Capítulo 19 – Coração em Cativeiro
Isis narrando
O quarto continuava sendo meu, mas já não me pertencia. As paredes eram as mesmas. A cama, o mesmo lugar onde um dia eu dormi sonhando com liberdade. Mas agora, tudo era prisão.
E não por causa das grades invisíveis que meu pai impôs.
O que me prendia de verdade... era o coração.
Quatro dias haviam se passado desde a noite em que Sebastian me encontrou, quebrado, mas ainda de pé. E eu, em pedaços, mas viva.
Ele desapareceu desde então. Íris disse que Wallace permitiu que ele ficasse em um cômodo isolado, sob vigilância, mas sem tortura. Como um gesto de clemência.
Ou talvez fosse apenas culpa.
Wallace me via todos os dias. Não dizia uma palavra. Nem um grito, nem um insulto, nem um gesto.
E isso... doía mais do que qualquer castigo.
Minha mãe me observava de longe. Com aqueles olhos vazios de mulher que aprendeu a engolir tudo.
Ela não perguntava sobre Sebastian. Não me perguntava se eu estava bem. Apenas esperava.
Como se quisesse que eu desistisse.
Mas eu não ia.
Eu não podia.
Naquela manhã, Íris apareceu com um envelope escondido entre os livros.
— Ele escreveu. — sussurrou, olhando para os lados.
Abri com as mãos trêmulas.
"Isis,
Eu estou vivo. Não sei por quanto tempo vou ficar nesta casa, mas Wallace prometeu que não vai mais me ferir. Não confio nisso, mas aceito. Por você. Estou pensando em algo. Não para fugir, mas para resistir. Se o amor é nossa culpa, então que seja também nossa salvação.
Você é tudo o que tenho.
— Sebastian"
Senti as lágrimas deslizarem no rosto. Não havia poesia naquilo. Só verdade.
[...]
Na noite seguinte, Wallace me chamou ao escritório.
Eu entrei. Sentei sem ser convidada. Não abaixei os olhos.
Ele também não.
— Você ainda o ama?
Não hesitei.
— Sim.
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo grisalho.
— Você sabe o que ele significa pra mim. E o que você representa pra essa família.
Assenti, firme.
— Sei que você não vai me perdoar. Mas também sei que eu não fiz nada errado. Amar não é crime, pai.
Ele me encarou como se me visse pela primeira vez.
— E se eu disser que o único jeito de preservar a paz com os Mancine... é você se casar com Rodrigo?
Meu estômago se revirou. A dor no peito veio como um soco.
— E se eu disser que não vou?
Ele respirou fundo.
— Então eu terei que escolher entre o homem que ajudei a criar... e o sangue que me deu o nome.
Permaneci em silêncio.
Ele balançou a cabeça devagar.
— Sebastian será exilado. Mandado para outro país. Em nome da honra. Da paz. Da estabilidade.
Meu coração parou.
— Isso é um castigo?
— É a única chance que ele tem de viver.
— E eu?
— Você... vai continuar aqui. Ao meu lado. Como minha filha. Intacta.
Mas sozinha.
Saí do escritório com o corpo inteiro tremendo.
Naquela noite, pela primeira vez em anos, tive pesadelos com minha infância.
Com a garotinha que queria ser livre.
E entendi que a maior prisão... era viver numa casa onde amar era uma sentença.
Mas não seria pra sempre.
Eu juraria isso.