- Um mensageiro vindo da pousada Castlehouse acaba de passar pela entrada, milorde. Ele me comunicou que a carruagem que trará a Sra. Elisabeth Simons está prestes a partir e provavelmente chegará aqui em breve.
- Eu agradeço. – Gareth tentou conter o grunhido em sua voz ao agradecer um dos cocheiros da Condessa Garland, a quem ele havia pedido que se mantivesse atento para a chegada do mensageiro que contratara para mantê-lo informado sobre os passos de Elisabeth. A melhor maneira de manter Minty protegida daquela víbora, sem dúvida, era vigiá-la a cada minuto de cada dia, mesmo que aquilo não fosse, de fato, um antídoto efetivo para os planos que ela certamente estava formulando naquele exato momento.
Tentando conter um grunhido de irritação, Gareth acenou para o cocheiro antes de se afastar, sentindo os vários maços de dinheiro que distribuíra por seu casaco pesarem em seus bolsos. Não que ele se importasse com aquilo. Sua única preocupação era proteger Araminta.
Diabos, pensar nela doía. Mesmo depois de ter se ausentado de Whiteshire por mais de um dia, ainda assim a imagem dela e o peso das palavras que lhe dissera na tarde anterior o perseguiram incessantemente, fazendo seu coração doer. Ele podia ter fingido para ela que abrir mão de conquistar seu amor fora algo fácil. Porém, dentro dele, não havia nada mais do que a dor de um coração partido. Uma dor de ele achava que dificilmente superaria, mesmo que ficasse longe de Minty pelo resto da vida – algo que, por outro lado, ele sabia, com toda a certeza, de que não seria capaz, por mais torturante que fosse.
- Oh, milorde! – uma voz feminina chamou-o ali perto e, ao avistar a Condessa Garland e suas filhas aproximando-se dele com sorrisos enormes no rosto, Gareth teve que reunir um controle absurdo para não bufar, consternado – Estivemos procurando-o a noite inteira.
- Acho que nunca sou um homem fácil de ser encontrado, não? – ele esforçou-se para ser simpático, mesmo sabendo que não deveria fazer aquilo; não quando a Condessa parecia tão determinada a tê-lo como genro e, justamente por causa disso, ele vinha propositalmente se esquivando dela a noite toda.
Tentando conter sua insatisfação por ter sido literalmente encurralado por elas, Gareth se limitou assentir eventualmente, fingindo ouvir enquanto as jovens senhoritas Garland começavam a tentar engajar-se em uma conversa com ele, sobre um assunto que ele não encontrava vontade para prestar atenção e descobrir qual era. Ao invés disso, ele se pegou, de repente, refletindo sobre casamento, mesmo que não da maneira que as Garland certamente gostariam.
Agora que já não havia mais a possibilidade de Minty tornar-se sua esposa, ele precisava começar a refletir sobre maneiras de gerar um herdeiro para Whiteshire – mesmo que aquela fosse a última coisa com a qual queria se preocupar naquele momento. Felizmente, naquela manhã, ao acordar na casa de seus pais – onde havia se refugiado depois da tarde terrível que tivera -, ele recebera a notícia de que Rose, a sobrinha de Minty, havia finalmente concordado em aceitar o cortejo de Henry. E ele não tinha dúvidas de que ela logo aceitaria tornar-se sua noiva, também. Os dois vinham dançando um ao redor do outro pelo último mês, com a jovem temendo o que lhe aconteceria caso se envolvesse com um notório libertino. Se ela ao menos soubesse como seu irmão estivera totalmente envolvido por ela desde o primeiro olhar, choramingando por aí sobre como não conseguia mais nem sequer olhar, e muito menos desejar, qualquer mulher que não fosse ela...
Era uma coisa boa que pelo menos alguém tivesse conseguido encontrar amor verdadeiro. Se Gareth tivesse sorte, o casamento dos dois viria logo mais e, se dependesse das vontades que Henry vinha expressando nos últimos dias, uma criança muito amada nasceria em pouco tempo também. Era quase impressionante o que o amor havia feito a seu irmão, transformando-o de um cafajeste inconsequente naquele homem apaixonado e ansioso por se tornar um marido amoroso e fiel. Gareth, porém, não poderia estar mais feliz pelo destino que fora reservado a seu irmão. E, por isso, ele não tinha dúvidas de Henry se tornaria um homem honrado e de família, capaz de criar o menino que um dia se tornaria o herdeiro de Whiteshire e substituiria seu tio, algum dia.
Minty provavelmente também faria parte de sua educação, como sua tia-avó... E Gareth seria forçado a vê-la sendo a melhor das amigas e das professoras para o herdeiro de Whiteshire, mesmo que aquela criança não fosse um fruto do amor e do casamento dos dois, como ele sempre ansiara...
E, surpreendentemente, sua vida parecia estar se tornando cada vez mais deprimente.
- Milorde? – o som da voz de Minty, vinda por detrás dele, o fez congelar, em um misto de euforia e tensão. Deus, ele passara apenas um dia fora de casa e mesmo assim sentira a falta dela terrivelmente...
