Mamãe é o primeiro espelho para o bebê, e é através dela que emerge a percepção do Eu por parte do pequeno ser humano. Enfim, do ID surge o Ego. E o Superego? Segundo Freud sua introjeção – enquanto conjunto de normas, leis e regras, princípios morais, valores, tudo aquilo que é e não é cabível, e que o é, ou não, em determinada situação – ocorre em torno dos sete anos de idade. Todavia, Melanie Klein sugere que o surgimento do Superego é bem anterior e, de fato, eu concordo com essa psicanalista, na medida em que é possível observar como, crianças de 2, 3 ou 4 anos, já brinquem de algum “faz de conta”, por meio do qual elas passam a representar o papel do adulto, normalmente aquele dos “pais” de bonecas e ursinhos de pelúcia, ou mesmo uns dos outros, ou ainda, dos próprios pais, numa inversão de papeis, já que os filhos pequenos, em alguns momentos, atribuem aos pais o papel de crianças, assumindo elas mesmas o papel de pai/mãe e orientando os “filhos” segundo aquilo que pode ou não se pode fazer.
Um exemplo dessa atitude infantil foi bem descrito por Marion Milner, psicanalista britânica que, por sinal, foi supervisionada por Melanie Klein. Já escrevi um artigo (publicado no Portal/Blog do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica) sobre o texto que Milner dedica ao resumo da análise de uma pequena de três anos, e essa menina, assim como as demais, em algum momento passava ela mesma a interpretar o papel de mãe, e a afirmar, solene, aquilo que era cabível e aquilo que não se podia fazer, no caso, para a própria Milner, durante os momentos lúdicos das sessões psicanalíticas. O que aqui tem mais relevância é que o Superego surge do Ego, que por sua vez surge do ID.
O Ego, basicamente, precisa mediar (e resistir) entre as moções pulsionais que emergem do ID com todo o ímpeto da energia psíquica de fundo s****l e agressivo que é a libido e, ao mesmo tempo, procura delimitar o seu campo, de maneira que o Superego não seja demasiadamente opressivo em seu disciplinar moralmente o self do sujeito. De fato, precisamos de um Superego atuante. Quando o Superego não cumpre o seu papel, ocorrem situações no mínimo embaraçosas. Há alguns dias, apenas para exemplificar, li a notícia de um casal que foi detido ao praticar sexo em uma calçada de uma cidade do interior de São Paulo, em frente a um estabelecimento comercial. Notadamente, o ID não quer saber de mediação ou de certo e errado, apenas busca a gratificação de suas pulsões, por meio da descarga da libido no soma (corpo).
O ego e o superego
Caso o Superego não cumpra corretamente o seu papel repressor, o ser humano não teria como resistir às moções pulsionais procedentes do ID e, portanto, situações como a da calçada da cidade do interior paulista, seriam corriqueiras. Da mesma forma, o Superego serve para inibir a descarga de impulsos agressivos, e isso, evidentemente, protege o sujeito e seus semelhantes, assim como outras espécies, da violência que, sem essa “mediação” superegóica, tomaria conta do planeta, ainda mais do que, lamentavelmente, lemos e vemos diariamente nos noticiários.
Resumindo, o papel do Superego é fundamental, sem embargo, caso o mesmo esteja inflado ou hipertrofiado, enfim, demasiadamente ativo e repressivo, essa instância torna-se responsável, ela mesma, pelo surgimento de diversos transtornos psicopatológico e, no caso aqui discutido, é a partir de um Superego opressivo – isto é, que invade continuamente o “campo” de atuação do Ego, que surgem crenças limitantes ligadas, principalmente, à culpa e à cobrança. Trocando em miúdos, o Superego é como um guarda “virtual”, introjetado durante a primeira infância e pelo qual somos fiscalizados em continuação. Se o ID está dizendo “quero isso, quero agora e ponto final”, o Superego diz: “Isso pode, isso não é cabível, ou não o é nesse momento, nessa situação”.
O Ego, lembremos, precisa mediar entre as duas instâncias e, ainda, precisa chegar a um compromisso com a realidade, ou seja, com o mundo externo, aquilo que se encontra fora do mundo intrapsíquico inerente ao Eu. Por essa razão, o Ego precisa ser fortalecido, ser emancipado, de maneira a conter as invasões do ID, as repressões do Superego e as ameaças do mundo externo. O papel da psicoterapia, quer se trate de Psicanálise ou de Hipnose Clínica é, justamente, o de fortalecer o Ego. Embora o assunto não se esgote e haveria muitas outras ponderações a serem feitas, esse artigo teve por objetivo esboçar as três principais causas e origens das chamadas crenças limitantes, indo além do óbvio (porquanto correto) que costuma ser dito acerca do fator emocional.
Conclusão
Como vimos, o legado de um trauma emocional tem a ver com o surgimento de convicções que, de fato, nos reduzem e limitam. Todavia, a fixação de crenças limitantes pode ocorrer, também, por meio da repetição. Em miúdos, as pessoas tendem a crer sempre mais naquilo que repetem ad nauseam. E enfim, principalmente nós, psicanalistas, precisamos compreender como, além dos dois fatores acima, a instância superegóica contribua para com a criação e sustentação de crenças limitantes, principalmente aquelas ligadas à culpa e à cobrança para consigo mesmo/a.
É nesse sentido que, apesar da necessária limitação, devida ao formato de paper para um Blog como aquele do Instituto Brasileiro de Psicanálise Clínica (por meio do qual completei minha formação como psicanalista clínico e completei um curso avançado de Tópicos de Clínica Psicanalítica, e ao qual sou filiado como psicanalista em exercício), consegui ao menos ampliar a discussão sobre algo tão importante e atual como é o caso das chamadas “crenças limitantes”, expressão em auge tanto nas redes sociais, como em cursos e formações de fundo psicoterapêutico. Se não der para esgotar o assunto, pelo menos vamos fomentar o debate e, ao mesmo tempo, tentemos extrapolar a reiteração acrítica do óbvio.
Hoje bem menos, mas nas famílias mesmo naquelas que diziam não terem repetido a educação recebida dos antepassados, mas as “crenças” iam sendo repassadas. É semelhante a Cultura de uma Nação ou Empresa de grande porte! Aonde moro tem um Hipermercado, Opera Pix, tem caixa auto atendimento e de varejo se tornou também atacado (opera as duas modalidades, em separado), mas a gente acha na prateleira calculadora a venda, rotisserie de “mercado”: feijão, arroz, sufle, perna de frango e por aí vai! Noutra ponta, um colega do então 1. Grau, década de 70 (nos formamos em 1980), recentemente fazendo mestrado em area de Administração! Duas análises a se fazer: louvável pela ótica de se manter competitivo, mas por formação, ele deveria saber que a Sociedade e Mercado busca de pessoas acima dos 50 anos, a experiência e transmissão de conhecimento, ao invés de ainda buscar conhecer! Em suma: se tudo o que acreditou a ciência no passado, ficasse estático, ainda Charles Chaplin seria contemporâneo em sua crítica nos “Tempos Modernos”!