E é preciso sublinhar que o mais importante na Hipnose não é a técnica de indução utilizada, e sim, a aceitação das sugestões, de onde a relevância da conexão, confiança e empatia entre paciente e terapeuta. Voltando às crenças limitantes, a Hipnose é, sem dúvida, uma ferramenta poderosa e eficaz, em determinadas situações. Porém, é oportuno ponderar e discernir, mais uma vez, pois há uma diferença substancial entre sintoma e causa etiológica. Se a crença limitante for gerada por um trauma emocional, apontado de maneira plausível pelo paciente, então a Hipnose, ou até mesmo uma boa PNL, pode solucionar o problema.
Trauma emocional e a Psicanálise
Todavia, se porventura se tratar da reverberação de um trauma emocional prévio, infantil, então a Psicanálise pode ser mais eficaz, embora o tratamento seja mais demorado. Assim como é destacado por David Zimerman em seu Manual de Técnica Psicanalítica (2004), a duração do tratamento psicanalítico depende de dois fatores, a saber: a profundidade da psique humana, e a necessidade de o paciente estar pronto, de fato, “para ver ele mesmo”, o que me leva, por “associação dialógica”, a parafrasear a ficção “Matrix”, na qual Morpheus afirma para Neo: “You have to see it for yourself” (Você precisa enxergar isso por você mesmo). O segundo fator que dá origem às crenças limitantes, de alguma maneira, dialoga com o que acabei de descrever acerca da Hipnose.
Como já foi dito, Hipnose é um estado da mente e, infelizmente, as pessoas utilizam da mesma com frequência, sem se dar conta e, pior, recorrem a ela para fixar imagens (ideias, pensamentos, sentimentos…) negativas, através de um loop (laço) autohipnótico. Trocando em miúdos, essa segunda maneira de criar e fomentar crenças limitantes ocorre por repetição. É dessa forma que as crenças ficam incrustadas na camada pré-consciente, ou sistema límbico que se queira – assim como o tártaro nos dentes, e o hipnoterapeuta age como um dentista que vem a se deparar com a limpeza, ou remoção, da referida incrustação.
No caso da hipnose clínica, o que acontece é a substituição do “programa” que contém as crenças limitantes e que produz a chamada “autosabotagem”, por um novo “programa”, composto por crenças fortalecedoras. Nesse sentido, a comparação odontológica pode ser substituída por uma figura de linguagem, a qual remete para a ciência da computação. Sim, o conteúdo subconsciente (pré-consciente) é como um software (programa), por meio do qual, o sujeito se comporta de maneira prejudicial a ele mesmo. Esse “software” é principalmente de teor emocional, sem embargo, a repetição, seja “intrapsíquica” (principalmente), ou através de asserções pronunciadas para terceiros, cria e fortalece as convicções e, mais uma vez, é preciso destacar que estas são tendencialmente negativas: “eu não consigo”, “eu não posso”, “eu não mereço”.
Autoafirmação, autoconsciência e autorresponsabilidade
Se, com Freud, toda e qualquer perturbação psicopatológica é oriunda de um ego enfraquecido, é facilmente compreensível que, a substituição de algo que atrapalha, atrasa, inibe, reduz e limita o ser humano, por uma programação mental pautada no empoderamento, no sentimento de capacidade, autoafirmação, autoconsciência e autorresponsabilidade, é uma maneira de devolver ao ego seu papel central dentro do aparelho psíquico. Note-se como a repetição e fixação de crenças, ou convicções limitantes, apoia-se em alguns padrões que poder-se-ia denominar de estruturais, como é o caso de generalização e vitimismo, mas também, observa-se a crença na impossibilidade de se reagir, tomando as rédeas da própria vida.
É nesse sentido que falei em padrões estruturais, justamente, devido ao fatalismo implicitamente envolvido, ou seja, a crença em alguma instância supraindividual coercitiva que, inconscientemente, sustenta a situação negativa, sem que o sujeito possa, de fato, reverter a situação. Considerando o caso acima mencionado, do garoto que, em uma valsa. pisa no pé da garota amada, darei agora outro exemplo, desta vez biográfico, real, específico e que, inclusive, já foi representado no cinema, através de um filme, Bird (1988), muito bem dirigido por Clint Eastwood e igualmente bem interpretado por Forest Whitaker. Trata-se de um momento da vida de Charlie (“Bird”) Parker, um dos maiores ícones da música Jazz.
A primeira exibição de Bird foi um completo fracasso: o jovem Charlie Parker errou, ou melhor, tomou demasiadas liberdades, e o baterista Jo Jones, que o acompanhava na jam session, ficou furioso, interrompeu a execução de uma música e, em seguida, pegou um prato da bateria e o jogou no chão, perto dos pés de Parker. O público berrou e Parker saiu completamente desmoralizado e envergonhado. Esse exemplo é significativo a fim de se ressaltar a subjetividade, característica central do pensamento e, principalmente, da teoria psicanalítica. Ou seja, lá onde um sujeito teria ficado completamente inibido, ao ponto de nunca mais ter se apresentado em público como músico, outro indivíduo, como é o caso de “Bird”, reagiu à situação traumática, encontrando nela um motivo de superação.
