Eu tentei distrair a minha mente da criatura horripilante que vi antes, mas simplesmente não consegui, a imagem ficou impregnada na minha cabeça, e eu me arrepiava todo só de imaginar aqueles olhos vidrados em mim. Eu estava em choque.
— O que era aquela coisa? Ela vai nos caçar agora? Que coisa horripilante.
— Horripilante vai ser o que ele vai fazer com a gente se nos encontrar.
— O que quer dizer com isso? — perguntei atónito — Vocês não são todos “A morte”, isso não faz o menor sentido.
— Não tem que fazer sentido, i****a — Ela me cortou, séria.
Estava olhando em volta totalmente alarmada, em seguida ela bateu sua foice no chão e o cenário à minha volta mudou de novo, novamente ela olhou em volta como se procurasse alguma coisa, o que, claro, nessa altura eu já sabia o que era, e por fim ela relaxou.
— Pare de uma vez! — Falei parando frente à ela e sacudindo-lhe os ombros, ela olhou assustada pra mim como se isso a incomodasse, então afastei as minhas mãos dela — me explica o quê está acontecendo.
— Vou explicar pra você com a maior clareza e vê se presta atenção que não tenho tempo de repetir, precisamos cumprir logo sua missão para te tirar daqui. É o Seguinte, o Ceifador é um dos piores, se o ver fuja o mais rápido que puder. Pra eles, somos aberrações na linha do tempo, quando alguém morre, ou sua alma é coletada e guardada para a passagem para o céu ou tem passagem direto para o inferno. Sem tempo para dar chances para almas como a sua, ou sem tempo para anomalias como eu.
— O que quer dizer?
— Pra eles, sua alma seria ceifada exatamente no momento em que aparecesse nesse plano, porque é o equilíbrio entre tudo, uma pessoa morre, para que outra possa nascer. E dar uma segunda chance a almas como a sua é errado, você não deveria existir nesse plano e eu também não. — Ela passou a mão pelos cabelos, exasperada, observei que até com esse olhar de preocupada, esse olhar alarmada ela ficava bonita.
A forma ao qual ela enrugava a sobrancelha, ou arregalava e revirava os olhos, eu estava começando a reconhecer cada um desses detalhes nela, e eu sabia que estava ferrado. Quem presta tanta atenção na morte assim?
— Eu já estive no seu lugar, Carter. Eu tive que ceifar almas, eu tive que fazer tudo isso para conseguir minha passagem, mas eu... — a voz dela vacilou — eu não consegui. Eu desisti. Fui condenada a ficar nessa dimensão, ceifando almas e encaminhando-as porque minha alma se perdeu no vão, porém eu deveria ter feito isso em um curto período de tempo, ceifar para recompensar e meu tempo acabou, eu não devia mais estar aqui e por isso ele nos caça, caça almas como a minha. Eu sou uma anomalia nessa dimensão, eu não deveria estar aqui, Ceifeiros como ele que são designados a ceifar almas, porém ele nos dá nosso tempo, como eu dei a você, claro que não foi uma ordem minha, mas enfim, acho que você entendeu.
— Ele está atrás de você porque não deveria estar aqui. Existe o equilíbrio entre tudo, uma pessoa morrer para outra nascer, você morreu, porém sua alma não foi coletada, isso causa um desequilíbrio. Eu entendi.
— Até que você não é totalmente burro.
Ignorei o que ela disse
— Você vive, quer dizer, você... como eu digo isso? Você passa seu tempo aqui fugindo dele? Pra sempre?
— É como estou vivendo ultimamente. Quando morremos, recebemos uma chance assim como você de nos redimir de nossos pecados, temos um tempo, e eu falhei, ao falhar, eu fui condenada e desde então fico fugindo dos grandes Ceifadores pra não levar minha alma. Eu recebo as missões para ceifar vidas, era pra outra pessoa estar no meu lugar, fazendo isso, mas quando fugi, alterei a linha daqui. Se você falhar, Carter, vai ser condenado a ficar como eu fazendo isso pela eternidade até surgir outro alguém pra te substituir, ou até seu tempo acabar e eles quererem sua alma.