Mas, ao mesmo tempo, ele sabia que olhar para seu belo rosto apenas faria seu coração se partir ainda mais.
Por isso, discretamente inalando profundamente para reunir coragem e se manter comedido diante dela, Gareth virou-se lentamente, encarando a mulher que amara por anos e que tinha certeza que amaria para sempre. Como de costume, ela estava deslumbrante, envolvida em um elegante vestido azul que ressaltava sua pele cor de creme e seus olhos e cabelos castanho-escuros, em uma visão digna de uma pintura. Inquieto, Gareth conseguiu se forçar a desviar seu olhar para o chão, sabendo que admira-la não ajudaria seu coração a se curar.
Não que ele realmente acreditasse que algo realmente o curaria, algum dia.
- Duquesa. – ele a cumprimentou, tentando soar o mais casual e desinteressando possível, ainda sem olhá-la.
- Perdão por interromper sua conversa. – mesmo com os olhos longe dela, Gareth soube que ela estava dirigindo aquelas desculpas muito mais para as meninas Garland do que para ele – Mas, será que eu poderia conversar com o senhor, meu Duque? – ela perguntou, levemente ansiosa, e, mesmo não devendo, ele sentiu um arrepio de prazer ao ouvi-la chama-lo de meu – É algo importante.
- Se é sobre os problemas que surgiram recentemente, em relação às nossas finanças... – ele comentou, certo de que a única que coisa que a interessaria nele, além de seu corpo, seria a situação com Elisabeth – Não se preocupe. Resolverei isso em breve, lhe garanto.
- Não é sobre isso que eu quero falar. – a tristeza na voz dela instantaneamente o fez erguer o rosto, com a preocupação por sua dor rapidamente vencendo sua determinação em manter seu olhar longe dela – Podemos conversar em particular, por favor?
Com os ombros baixos, Gareth verdadeiramente considerou negar-se, já que provavelmente nada de bom sairia de mais uma conversa privada entre ele e Minty. Seu coração já havia sido pisoteado o suficiente e ele duvidava que seria capaz de até mesmo de dividir a cama com ela nos próximos meses, sem enlouquecer.
Porém, antes que ele pudesse tomar uma decisão sobre qual a melhor coisa a se fazer, seus olhos foram atraídos para um lampejo de vermelho sangue atrás de Minty. Elisabeth, com um vestido vermelho enorme, feito do mais refinado cetim e adornado com linhas douradas que brilhavam como ouro, desfilava pelo salão, ao som de engasgos chocados e murmúrios maldosos. Ao avista-lo, ela abriu um sorriso triunfante, dizendo sem palavras que estava pronta para receber sua exigência – a primeira de muitas, sem dúvida.
- O que essa mulherzinha desfrutável está fazendo aqui? – a Condessa rosnou, revoltada – Será que já não basta ter dormido com metade dos homens nobres, na época em que debutamos? Ela tem que invadir minha festa, como a cínica que é?
- Mamãe! – uma das filhas arfou, apontando para Gareth com os olhos nada discretamente, claramente preocupada que ele pudesse se ofender ao vê-la falando daquela maneira da mulher que lhe dera à luz.
- Não se preocupem. – Gareth suspirou, acalmando as quatro mulheres, embora Minty estivesse claramente empertigada – Eu mesmo vou coloca-la para fora. – endireitando seus ombros, ele começou a andar até Elisabeth, quando, para sua surpresa, uma mão agarrou a parte interna de seu cotovelo, parando-o.
- Espere. – seu pedido, baixo e inquieto, o fez ter vontade de abraça-la contra o peito e confortá-la – Deixe-me falar o que vim dizer primeiro.
- Minty... – ele engoliu em seco, desviando o olhar rapidamente entre ela e a expressão já irritada de Elisabeth – Eu preciso resolver isso, agora. – ele respondeu, finalmente, arrependendo-se por soar tão seco – Seja lá o que for, pode me falar depois.
- Não, eu não posso. – mesmo parecendo magoada por seu tom de voz, Minty insistiu e, para sua total surpresa, tocou seu rosto com carinho, aproximando-se dele, apesar de todas as pessoas ao redor – Você tem feito tanto por nós dois. Então, por favor, deixe que eu faça algo corajoso pela primeira vez na minha vida, sim? – ela pediu, com um sorriso doce que o deixou completamente encantado.
Ainda surpreso, ele a viu se afastar dele e pegando uma taça de cristal e uma colher na mesa de jantar ali perto, Minty começou a b*******a na outra, chamando a atenção de todos no opulento salão da Condessa, desde os músicos, até Elisabeth, que a encarava com nojo. Uma vez que todos voltaram-se para ela, no mais completo silêncio, Gareth a viu sorrir, corada, sob todos aqueles olhares.
