Do orfanato a uma nova vida

1836 Palavras
Fomos para o orfanato, era um bom lugar, limpo e com comida. No início até era bom. Depois as outras crianças começaram a implicar com a gente, por que a dona Cecília sempre vinha nos visitar e trazer coisas, acho que elas tinham ciúmes. Passei a apanhar todos os dias para proteger meu irmão. Quando eles começavam a zombar de nós e dizer coisas como: "Vocês nunca vão sair daqui" " já são grandes, ninguém quer criança grande, todo mundo quer bebês" "logo transferem um de vocês e quero ver você proteger esse chorão" quando as provocações surgiam, mesmo sabendo que eu ia apanhar, eu tomava a frente e retrucava tudo, antes do Matheus poder chorar ou falar qualquer coisa, assim, bateriam em mim, e não nele. Eu aguentava apanhar, mas não ver ele apanhando. Passaram se vários dias, quase um mês, e nada da diretora tirar a gente dali. Um certo dia, na véspera do meu aniversário de 11 anos, apareceu um casal de caipiras, porém muito bem vestidos. Eles queriam nos ver, fomos para uma sala, onde eles nos fizeram muitas perguntas, entre elas, o que achávamos de morar em uma fazenda. Nesse dia, eles viram outros meninos ali do orfanato também. E ao final do dia, meu irmão e eu fomos novamente chamados a sala da diretora do orfanato. O casal também Estava lá, e junto, um menino que havia acabado de chegar no orfanato. O vi de longe quando chegou na noite anterior, ele chorava bastante, acho que era um pouco mais velho que eu, e eu senti vontade de falar com ele, mas não fui. O casal falou que levaria ele, e que queria levar meu irmão também. A diretora me olhou e disse: - Você não pode ir junto querida. No mesmo instante corri e me agarrei ao meu irmão, gritando que ninguém iria separar a gente, nós dois chorávamos  muito. Eu pedia desesperadamente para chamarem a tia Ciça, que ela iria adotar nós dois. Ela prometeu! Foi então que a diretora deu a cartada final em mim: - A diretora dona Cecília, está enfrentando dificuldades para conseguir a guarda de vocês dois. Talvez ela não consiga a de nenhum. Ela é uma mulher solteira, aqui damos prioridade aos casais. Vocês já são grandes, e talvez essa seja a única chance do seu irmão sair daqui e ter uma vida normal. Não prive ele disso. Essa família é boa, caso contrário não poderiam adotar uma criança. Eles podem cuidar do seu irmão e dar uma boa vida a ele. Não tire isso do seu irmão. Em meio a muitas lágrimas e soluços, abraçei forte meu irmãozinho, que também chorava agarrado a mim, nisso, o outro garoto segurou em minhas mãos e disse: - Eu cuido dele para você, não se preocupe. Aqueles olhos pareciam confiáveis, e eu confiei neles. Chamei meu irmão no cantinho da sala, me abaixei diante dele e prometi que um dia iria encontrá-lo. Falei para ele ir, disse que logo estaríamos juntos novamente, menti. O acalmei, o abraçei e beijei, como se fosse a última vez, sequei minhas lágrimas e o fiz acreditar que eu estava bem, e que tudo ficaria bem. Desmoronei quando sai da sala. Passaram -se mais quatro meses, até que a tia Ciça conseguiu minha guarda. Eu já não era mais a mesma. Esses meses aqui sem meu irmão, não me deixaram mais nada a perder. Eu nunca mais apanhei, aprendi a me defender, fiz muitas maldades inclusive, com aqueles que nos maltrataram. Parece que toda parte boa de mim foi embora junto com ele, eu tinha a sensação de que nunca mais iria ver o meu irmão, e isso me matava aos poucos, e me deixava com muita raiva do mundo. Não era justo. Nossa mãe nunca ligou pra nós, só tínhamos nosso avô, e cuidamos dele até o fim, eu sempre fui uma boa menina, boa neta, boa aluna e ótima irmã, agora só tínhamos um ao outro, e a vida levou ele pra longe de mim. Um sentimento de raiva crescia dentro de mim a cada dia que passava sem notícias dele e dentro daquele orfanato. Quando finalmente fui para a casa da tia Ciça, já não a amava tanto assim. Eu culpava ela por não ter nos tirado de lá a tempo, eu não entendia a complexidade de tudo que ela enfrentou para conseguir me adotar. Alguns dias depois que me mudei para minha nova casa, comecei a ter alguns pesadelos. Sonhava que meu irmão me pedia ajuda, e eu não conseguia ajudá-lo, isso me deixava com ainda mais raiva do mundo. Passei a ter também sonhos estranhos. Certa noite, sonhei que brincava de esconde-esconde com meu irmão e uns meninos do bairro onde crescemos, eu estava contando encostada em um poste, e de repente escuto um barulho bem próximo de mim, e consegui sentir até o vento na minha pele, olhei pra trás e vi um senhor caído no chão, para mim ele havia acabado de tropeçar e cair, e eu me aproximei para tentar ajudá-lo. Sangue escorria da sua boca e nariz, mas o que me chamou a atenção foi seus olhos, o brilho que existia neles era algo familiar, mas eu não saberia dizer o que. Quase se afogando no sangue ele disse: "Eu encontrei você" Nunca entendi o que isso significava, só me lembro de chegarem pessoas imediatamente, gritando para que eu não me aproximasse, por que ele havia caído do oitavo andar do prédio ao lado. Olhei para cima e acordei assustada.  