Capítulo 18 – O Inferno Tem o Nome Dela
Sebastian narrando
Nunca imaginei que um dia estaria algemado no porão da casa que ajudei a construir.
A luz fraca de um único refletor pendurado no teto ilumina o concreto sujo à minha frente. As paredes são frias, úmidas, e o cheiro de ferrugem do meu próprio sangue já não me incomoda. O que realmente me destrói é o vazio. O silêncio entre um golpe e outro. O tempo que me forçam a passar aqui, só com meus pensamentos... e com o nome dela girando como uma maldição dentro da minha cabeça.
Isis.
Ela era o pecado que eu podia ter evitado. Mas não quis.
Ela era a faísca que eu deveria ter apagado. Mas alimentei.
Ela era a minha perdição — e a única coisa que ainda me fazia querer sair vivo daqui.
Desde a noite em que tentamos fugir e fomos cercados como animais, tudo se quebrou dentro de mim. O olhar de Wallace — aquele olhar de pai, chefe, carrasco — ainda me persegue. Ele não gritou. Não precisou. O modo como pronunciou meu nome foi suficiente para cortar mais fundo que qualquer faca.
Traidor.
A palavra ecoa nas paredes todos os dias, mesmo quando ninguém diz nada.
Mas eu não o traí.
Eu apenas escolhi amar.
E na casa Donatello, isso é pior que traição.
[...]
Eles não me tocam mais. Wallace sabe que não precisa. Ele é inteligente. Ele prefere que eu apodreça sozinho. Sem cortes. Sem tiros. Só o veneno lento da culpa, da espera, da incerteza.
Todos os dias ele manda alguém perguntar a mesma coisa:
— Está pronto para contar tudo?
E eu respondo a mesma coisa:
— Não tenho nada para contar.
Ele sabe que estou falando a verdade.
Mas não se importa.
Wallace quer que eu quebre. Que implore. Que rasteje.
Mas ele esquece uma coisa: eu fui moldado pelo mesmo pai que o dele. Eu aprendi com ele a suportar o insuportável.
Se ele quer me m***r, vai ter que ser de outra forma.
Porque o que me mantém de pé… é o rosto dela.
A lembrança da sua pele sob a minha.
O som do seu nome dito no escuro.
O gosto da sua boca quando ela sussurra “me leva daqui”.
[...]
Hoje, pela primeira vez, deixaram a porta do porão entreaberta.
Armadilha?
Provavelmente.
Mas isso também pode ser a primeira falha da armadura Donatello. E eu aprendi a identificar rachaduras.
Me levanto, mesmo com os músculos gritando de dor. Ando mancando até a porta. Empurro devagar.
Silêncio.
Corredor vazio.
E uma sombra ao fim dele: Íris.
Ela me encara. Respira fundo. E joga uma chave no chão.
— Cinco minutos. — sussurra. — Você vai saber o que fazer.
Sumiu antes que eu pudesse agradecer.
Me ajoelhei e peguei a chave. Mãos trêmulas, pulsos marcados, mas o coração firme. Quando destranquei a algema e me senti livre, pela primeira vez em dias, respirei o ar da vingança. Do amor. Da decisão.
Eu sabia o que fazer.
Não era fugir.
Era lutar.
[...]
Caminhei pelos corredores como um fantasma. Evitando os homens, as câmeras, os sussurros. Eu sabia onde ela estava. O quarto dela. O mesmo onde a beijei pela primeira vez. Onde ela disse que me queria, mesmo sabendo o quanto isso nos destruiria.
Bati na porta duas vezes.
— Quem é? — a voz dela, baixa, do outro lado.
— O inferno tem o seu nome. — respondi.
A porta se abriu.
Ela estava com o rosto pálido, os olhos cansados, a alma quebrada.
— Sebastian...
Não precisei de mais nada. A abracei com força. Senti o corpo dela colar no meu como se estivéssemos tentando voltar a ser um só.
— Você fugiu? — ela perguntou.
— Não. Eu fui solto por Íris. Tenho pouco tempo.
Ela me encarou.
— Então por que veio aqui?
— Porque se eu tiver que morrer… quero que seja depois de te olhar uma última vez.
Ela chorou. Me beijou. Me puxou para dentro.
Fechamos a porta. E, ali, naquela cela dourada que chamam de quarto, nos amamos outra vez. Com pressa. Com dor. Com fúria. Como se cada segundo fosse o último. Como se o mundo lá fora não estivesse esperando para nos julgar.
Quando terminamos, deitados um sobre o outro, ofegantes, ela sussurrou:
— O que vamos fazer?
Fiquei em silêncio por um instante. Pensar em fugir parecia tolice agora. Pensar em lutar contra Wallace era impensável. Ele era o pai dela. O homem que me criou como um irmão. Por mais que tudo estivesse virando fumaça, eu jamais levantaria a mão contra ele.
— A gente não vai fazer nada contra ele, Isis. — falei. — Eu... não posso. Você não pode. Não é quem somos.
Ela fechou os olhos e assentiu. Uma lágrima escorreu pelo canto do seu rosto.
— Eu sei. Ele é meu pai...
— E foi me aceitou. De todas as maneiras que importam. Eu odeio o que ele está fazendo com a gente. Mas ainda o amo. E jamais faria algo para machucá-lo. Nem permitiria que você fizesse.
— Então... o que sobra pra gente?
Apertei sua mão.
— Esperar. Pensar. Planejar. E, acima de tudo, sobreviver. Um dia ele vai ver que nosso amor não é vergonha. Que não é traição. É só amor.
Ela me encarou, com os olhos vermelhos, mas brilhando como estrelas caídas.
— Você acha mesmo que isso é possível?
— Acho. Porque, mesmo com tudo que fizeram, eu ainda estou aqui. E você também.
Nos abraçamos em silêncio.
E naquela noite, entre medo e amor, promessas e cicatrizes, eu fiz a mim mesmo um juramento: não importa quanto tempo leve, Isis vai ser minha — e vamos reconstruir tudo juntos.
Nem que o mundo inteiro tente impedir.
______ Notas da autora ________
aí meninas... esse amor impossível me deixa pirada... me contem aí, vocês estão torcendo por esse casal ou eu estou nessa sozinha? haha