- Peço desculpas a todos por interromper a festa, mas há algo muito importante que preciso comunicar. – completamente confuso, Gareth percebeu que Minty tomou uma ingestão profunda de ar, antes de continuar, sem nunca tirar aquele sorriso tímido, porém determinado, do rosto – Durante anos, me dediquei à Whiteshire e às pessoas que nela viviam, me esforçando para ser a melhor Duquesa possível. Tenho muita sorte por ter tido uma vida tão feliz até aqui e por ter conhecido tantas pessoas incríveis que me acompanharam nessa jornada. Porém, tenho que confessar que nunca estive completamente feliz de verdade. – ela admitiu, despertando alguns murmúrios ao redor, mas que não ousaram interrompê-la – Quando eu era uma mocinha, sonhava com amor verdadeiro e uma família numerosa, a qual eu poderia me dedicar. E, com o passar dos anos, passei a acreditar que esses sonhos estavam destinados a serem apenas isso: fantasias. E que eu teria que me conformar com o que a minha vida havia se tornado. Porém, recentemente, isso mudou... – para a enorme surpresa de Gareth, ela virou-se para ele, encarando-o com um enorme sorriso no rosto.
- Para a minha surpresa, eu encontrei alguém que fez eu me sentir viva e amada como ninguém em toda a minha vida. Durante muito tempo lutei contra esse sentimento, achando que estava fazendo algo errado. Achando que não tinha o direito de lutar pela minha felicidade, por conta das circunstâncias em que nós dois nos encontramos. Por isso, por mais triste que possa soar, precisei correr o risco de perder o amor dele para me dar conta de como eu também o amo. – Gareth engasgou e seu coração disparou, enquanto o olhar dela permanecia fixo no dele – Mas, agora, finalmente, eu consigo enxergar com clareza o que realmente importa. Finalmente me dei conta de que seria pura covardia da minha parte desperdiçar um sentimento puro e verdadeiro, como é o amor que construímos juntos, apenas para preservar uma reputação que de nada importa. Não quando eu o amo tanto quanto eu o amo. – Minty direcionou um último sorriso apaixonado a ele, antes de virar-se para todos os outros convidados, que a encavam com pura expectativa – Por isso, eu gostaria de comunicar com vocês, com toda a alegria que há em mim, que o homem que eu mais amo e admiro no mundo, Gareth Duncan, o Duque de Whiteshire, me pediu em casamento. E eu aceitei, com todo o amor e orgulho que há em mim.
Minty m*l havia acabado de dizer aquelas palavras, causando um engasgo chocado em uníssono ao redor do salão, antes que ele avançasse até onde ela estava, envolvendo-a em seus braços com pura paixão, m*l conseguindo acreditar no milagre que havia acabado de acontecer.
- Eu amo você... – Minty começou a arfar, mas não teve tempo de concluir sua frase, pois ele a beijou primeiro, com todo o amor e paixão que tinha dentro de si, não se preocupando com qualquer pudor enquanto a trazia para perto de si, fazendo inclusive com que a plateia que os observava soltasse alguns gritinhos de choque.
- Diga isso de novo... – ele implorou, completamente sem fôlego, quando os lábios dos dois finalmente se separaram – Por favor... Eu preciso saber que não estou sonhando...
- Eu te amo. – ela repetiu novamente, pressionando a testa contra a dele, encarando-o com o mesmo amor que ele sempre sonhou em ver em seus olhos – Me desculpe por ter sido tão boba. Não queria ter feito você sofrer. – tímida, ela olhou rapidamente ao redor, corando ao perceber os olhares de choque de todos e o rosto completamente furioso de Elisabeth, que agora perdera por completo sua possibilidade de chantageá-los – Talvez isso tenha sido um pouco demais, mas... Eu achei que você mereceria uma prova à altura do quanto eu amo você. E do quanto estou finalmente disposta a enfrentar qualquer coisa, para que possamos ser felizes... E nos casarmos.
- Oh, Minty... – sentindo as lágrimas se acumularem em seus olhos, ele beijou-a novamente, apreciando a sensação de seu peito inchado de pura felicidade – Eu amo tanto você... E prometo que vou fazer de você a mulher mais feliz que já existiu. – ele jurou-lhe, sabendo que honraria e agradeceria para sempre o fato dela tê-la escolhido, apesar de todos os temores que ele sabia que ela provavelmente ainda tinha; por isso, ao começar a ouvir os murmúrios julgadores dos convidados se tornarem mais altos, ele repentinamente da pegou no colo, fazendo Minty gargalhar e todas as outras pessoas silenciarem-se, em um novo choque – Agora vamos, minha Duquesa. Temos muito o que planejar, antes de realizarmos a cerimônia de casamento dos seus sonhos. E também o noivado mais curto de todos os tempos, é claro.
- E... – ela abraçou-se ao pescoço dele enquanto ambos se dirigiam para fora do salão, aproximando-se de seu ouvido, antes de perguntar, provocativa – Não vamos comemorar essa noite?
- Oh, mas é claro que vamos, meu anjo... – ele sorriu maliciosamente para ela – Eu vou dar a você uma comemoração a sua altura, que vai mantê-la ocupada a noite inteira... E a manhã de amanhã... E a tarde... E a noite...
- Nossa vida inteira. – ela sorriu, encantada.
- Nossa vida inteira, meu anjo. – ele prometeu, beijando-a novamente.