O telefone tocou antes do amanhecer.
O som seco ecoou pela casa silenciosa como um presságio. Dominic atendeu no primeiro toque. Você soube, no instante em que viu o rosto dele endurecer, que algo tinha dado errado.
Muito errado.
— Onde? — ele perguntou, a voz controlada demais.
Você se levantou devagar, o coração batendo no ouvido.
Dominic desligou sem dizer adeus.
— É a Elisa — você disse, antes mesmo que ele abrisse a boca.
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Lorenzo mandou um recado — respondeu. — Dessa vez… claro demais.
O mundo pareceu inclinar.
— O que aconteceu com ela? — sua voz saiu trêmula.
— Está viva — Dominic disse rápido. — Mas ferida. O suficiente para você entender.
Você sentiu as pernas falharem e se apoiou na mesa.
— Isso é culpa minha — você sussurrou.
— Não — ele respondeu, firme. — É culpa minha por ter deixado você visível demais.
— Então por que eu ainda estou aqui?! — você explodiu. — Por que você me trouxe pra esse inferno?!
O silêncio caiu pesado entre vocês.
Dominic passou a mão pelo rosto, claramente lutando contra algo interno.
— Porque eu fui egoísta — ele disse, finalmente. — Porque quis você perto mesmo sabendo o preço.
As palavras doeram mais do que o ataque.
— Você me usou — você disse, o peito apertado. — Me colocou como escudo.
— Nunca — ele rebateu, dando um passo à frente. — Eu tentei te proteger.
— Proteger? — você riu sem humor. — A Elisa está em um hospital por minha causa!
Dominic parou.
Algo mudou em seu olhar. Algo escuro. Antigo.
— Você quer a verdade? — ele perguntou, a voz baixa. — A verdade que eu escondi de você?
Você assentiu, mesmo com medo.
— Lorenzo não começou essa guerra agora — Dominic disse. — Ele começou quando eu mandei executar o irmão dele.
O ar saiu dos seus pulmões.
— O quê…?
— O homem era inocente — ele continuou. — Estava no lugar errado. Com o nome errado. E eu autorizei mesmo assim.
Você levou a mão à boca, chocada.
— Você… sabia?
— Eu desconfiava — ele respondeu. — Mas escolhi acreditar que poder justificava silêncio.
As palavras caíram como lâminas.
— Então é isso — você disse, dando um passo para trás. — Esse é o homem que está me protegendo?
Dominic se aproximou, desesperado.
— Eu não sou mais aquele homem.
— Mas foi — você cortou. — E isso muda tudo.
O telefone tocou novamente. Dominic ignorou.
— Se você ficar comigo agora — ele disse —, não há volta. Lorenzo não vai parar. Ele vai continuar usando quem você ama.
Você sentiu o nó se fechar no peito.
— Então eu não posso ficar — você disse, as lágrimas finalmente caindo. — Porque eu não vou assistir mais ninguém sangrar por mim.
— Se você sair — Dominic disse, a voz quebrando pela primeira vez —, eu não vou conseguir te proteger lá fora.
— Talvez você nunca devesse ter tentado — você respondeu.
O silêncio entre vocês não era mais tensão.
Era ruptura.
Você pegou suas coisas com mãos trêmulas.
Dominic não tentou impedir. Não tocou em você. Não ordenou nada.
— Isso é um adeus? — ele perguntou.
Você parou na porta.
— Não — respondeu. — É o fim de uma escolha errada.
Quando a porta se fechou atrás de você, Dominic ficou sozinho no centro da casa.
Lorenzo tinha conseguido.
Ele não destruiu Dominic com balas.
Destruiu com consequências.
E você, do lado de fora, ainda não sabia…
…que Lorenzo não tinha terminado.