Capítulo 9 – A Covarde

2330 Palavras
- Você tem certeza de que não quer mais um pouco de chá, Minty? – Mirian perguntou-lhe, preocupada, fazendo Minty desviar o olhar da janela da sala de estar principal, para a qual ela vinha olhando ansiosamente na última meia hora. - Não, Mirian, obrigada. – ela suspirou, remexendo-se nervosamente no sofá – Você já perguntou aos homens se Gareth ainda não voltou? - Perguntei, Minty, mas recebi a mesma resposta das últimas 10 vezes. – Mirian suspirou – Eu sei que a presença daquela mulher horrível deixou você muito nervosa, Minty, mas tenho certeza de que, se o Duque decidiu leva-la para fora ele mesmo em uma carruagem, então foi para ter certeza de que ela não voltaria nunca mais. Engolindo em seco, Minty assentiu, rapidamente desviando o olhar para o chão para disfarçar as lágrimas que ameaçavam começar a escorrer por saber que Mirian não poderia estar mais errada. Gareth havia saído com Elisabeth para ceder a sua chantagem lhe conseguir uma vaga em uma pousada de luxo, para evitar que ela revelasse o segredo dos dois. Por isso, Minty permanecera petrificada naquele sofá pela última meia hora, temendo receber em breve a notícia de que Elisabeth poderia ter feito um pedido ainda mais absurdo ou simplesmente revelado a todos seu relacionamento com Gareth, apenas para vingar-se dela. De qualquer maneira, eles agora estavam nas mãos daquela mulher. E, só de pensar nisso, Minty sentia vontade de vomitar. - Minty, acho melhor você tomar um pouco de chá. – Mirian aconselhou, com a voz ansiosa – Você está claramente se sentindo mal... - Minty! – a voz grave de Gareth a fez pular de seu acento imediatamente, praticamente lançando-se contra ele, desejando que sentir o calor de seus braços pudesse diminuir a agonia e a ansiedade que ela sentia dentro de si. Porém, antes que ela pudesse envolver seus braços ao redor dele, Gareth a parou, colocando ambas as mãos em seus ombros, segurando-a no lugar de um jeito gentil, mas também respeitoso e totalmente impessoal, como se ele estivesse tentando acalmar alguém com quem não tinha qualquer i********e. Desapontada, ela até mesmo já havia aberto a boca para perguntar-lhe o que havia de errado, quando Gareth a interrompeu. - Acredito que deveríamos conversar sobre algumas questões no escritório, milady. – ele aconselhou, vago, olhando ao redor da sala até, finalmente, ela se desse conta do porquê ele estava agindo assim. Não apenas Mirian estava bem ali, observando-a com preocupação, como também outras camareiras estavam amontoadas nos locais mais discretos da sala, assim como o cocheiro que muito provavelmente trouxera Gareth até ali, todos observando-os com profunda curiosidade. E, mesmo assim, ela havia se esquecido de tudo isso e quase se jogara em seus braços na frente de todos. Os escândalos pareciam estar perseguindo-os de perto ultimamente, pelo que parecia. - Sim, por favor. – Minty concordou, tentando se conter. - Eu vou garantir que vocês não sejam perturbados. – Mirian prometeu, com um sorriso cheios de empatia que fez o coração de Minty doer de gratidão pela amiga. O caminho até o escritório foi feito de maneira silenciosa e, a cada segundo, Minty sentia mais vontade de recostar-se contra Gareth, buscando o acalento que ela sabia que ele lhe daria. Afinal, ao mesmo tempo que uma parte dela estava quase morrendo de apreensão para saber o que havia acontecido com Elisabeth e suas tramoias, outra estava congelada de medo, quase sem ter forças para saber sobre aquilo de verdade. - O-o que aconteceu? – Minty perguntou com voz trêmula, assim que Gareth trancou a porta do escritório atrás dos dois – Você realmente pagou a hospedagem para ela? - Infelizmente, era nossa única alternativa. – ele resmungou, claramente insatisfeito com ter sido forçado a fazer aquilo – Pelo menos até que possamos pensar em algo melhor para pará-la. - Ela com certeza cumpriria cada uma das ameaças que fez, não é? – Minty fungou aquela pergunta, embora soubesse muito bem qual seria a resposta. - Infelizmente. – Gareth concordou, inquieto – Acho que a única boa notícia que posso lhe dar é que consegui que ela se convencesse a esperar um pouco para receber as 1000 libras que exigiu. Mas deixou bastante claro que quer recebe-las na noite do baile da Condessa, amanhã. - Em um baile? – Minty engasgou, pasma – Mas, porquê? - Aparentemente, muitas pessoas do passado dela, a quem ela odeia, vão estar lá. E ela quer deixa-los saber que agora vai voltar a fazer parte