Isis narrando
Acordei com a sensação de que algo estava fora do lugar. Talvez fosse o silêncio. A mansão Donatello nunca era silenciosa. Sempre havia passos apressados, vozes firmes, ordens diretas ecoando pelos corredores. Mas naquela manhã... tudo parecia suspenso, parado no ar, como se o mundo estivesse prendendo a respiração.
O sol atravessava as cortinas do meu quarto com uma timidez incomum. Eu ainda sentia o corpo pesado do toque de Sebastian, como se a noite passada tivesse se agarrado a mim com garras afiadas. Meus lábios estavam sensíveis, minha pele marcada. Meu coração? Um campo minado.
Me levantei devagar e fui direto ao banheiro. Me olhei no espelho. O reflexo devolveu a imagem de uma mulher que já não reconhecia. Meus olhos não eram mais os mesmos. Estavam escuros, intensos, cheios de desejo... e medo.
Enquanto eu terminava de me vestir, Íris entrou no quarto sem bater — seu hábito irritante.
— Bom dia, irmãzinha. Dormiu bem? — ela perguntou, mas não havia humor em sua voz.
Virei-me para encará-la.
— O que houve? ~Ela segurava um envelope fino na mão. Um bilhete.
— Encontrei isso debaixo do seu travesseiro.
Minha pele arrepiou antes mesmo de tocá-lo. Peguei o papel. Letras finas, frias, perfeitamente alinhadas.
A mensagem era curta.
“Cuidado com quem você beija no escuro. A escuridão tem olhos.”
Meus dedos tremiam.
— Quem colocou isso aqui? — perguntei, tentando não entrar em pânico.
— Ninguém viu. Os funcionários negam. Os seguranças não sabem de nada. Mas alguém está vigiando você, Isis. E... Sebastian.
Ouvi o nome dele e uma parte do meu estômago se contorceu.
— Isso pode ser só um aviso. Ou uma ameaça. Ou os dois — Íris completou.
— Fala baixo! — murmurei, olhando instintivamente para a porta.
Íris cruzou os braços.
— Eu te avisei. Isso tudo... podia dar m***a. E agora estamos afundadas até o pescoço.
Não respondi. Apenas sentei na beira da cama e encarei o bilhete novamente. Meu coração estava acelerado, minha mente a mil. Alguém sabia. Alguém viu.
Mas quem?
[...]
Desci para o café tentando parecer normal. Meu pai e minha mãe já estavam à mesa. Melissa lia um relatório enquanto tomava chá. Wallace observava a movimentação pela janela, como sempre fazia quando algo o incomodava.
Sebastian não estava ali.
— Cadê o tio Sebastian? — perguntei, tentando soar casual.
Meu pai respondeu sem tirar os olhos da paisagem.
— Está com os aliados da máfia. Há movimentações suspeitas entre os Mancine e os Farkas. Eles estão se preparando para uma reunião de emergência.
Senti o estômago virar.
A presença dele me fazia sentir segura. Mas sua ausência... deixava tudo mais instável.
— E sobre o jantar? — perguntei.
Melissa me olhou por cima dos óculos.
— Hoje à noite vamos à propriedade dos Mancine para continuar os acertos do casamento. Você deve se comportar como uma Donatello. Nada de escândalos, olhares atravessados ou respostas afiadas.
Respondi com o silêncio.
Mas por dentro, eu gritava.
[...]
Mais tarde, quando subi para meu quarto, Íris me esperava sentada no chão, com seu celular na mão.
— Tem certeza de que ninguém sabe da noite passada? — ela perguntou, sem me encarar.
— Eu não sei mais de nada, Íris.
— Se for alguém da casa... estamos ferradas. Mas se for alguém dos Mancine...
Ela não completou. Não precisava. Se a família Mancine descobrisse que a noiva do herdeiro estava se deitando com o irmão do Capo, não haveria acordo que impedisse a guerra.
E Sebastian?
Meu coração batia só em pensar nele.
A última vez que o vi, ele me beijou na janela do meu quarto e desapareceu na escuridão como uma sombra. Era como se nosso amor precisasse do escuro para existir. Mas até a escuridão tinha olhos.
Me levantei e fui até a janela. A vista da propriedade era deslumbrante, mas naquele momento, tudo me parecia opressor. Uma prisão de luxo.
Meu celular vibrou.
Uma mensagem anônima.
“Seu pecado não vai ficar escondido por muito tempo.”
Deixei o aparelho cair.
Agora eu tinha certeza.
Estávamos sendo vigiados.
[...]
Quando anoiteceu, vesti o que havia de mais discreto. Não queria chamar atenção. Wallace veio me buscar no quarto com sua tradicional expressão de ferro.
— Esteja pronta para sorrir. Para fingir. Para cumprir seu papel. — disse ele.
— E você está pronto para vender sua filha?
~ Ele me encarou. O silêncio que se seguiu foi mais doloroso que qualquer grito.
— Eu estou pronto para proteger a nossa família. E se você continuar nesse caminho, Isis... nem eu poderei te salvar.
Saímos juntos, como uma família perfeita.
Mas nada mais era perfeito. Nem mesmo o sangue que corria nas veias Donatello.