre o chão e respiro pesadamente, foram momentos torturantes onde descobri coisa que não quero acreditar que sejam verdades.
Enxugo minhas lágrimas e tomo um tempo para minha respiração voltar ao normal, então pego meu celular em meu bolso e ligo para a única pessoa que vem em minha mente.
— Pônei. — Fernando atende alegre. — A que devo a honra de sua ligação? — Escuto ao fundo os gritos dos meus sobrinhos e pela primeira vez em algumas horas eu sorrio verdadeiramente.
— Preciso desabafar.
— Claro, quer que eu vá te encontrar? Onde você está? — Meu peito se aquece com sua demonstração de preocupação.
— Só me escuta por aqui mesmo.
— Claro. — Ele parece afastar o celular da orelha e escuto o seu grito. — ANA, OLHE SEUS IRMÃOS, VOU ESTAR NA COZINHA FALANDO COM O TIO PÔNEI. — Ouço alguns barulhos e logo ele volta a linha. — Pode falar.
Tomo uma respiração e começo.
— Se você descobrisse que o Bruno não é quem diz ser, o que faria?
— Como assim, Murilo, explica melhor. — Mordo meus lábios.
— Eu descobrir, que o Max, o cara pelo qual estou apaixonado é na verdade o meu escritor favorito.
— Espera, você está apaixonado pelo Max? — Ele pergunta e reviro os olhos.
— Você escutou que eu disse que ele mentiu para mim sobre quem ele é?
— Murilo, você conversou com ele? Tentou entender do porquê ele mentiu e escondeu isso de você? — Ele pergunta.
— Eu soube a poucos minutos, pensei primeiro em falar com você. Poxa, estou me sentindo muito perdido.
— Pois procure por uma explicação e pare de meter teorias no meio disso tudo, isso pode ser mais fácil de resolver do que você está fazendo parecer.
— Ele mentiu. — Falo baixinho, tentando convencer a mim mesmo que ele é um mostro que mentiu e me usou.
— A gente só pode tomar certas decisões quando temos os dois lados da história, como descobriu sobre isso? talvez não seja a história completa, ele pode ter medo de lhe contar, ou apenas assim como você, ele pensou que seria usado por causa da fama dele. Ainda mais ao saber que era seu escritor favorito, ou apenas estava tentando lhe conhecer melhor, saber que você era o certo e que podia contar esse segredo, já que era um parte dele a qual ele só conta se sabe que você vai ficar ao lado dele por um bom tempo. — Tento fazer com que essas palavras entrem em minha mente.
— Então eu devo escutar o que ele tem a dizer?
— Você quer escutar? Quer saber o porquê de ele ter omitido essa parte sobre a vida dele?
— Sim, eu quero saber. — Falo baixinho, encostando minhas costas na parede e estirando minhas pernas no chão.
— Então tem sua resposta.
— Obrigado, por ser além de cunhado um amigo maravilhoso. — Escuto sua risada do outro lado.
— Eu te amo, somos família, mas também somos amigos, o que da quase a mesma coisa, então sempre pode contar comigo.
— Eu te amo também.
— Quando conversar com ele, se não achar a resposta dele satisfatória, não se culpe por tirar ele da sua vida. — Aceno com a cabeça, mesmo sabendo que ele não está vendo minha ação. — Venha jantar com a gente hoje, terá dois colos lhe esperando.
— Obrigado.
Desligo a ligação me sentindo mais preparado para ter a conversa com Max. Lhe envio uma mensagem, pois não quero ouvir sua voz nesse momento.
Um sorriso triste se abre em meus lábios ao ver o nome salvo do contato.
“Doido do estacionamento”
Por que tudo tinha que acabar assim?
Pode me encontrar?
É mensagem é entregue e depois do que pareceram anos ele visualiza e responde.
Doido do estacionamento
Já com saudades do meu corpinho? Posso te encontrar sim, estou louco para f***r você. ?
Meu corpo arrepia. Mas logo meu celular vibra com sua outra mensagem.
Doido do estacionamento
Você está bem? Como está lidando com tudo? Posso apenas te dar um abraço gostoso e colo também, quero apenas que fique bem.
Uma lagrima teimosa insiste em cair. Mas apenas lhe respondo.
Conversaremos quando você chegar, estou na loja.
Não espero sua resposta, guardo o celular e fico ali encostado na parede olhando arara de roupas queimadas a minha frente.