da alta sociedade. – Gareth explicou, rosnando com puro nojo – De um jeito ou de outro. - Isso é péssimo. – Minty suspirou, perturbada – E se isso for apenas mais um plano dela? E se ela estiver planejando nos expor de qualquer maneira? - Não, eu não vou dar essa satisfação a ela... – Gareth rosnou, possesso – Vamos encontrar uma maneira de nos livrarmos dela. E, de preferência, sem tirar mais nem um único centavo do dinheiro que nunca foi dela e nem nunca será. - Mas essa parece ser nossa opção, não é? – ela lamentou, sentindo a cabeça pesar de tenta preocupação, enquanto encarava o chão, desolada – Vamos acabar tendo que acatar os pedidos dela, se não quisermos ser descobertos. Deus, não acredito que chegamos a esse ponto... – ela massageou as têmporas – Mas, por favor, Gareth, me avise sempre que ela fizer alguma exigência. É minha responsabilidade arcar com os custos desse desastre também. Afinal, eu deveria ter sido mais cuidadosa, ao invés de ter ido para um jardim, um lugar onde qualquer um poderia facilmente nos flagrar, quando sabia que havia a possibilidade de você me seguir até lá. Ouça, eu tenho algumas joias que poderia vender para poder custear pelo menos metade do que gastou com a estadia dela e... – Minty ofereceu, cabisbaixa, quando, ao erguer o olhar e se deparar com o semblante desolado dele, a preocupação a fez parar imediatamente - Algo errado? Elisabeth fez algo além do que está me contando? - As coisas vão ser sempre assim entre nós, não é? – ele questionou-a, com a voz baixa e melancólica, quase como se estivesse falando mais consigo mesmo do que com ela – Você não vai sequer considerar tornar a nossa relação pública... Vamos ficar nas mãos de Elisabeth, obedecendo os caprichos dela... Porque somos um segredo. – ele disse aquilo com tanto pesar na voz que ela sentiu seu próprio coração se partir, como o tom de Gareth deixava claro que o dele estava se partindo naquele momento – E é isso o que sempre seremos. Sabe, talvez o único errado nessa situação tenha sido eu. – ele lhe direcionou um pequeno sorriso triste - Passei anos me apaixonando por você e idealizando como seria se você me desse uma chance de fazê-la feliz. Por isso, quando retornei à Inglaterra e tive a confirmação de que você também me desejava... Que não era apenas a fantasia de um garoto bobo e obcecado por um anjo, como tinha sido todos esse anos... Eu acabei me convencendo que de que poderia fazer você sentir por mim o mesmo que sentia por você... Mas agora percebo que eu estava errado. - Eu fui o único aqui tentando força-la a sentir algo que você claramente não sente. – ele continuou, ainda naquele tom de voz enlutado, como se tivesse acabado de receber a notícia da morte de alguém – Acabei escolhendo por enganar a mim mesmo, criando a falsa certeza de que você estava nutrindo algo sentimental por mim, mas apenas não admitia isso por conta do seu medo de como a sociedade nos trataria, quando descobrisse. Mas agora eu finalmente percebi que não. Você me quer só como amante... E, se isso é tudo o que você está disposta a me dar, então não tem sentido em continuar me enganado, esperando amor e casamento, quando você já repetiu tantas vezes para mim que nunca teríamos isso juntos. – Gareth passou sua fala por um segundo e, mesmo tentando, Minty não conseguiu encontrar forças para empurrar nem sequer uma única palavra para fora do nó que havia se formado em sua garganta – Então, por favor, Minty, considere esse o meu pedido de desculpas: se tudo o que você está disposta a me dar é o seu corpo, então serei seu amante com todo o prazer... E não vou mais tentar forçar em você os meus desejos ridículos de ser amado por você. A partir de hoje, vou me esforçar para superar o que sinto por você em meu coração. – ele prometeu, aproximando-se lentamente dela para poder acariciar sua bochecha, enquanto Minty permanecia petrificada – Mas saiba que, mesmo desistindo de me casar com você, jamais permitirei que aquela mulher lhe faça m*l. Nem que eu tenha que tudo o que tenho, vou manter você e sua reputação protegida, para que você possa viver sempre feliz... Do mesmo jeito que você me faz sempre feliz... – ele abriu o sorriso mais triste que ela já vira em sua vida – Mesmo que não feliz do jeito que o meu coração ainda insiste em querer. Ansiosamente, Minty procurou as palavras para responde-lo, mas elas não vieram. E, pensando racionalmente, elas nem ao menos deveriam vir. Ela deveria, na verdade, estar concordando com ele. A conclusão