Eu não queria olhar para ele e quem era eu para falar de limpeza após aquela bagunça hoje de manhã. Fui para perto do forno de cabeça baixa, olhar naqueles olhos frios seria horrível agora, pois sim aquele olhar concentrado havia voltado, por mais calmo que ele estivesse. Por que não podíamos simplesmente pegar a estrada e ir embora?
— Tu estás bem? — Fiz que sim com a cabeça — Talvez essa noite - ele fez uma pausa - estive pensando, talvez fiquemos aqui, caso não estejas bem — levantei um pouco os olhos e vi os dele, aquilo era preocupação? Eu acho que não.
— Podemos seguir — disse por fim.
— Está tudo bem em ficarmos, garota.
— Eu não quero ficar aqui! - eu acabei gritando com ele e logo depois me encolhi.
— Porque estás tão brava? Certo fizeste a tua escolha! - agora quem estava bravo era ele.
Ele parecia irritado, pensando em mim? Preocupado? Claro que não, ele só queria aquilo novamente de mim, comemos e eu fui para o quarto sem falar com ele e nem o olhar, ia pegar as minhas coisas, eu estava de costas para ele já entrando no quarto, quando escutei ele batendo na mesa, levantando e vindo atrás de mim, fiquei com medo de apanhar outra vez então empurrei a porta, a qual ele fácilmente empurrou e abriu.
— Vais ficar agindo assim mesmo!? – eu não o respondi — Pare de não me responder! - ele elevou a voz.
Ele me pegou pelo braço e me fez o olhar, eu estava chorando e ele fez uma expressão de surpresa, depois ficou frio novamente.
— Era disso que eu estava falando! Tu estás passando por mudanças! Talvez queira um tempo para ficar sozinha, eu sei bem o que pensou quando pedi para ficarmos aqui mais um dia! – ele deu um longo suspiro. — Eu não posso prometer me controlar, mas o que quer que eu faça? - Ele queria me tocar outra vez e eu não sabia como lidar com os desejos de um homem feito. Ele definitivamente não entendia, mas eu não sabia como enfrentá-lo, ele ficou bem na frente da porta e eu estava já dentro do quarto, não teria como sair dali a menos que ele saísse da frente.
— Eu só... – Comecei — Você não me machucou, eu só... não analisei tudo ainda, estou confusa…- estava a beira do choro, que agora era algo recorrente.
— Com o que?! - Ele disse alto e irritado.
— Você... você é horrível – eu comecei a chorar muito mesmo — Como posso ter querido isso tanto quanto você? – ele suspirou, levantou um pouco o rosto e disse:
— Tu gostaste afinal? Mesmo não gostando de mim? - porque ele tinha que tocar nessa ferida, ele queria me expor completamente.
— Eu não gosto das tuas atitudes! Como quer que eu goste? - eu disse apenas.
Eu não consegui dizer que não gostava dele, afinal ele ficou na minha cabeça desde minha juventude, e por mais que eu não quisesse admitir, sempre pensei em como seria encontrar ele novamente e depois do beijo que ele me deu antes de ir embora pela última vez, abriu portas para outros pensamentos...
- Escuta, vamos ficar aqui, o cavalo precisa descansar mais também, e quanto a ti, é melhor parar de agir como uma garotinha mimada que és! Eu estou sendo gentil, mas tu sabes que posso não o ser, e quanto a te tocar de novo, como pensas em me impedir? - Eu me afastei e chorei, ele tinha razão, eu não iria conseguir o impedir e de fato ele estava sendo gentil. - Não ques me forçar a ser rude contigo certo?
Conforme ele ia falando eu ia me afastando dele a cada palavra, eu estava com medo, ele estava me tratando como um objeto, ou não sei, eu não podia ficar o irritando, ele já havia provado que podia fazer algo contra mim, e o que eu estava esperando de um assassino a sangue frio, com certeza ele não era o tipo de pessoa que valorizava a vida de outras pessoas.