Aqueles olhos não saiam da minha cabeça o dia todo. Sonhos assim se tornaram comuns, e eu até rabiscava nas folhas dos meus cadernos aqueles olhos. Era como se uma parte de mim estivesse ligada a eles, mas eu não saberia explicar, então nunca falei disso com ninguém. A escola que eu sempre tive tanto interesse, para mim já não tinha mais o mesmo significado sem meu irmão ali. Sempre quis ser alguém na vida, trabalhar, fazer sucesso, ser famosa e conhecida. Era a cabecinha de uma criança, com 11 anos de idade. Talvez pelo fato de que fui rejeitada desde o ventre pela minha mãe, a fama sempre me chamou a atenção. Mas agora, sem meu irmãozinho, nada mais tinha sentido, tudo perdeu o brilho e encanto. Eu sempre quis dar uma vida melhor a ele, poder cuidar dele, como nossa mãe nunca fez. Agora eu não tinha mais por quem querer vencer. Tia Ciça não desistia de mim, sempre estava tentando me animar, mas nada nunca era o suficiente para mim. Agora eu morava em uma casa limpa, onde eu não precisava trabalhar, muito menos sair pedir esmola pelas ruas. Tinha uma cama quentinha e cheirosa para dormir todas as noites. Fazia quantas refeições eu quisesse. Experimentei comidas e doces que nunca imaginei provar. Mas mesmo assim eu não estava feliz. Trocaria tudo isso pela casinha simples do meu avô, a companhia  e cuidado dele, as brincadeiras e birras do Matheus. São lembranças que quero levar para sempre comigo. A única coisa que eu ainda sentia prazer em fazer, era ler. A leitura me proporcionava sair da minha realidade, e esquecer um pouco de toda a tristeza no meu coração. Os anos passaram, me tornei uma adolescente problemática. Com 15 anos, ia para aula só quando me dava vontade. Nunca mais conseguimos nenhuma pista sobre o Matheus. Eu sei que a minha mãe adotiva, tia Ciça, se sentia culpada, e eu fui vendo o brilho dela se apagar dia após dia, a cada tentativa inútil de saber o paradeiro dele. Mas isso não me fazia se sentir melhor, ver que ela sofria e se sentia culpada, não diminuia minha dor, nem a culpa que eu coloquei nela. Para mim, ela foi a culpada sim, pois prometeu não nos separar, e não cumpriu sua promessa. Tia Ciça não me colocava limites, talvez pela culpa que carregava. E com 17 anos, eu aproveitava ao máximo tudo que a vida me oferecia. Eram festas e resenhas no mínimo 4 vezes na semana com a galera. Não morava mais na favela, mas a favela ainda morava em mim. Tinha amigas de lá, e passei a frequentar muito os bailes. Eu tinha medo de beber, de usar drogas, com essas coisas era mais cautelosa, mas aos poucos fui me soltando. Sábadou e nós estamos como? Indo para o baile, óbvio! Tenho cabelao cacheado, e adoro meu volume. Gosto de usar ele solto, bem escandaloso mesmo. Quero arrasar no baile, então bora escolher o look! Vesti um body bem decotado, com detalhes em pedraria nas alças, sainha de couro preta, com zíper na frente, e um sapato nude, combinando com o body. O baile de hoje promete muito, agora o morro tem um novo rei, quero muito conhecer essa nova galera. O Armandinho, antigo dono do Morro foi morto em um confronto com a polícia, ele não me dava muita moral, mas me respeitava. Foi ex aluno da tia Ciça e ela sempre foi muito querida. Agora esse tal de Serjão assumiu o controle. Adoro conhecer gente nova! Meu melhor amigo é g@y, Gabriel o nome dele, mais conhecido como Gaby. O Gaby é meu companheiro inseparável, apesar de não curtir muito subir o morro, ele vai só pra me fazer companhia. O Gaby já tem 18 anos, super esforçado, já comprou até um carro. Ele que vem me buscar para o rolê. Chegamos no baile, passamos pela fila, como de costume, já conhecia os seguranças, então era só entrar. Não dessa vez. Para minha surpresa, não tinha nenhum dos meus conhecidos ali. Fomos barrados na porta e o segurança me pediu os documentos. Eu era menor de idade, mas isso nunca foi problema para entrar ali, nem para mim nem para minhas amigas. Tentei dizer a ele que havia esquecido os documentos no carro, então ele me falou para ir buscar e entrar no final da fila. Voltamos para o estacionamento, eu estava sem internet, usei o roteador e emprestei a internet do Gaby para falar com meus contatos. As meninas da minha idade falaram que tiveram que voltar também, a mais velha, disse que achou muito barra pesada e resolveu ir embora. Alguns dos meninos eram da gangue rival e não podiam nem aparecer ali. Falei para o Gaby: - Que m***a! Acabaram com meu fim de semana! Só terminei de falar isso e ouvi uma voz vinda de trás de um carro... - Posso ajudar? Me virei e vi um moreno lindo, forte, totalmente o meu número, e o do Gaby também, diga-se de passagem... Expliquei para o gato o que havia acontecido. Ele me disse que era o braço direito do Serjão, e que ele proibiu a entrada das novinhas de menor lá, mas como só faltava duas semanas para eu fazer 18, ele disse que poderia dar um jeito, se eu aceitasse tomar algo com ele depois. É claro que eu topei né, se eu não topasse o Gaby topava.
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