a qual ele acabara de chegar era tudo o que ela vinha insistindo para que ele fizesse no último mês: abandonando a ideia de se casar com ela e focando-se apenas em um relacionamento carnal e despretensioso entre os dois. Porém, se aquele era o momento em que a coisa certa finalmente acontecera, então porque o coração dela parecia estar estilhaçado, rasgando seu peito por dentro? - Bem, eu preciso ir ao banco pegar as 1000 libras que vamos precisar e também supervisionar algumas coisas sobre a construção do orfanato... – ele explicou lentamente, desconcertado – Então... Acho que não vou voltar para jantar hoje, está bem? E... Bem, acho que vou visitar meus pais e meu irmão amanhã pela manhã, por isso... Nos vemos no baile sim? – ele acenou rapidamente para ela e começou a ir até a porta, claramente não conseguindo disfarçar em como estava ansioso para sair dali – Oh, e, não se preocupe. Vou ter certeza de que você não precise ver o rosto de Elisabeth amanhã e que ela também não tenha contado com qualquer um dos lordes que estiverem presentes, apenas por segurança. – ele lhe lançou um último olhar, ávido, desolado e demorado, antes de suspirar, saindo pela porta – Tenha uma boa noite, Minty. Prometo que amanhã à noite tudo vai ter sido resolvido. Estática, e ainda muda, Araminta assistiu o jovem Duque fechar a porta atrás de si, deixando-a sozinha naquele escritório enorme e silencioso, mas que agora, de alguma maneira, parecia terrivelmente sufocante sem ele ali. Sentindo seus joelhos repentinamente fracos, Minty se viu obrigada a sentar-se em uma das poltronas que havia ali perto, encolhendo-se em si mesma enquanto o peso do que ele acabara de lhe dizer finalmente começava a atingi-la. Então, finalmente Gareth se dera conta de que a relação entre eles não tinha futuro. Por que, então, seu coração estava se partindo por saber que eles agora não seriam nada mais do que amantes? Não era isso o que ela desejava, desde que decidira deitar-se com ele? Ela era a única ali que listara cada um dos desastres que aconteceria se eles ousassem revelar que sentiam algo a mais um pelo outro. Em um momento como aquele, ela deveria sentir-se aliviada. Mas tudo o que ela conseguiu fazer foi começar a chorar. E não por causa do medo que sentia de Elisabeth revelar seu segredo. Não por conta das consequências que viriam e das pessoas que a julgariam se isso realmente acontecesse. Não. A única coisa que ela foi capaz de fazer foi chorar. Chorar por saber que perderia o afeto dele. Não havia qualquer alívio ou alegria em saber que sua vida não sofreria alterações e que sua reputação estava a salvo. Saber que Gareth se esforçaria para superar seus sentimentos por ela havia tornado aquele momento nada mais do que deprimente. E, o pior de tudo, ele faria tudo aquilo por ela. Porque ela não queria seu amor. Porque ela preferira sua reputação acima de seu sentimento por ele. Infelizmente, aquela era a verdade. Não havia maneira delicada de dizer o que fizera, além daquela. Não havia como mascarar a verdade porque, apesar das consequências de assumirem seu relacionamento realmente poderem se tornar desastrosas, de fato ela as considerara mais importantes e mais relevantes do que Gareth. Seus pais também haviam sido um casal escandaloso – um Barão e uma bastarda -, mas nem por isso eles haviam permitido que os problemas e as fofocas os impedissem de viver seu amor ou de construir uma família. Onde ela ou seu irmão estariam, se seus pais tivessem feito o que ela estava fazendo e abrissem mão de seu amor, apenas para ter que sofrer as consequências que viriam disso? Afinal, o que aconteceria com ela a partir daquele momento, que Gareth havia desistido de tentar fazê-la ser corajosa e lutar para viver o amor que ambos sentiam? Deus, ela nem sequer já havia dito que o amava, mesmo depois das milhares de vezes em que ele repetira e demonstrara aquilo para ela. E, agora, ela perderia tudo isso. Elisabeth muito provavelmente transformaria a vida dos dois em um inferno, com suas exigências e chantagens. Tudo isso por conta de sua covardia. E não havia nada que ela ainda pudesse fazer. Foi quando de repente algo atingiu sua mente, fazendo-a congelar no lugar, por conta da força daquilo que ela havia se dado conta, fazendo um largo sorriso se espalhar por seu rosto. Porque, na verdade, havia sim, algo que ela poderia fazer: ser corajosa. E finalmente se tornar aquela que lutaria por seu amor. 
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR