Capítulo 16 – A Lâmina da Máfia
Isis narrando
O carro se movia em silêncio. Meu pai estava ao volante, como raramente fazia. Melissa ao seu lado. Eu, no banco de trás, observava a cidade escura pela janela. As luzes passavam como vultos, e cada quarteirão que deixávamos para trás parecia me afastar ainda mais de quem eu era.
Eu estava sendo levada ao jantar como um cordeiro ao abate. A filha obediente. A herdeira ideal. A noiva perfeita.
Mas por dentro… eu era um terremoto.
— Está muito quieta. — minha mãe comentou, virando-se parcialmente para mim.
— Estou apenas pensando.
— Pense, mas não sinta. — ela respondeu, fria. — Sentimentos não cabem no nosso mundo, Isis. Apenas decisões.
A frase dela ficou martelando dentro da minha cabeça.
“Pense, mas não sinta.”
Se fosse fácil assim, eu já teria cortado Sebastian da minha mente. Mas o desejo que sentia por ele era incontrolável. Estava enraizado. Ardente. E cada vez mais perigoso.
Chegamos à mansão Mancine. A fachada imponente nos recebeu como uma armadilha de ouro. Soldados nas laterais. Câmeras. Luxo por fora, podridão por dentro.
Rodrigo nos aguardava na porta. Estava bonito, impecável. Mas os olhos dele... vazios.
— Boa noite, Isis. — disse, estendendo a mão.
— Boa noite. — respondi, com um sorriso falso.
Fomos conduzidos até o salão de jantar. Os pais dele, Marco e Marcela, estavam à mesa. Raul, o irmão, conversava em tom baixo com Renata, a irmã. O clima era tenso. Ninguém estava realmente confortável com tudo aquilo. Nem mesmo os donos da casa.
Meu pai trocou olhares curtos com Marco. Havia algo não dito entre eles. Algo mais profundo do que qualquer acordo de paz.
Sentamos. Melissa ao lado de Marcela. Wallace ao lado de Marco. E eu, ao lado de Rodrigo. Como uma boneca sendo encaixada no cenário que queriam construir.
Eu olhava o prato à minha frente, mas minha mente estava longe dali. Estava em Sebastian. Onde ele estaria agora? Será que havia recebido o bilhete? Será que tinha visto a mensagem no meu celular? Será que estava tentando me proteger… ou me esquecer?
Não sei quanto tempo se passou, até que um dos guardas se aproximou da mesa e sussurrou algo no ouvido de Marco Mancine. O patriarca franziu o cenho, olhou para o meu pai, depois para mim.
— Temos um problema. — ele disse, colocando o guardanapo na mesa.
— Que tipo de problema? — Wallace perguntou, com calma fingida.
— Um dos nossos informantes interceptou uma conversa entre um soldado dos Donatello e alguém da família Farkas. — Marco falou sem rodeios.
Silêncio.
Melissa deixou o talher cair.
— Está sugerindo que temos um traidor? — ela questionou, ofendida.
— Estou sugerindo que alguém próximo demais ao núcleo de vocês está vazando informações. — Marco rebateu.
— E o que isso tem a ver com a minha filha? — Wallace perguntou, a voz baixa como uma ameaça.
— Tudo. — respondeu Marcela, com os olhos fixos em mim. — Porque a conversa mencionava o nome de Isis.
O mundo girou.
Senti o sangue fugir do meu rosto.
— Isso é um absurdo! — Melissa exclamou.
— Alguém está tentando sabotar esse noivado. — Marco falou com frieza. — E temos certeza de que a raiz do problema está dentro da mansão Donatello.
Todos os olhares se voltaram para mim. Menos o de Rodrigo. Ele mantinha o rosto virado, como se não tivesse coragem de me encarar.
Eu respirei fundo.
— Se estão me acusando de algo, falem claramente. — disse, mantendo a voz firme, mesmo que meu coração estivesse em pedaços.
— Não estamos te acusando, menina. — Marcela rebateu. — Mas tem algo errado acontecendo. E se você estiver envolvida...
— Ela não está. — a voz firme de Wallace cortou a tensão. — Isis é leal. Sempre foi. E se alguém vazou informações usando o nome dela... então essa pessoa vai sangrar.
O silêncio voltou a cair.
Eu não sabia se meu pai dizia aquilo porque confiava em mim, ou porque mentir era a forma mais fácil de manter o controle.
Mas naquele momento, uma coisa ficou clara: o nome Donatello estava sujo. E alguém queria destruir nossa linhagem por dentro.
[...]
De volta à mansão, o clima era insuportável. Wallace me chamou no escritório. Melissa veio junto. Íris ficou na porta, observando de longe.
— Quem está te manipulando, Isis? — foi a primeira coisa que meu pai disse.
— Ninguém. — respondi.
— Você não se envolve com soldados. Você não vaza informações. Você não manda mensagens. E você não beija ninguém na escuridão, entendeu?
A última frase... cortou meu peito como uma lâmina.
— Do que você está falando?
— Você acha que eu não sei? — ele se levantou. — Eu construí esse império olhando nos olhos de traidores. E você está escondendo alguma coisa de mim.
Melissa tocou o braço dele, tentando acalmá-lo.
— Wallace, vamos com calma...
— Não! — ele gritou. — Eu quero saber se a minha filha está prestes a me enterrar. Porque se estiver, Melissa, nem o meu amor por ela vai salvá-la.
— Pai... — tentei falar, mas minha voz falhou.
Ele se aproximou. O olhar dele queimava.
— Se você me trair, Isis... eu mesmo vou cuidar disso. Como faço com todos que tentam destruir nossa família.
Saí dali cambaleando.
Meus pés me levaram até o jardim, como num transe.
E então... ele apareceu.
Sebastian.
De pé, na escuridão, me esperando. Como sempre.
— Vi você no jantar. Estava linda. — disse, com a voz baixa.
— Está tudo desmoronando. Eles sabem, Sebastian. Sabem de tudo. Estão nos cercando.
Ele se aproximou, pegou meu rosto entre as mãos.
— Então que venham. Eu mato cada um deles se for preciso.
— Você não entende... é meu pai. Ele vai me m***r se descobrir.
Sebastian respirou fundo.
— Talvez esteja na hora de fazer o que nunca fizemos.
— O quê?
— Fugir.
Ficamos em silêncio.
O impossível estava sendo considerado.
E eu sabia: se fugíssemos, não haveria volta.
Mas se ficássemos... estaríamos mortos de qualquer jeito.