-Eu queria lhe… lhe perguntar algo - disse com a voz quase sumindo enquanto gaguejava - Qual o seu nome?
— Não te falaram quem sou? – isso era algo a se pensar, na minha família sempre fora praticamente proibido falar sobre ele, sua origem e também o seu nome, me pareceria até divertido lembrar a forma como minha mãe e avó o chamava, claro se não fossem as circunstâncias, ele prosseguiu.
— Me chamo Estevan Vincenzo Ruvick, o filho mais velho do Rei, vais mesmo querer que eu acredite que não sabias quem eu era?
Então esse era o seu nome, finalmente eu podia sabê-lo, ele ficou quieto após isso, na verdade permanecemos quietos, mas parando para analisar os pontos, sim, ele era o filho mais velho do Rei, o que não era herdeiro do trono e não foi prometido a ninguém, se não fossem as confusões de meu pai, eu teria casado com o irmão dele Thomas, que agora já sabíamos, estava morto a três anos.
Esse homem devia estar com quantos anos agora? Ele era dez anos mais velho que eu, se eu tenho 17 ele deve ter 27 anos, nem era tão mais velho do que eu, porque as pessoas o odiavam tanto e porque ele não teve honrarias de príncipe? Eu não fazia ideia, mas também não perguntaria a ele.
- Aposto que te falaram sobre o bastardo que sou, filho da camponesa estuprada não é!? - eu me encolhi, ele estava praguejando de forma assustadora agora.
- Na-não Es-estevan, sempre fui proibida de perguntar sobre tu, eu, eu não sabia de nada… - eu me sentei na cama e me encolhi no canto de medo, quando ele percebeu que eu falava a verdade, pareceu se acalmar.
- Tanto faz não é da sua conta! - disse ele saindo do quarto e me deixando sozinha.
Fiquei ali com meus pensamentos, me preparando para dormir, tentei ficar o mais confortável possível, mas eu ainda sentia dores na minha região íntima, acho que Estevan era um pouco grande para mim, e o ter dentro de mim também foi desconfortável, mas eu não podia falar sobre isso com ele, seria muito vergonhoso.
Por algum motivo ele estava demorando para vir se deitar, imaginei que ele não estivesse cansado, já que ele parecia estar acostumado a não dormir muito, mas então ouvi um barulho, e soube que era ele se aproximando no escuro, ele esbarrou na porta e cambaleou até a cama, logo senti o cheiro de bebida vindo dele, talvez isso o ajudasse a dormir mais rápido hoje de noite, talvez assim ele não iria me importunar.
- Mirian, me ajude a se despir. - ele disse com a voz enrolada, eu fui ajudar ele, e é claro que nunca fiz esse tipo de serviço antes, mas não queria lidar com a raiva dele enquanto ele estava bêbado.
Assim que o ajudei com as botas e com as roupas pesadas, logo ele foi tirando a camisa também e depois suas calças, agora ele estava nu, e eu me afastei e fui para o meu canto na cama, pelo menos essa era de casal, pensando em seu estado dava para ver como os assuntos de família o afetava, ele disse que a mãe dele foi estuprada, talvez ele tivesse grande ressentimento pelo seu pai, o Rei, mas pensar em um príncipe tão rígido com a etiqueta de seu irmão como ele era, o ver nesse estado era lamentável, o assassino do próprio irmão, isso era o que todos diziam, para meu bem eu iria evitar esses assuntos até ser resgatada por meu pai.
Essa noite não foi diferente da nossa manhã, não demorou muito para ele vir me agarrar, ele me prensou de lado na cama e logo se enfiou para dentro de mim de forma errática e desesperada, eu me apoiei com as mãos na parede e o aguentei entre gemidos que nós dois demos, por fim ele se desfez mais um vez em mim e adormeceu, e eu fiquei ali, com meus sentimentos de inutilidade.