A relação com a Programação Neurolinguística
Por absurdo, pode-se afirmar que, com grande probabilidade, se o incidente não tivesse ocorrido, Charlie Parker não teria se tornado tão bom em tocar o saxofone. Mas “Bird” considerou a humilhação como uma razão para demonstrar todo o seu valor e, assim, se trancou em sua residência durante meses seguidos, se exercitando constantemente, de dia e de noite, até se tornar, de fato, um dos maiores nomes da história da música, não apenas do Jazz. O trauma emocional, portanto, deu origem a um desafio, e não a uma inibição, como muito provavelmente teria acontecido com outro sujeito. No caso de Charlie Parker, observa-se que a repetição não foi pautada por uma crença limitante, negativa, com base na frustração e no fracasso, e sim, o incidente provocou uma reação, caracterizada e fomentada por uma crença fortalecedora: “eu posso”, “eu consigo”, “agora vou mostrar quem eu sou e o que sou capaz de fazer”.
Normalmente, porém, as pessoas tendem a criar crenças limitantes, quer devido a traumas advindos de situações de forte impacto emocional, quer devido à reiteração (e empoderamento) de pensamentos negativos, os quais, assim como é sustentado pela Programação Neurolinguística – área da psicologia criada por John Grinder e Richard Bundler – por sua vez geram sentimentos, que induzem o sujeito a agir de certa maneira e, assim, a obter determinados resultados. Segundo a PNL, cria-se um círculo, uma cadeia, que obedece à seguinte ordem: pensamento/sentimento/açãoesultado. Até o momento em que o sujeito conseguir mudar seus pensamentos, ou estrutura mental (mindset), os resultados não mudarão, e a pessoa permanecerá reiterando seu comportamento ad infinitum, obtendo sempre o mesmo resultado.
Por isso que, aparentemente, é tão difícil que as pessoas mudem, sem contar que a mente consciente, impelida por um mecanismo de preservação energética, tende a “deixar tudo quieto, do jeito que está”. Por isso, as pessoas querem resultados diferentes sem alterar a própria estrutura mental. Em miúdos, para se ter resultados diferentes, é preciso aprender a pensar de maneira diferente, mas não é só isso. O “pensamento” deve ir além da mente consciente, já que, aquilo que nos move adiante, está alojado em nossa camada pré-consciente. Disso resulta a importância da Hipnose clínica, por permitir, justamente, trocar o “programa” de crenças limitantes, por um “programa” de crenças fortalecedoras.
ID e as Crenças Limitantes
Como acabamos de verificar, a repetição viabiliza a fixação, ou incrustação, das crenças limitantes, as quais acabam se instalando na mente subconsciente (pré-consciente). Não canso de voltar à primeira tópica freudiana porque falar simplesmente em “subconsciente” (assim como parece estar na moda, atualmente) não permite distinguir entre a esfera pré-consciente, que, assim como a camada consciente do aparelho psíquico, é referente à representação da palavra, e o ID, ou inconsciente profundo, que é inerente à representação da coisa. Existem outras características do ID (inconsciente), quais elas: atemporalidade, deslocamento, condensação e fragmentação, mas principalmente o princípio do prazer, que rege o seu funcionamento (do ID). E deve-se considerar também o seu logos, tão distinto daquele racional, que é pautado pela causalidade (causa e efeito), e é peculiar da esfera consciente.
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Chegamos, pois, ao terceiro fator responsável pela criação e sustentação de crenças limitantes. Permaneçamos no âmbito da teoria freudiana para verificarmos, por meio da segunda tópica (a qual não é antagónica à primeira, e sim, complementar à mesma), que o enfraquecimento do ego e, por outro lado, a hipertrofria psíquica do Superego, podem ser responsáveis pela criação e alimentação (fixação, fomento) de crenças limitantes, principalmente aquelas ligadas ao sentimento de culpa e/ou à excessiva cobrança para consigo mesmo/a. A esse respeito, é preciso voltar à segunda tópica e frisar algumas das características do superego, assim como também, das outras duas instâncias que compõem o aparelho psíquico.
De antemão, é necessário realçar que o ego e o superego perpassam as três camadas (Ics, Pcs e Cs, ou seja: inconsciente, pré-consciente e consciente), enquanto o ID é exclusivamente inconsciente. Assim como é teorizado por Freud na segunda tópica, contida em “O Ego e o ID” (1923), o ser humano vem ao mundo completamente ID, isto é, totalmente tomado pela instância inconsciente. O recém-nascido, de fato, não consegue distinguir a si mesmo da mamãe, e com ela, inconscientemente, forma uma única entidade. A individuação, porquanto embrionária, começa aproximadamente de seis meses a um ano, sendo nesse momento que, em plena fase oral, o bebê começa a ter consciência de si enquanto ser separado da mãe, e com Lacan, vemos que o aprende, justamente, a partir desse outro que é mamãe. Trata-se da teoria do espelho.