— É muito confuso pra mim — digo, finalmente.
Atingi minha cota de loucuras em um dia só, mas não é como se não tivesse entendido o que ela disse: ela falhou em sua missão quando estava na mesma situação que eu, e ao falhar ela foi condenada a ceifar vidas carregando o titulo de morte, e quando o ceifeiro reivindicou a alma dela, ela fugiu causando uma confusão na linha do tempo o que, obviamente os Ceifeiros não deixariam por isso mesmo.
Ela me encara e caminha até mim, colocando sua mão no meu ombro e desaparecemos, surgindo em um leito de hospital.
Olho em minha volta absorvendo tudo até entender o que está acontecendo, a encaro muito chocado, e uma coisa começa a mexer no meu estomago e acho que eu vou vomitar, mas não, foi só impresso mesmo.
— Não consigo fazer isso, é demais pra mim! — me retraio ela mais uma vez me fuzila com os olhos.
— Incrível com você não consegue fazer nada, não é? Não sei se entrou na sua cabeça, mas o tempo está passando, a não ser que queira acabar em uma situação pior que a minha é melhor você correr, Carter. Tique taque, o tempo está passando.
— É um bebê! Qual o seu problema? Você não sente nada? Não te incomoda?
— Já tivemos essa conversa. — Fala em tom de desdém.
Olho para a gravida na cama, e as enfermeiras com o bebê, sei que é a vida dele que devo ceifar porque sinto a energia dele muito baixa, diferente da mãe que tem muita vitalidade; não sei a partir de qual o passei a sentir isso, só sei que estou sentido.
Sinto enjoo mais uma vez apesar de saber que não vou realmente vomitar, eu estou morto e ainda não entendo como tudo funciona por aqui: olho para a mãe chorando, o bebê, as enfermeiras e entro em pânico e, então saio correndo dali.
— Não posso, não posso, não posso fazer isso. É uma criança.
— A vida não é justa com todo mundo.
— É sério que você não sente nada? — Esbravejo, nervoso — É um bebê, poxa.
— Eu não ei se você percebeu, mas estou morta. É minha missão lidar com essas coisas difíceis. Você tem pouco tempo, e a não ser que queira acabar igual eu, talvez numa situação pior, aconselho a finalizar sua missão.
— É demais pra mim!
Não percebi quando comecei, mas só sei que nesse momento estava chorando, se eu fizer isso aquela mãe iria ficar arrasada o resto da vida dela, talvez não conseguisse se recuperar nunca mais.
— Carter, a morte faz parte da vida, talvez você ache que entende tudo, mas não. Está no destino dela isso, algumas coisas precisam acontecer para abrir caminho para outras. Eu não gosto disso tanto quanto você, mas não temos escolhas. Toda ação existe uma reação. Se não fizermos isso, algo muito pior pode acontecer depois e espero que você comece a entender isso.
Estava prestes a dizer-lhe que não o faria e não me importava com as consequências (o que não era totalmente verdade por causa de Nancy), quando as luzes do lado de fora do quarto do hospital começaram a piscar sem parar e a Morte me encarou, assustada.
Ironia, a morte a assustada, em outra condição eu estaria rindo.
Ela me puxou pelo braço, quando virei e vi, bem no final do corredor um buraco se abrindo e surgindo ali, com um olhar terrível e as almas gritantes, o mesmo ceifador de antes, ele pareceu sorrir quando nos viu, mas sei que foi só impressão minha porque nada em seu rosto esquelético se moveu, em um piscar de olhos ele estava mais a frente, e depois mais ainda, nesse momento dona Morte me puxou e saímos correndo:
Ainda tive tempo de olhar para trás quando o vi, parar bem na porta do quarto da mãe e do bebê e ele estalar o dedo, no mesmo instante um grito ecoou pelo quarto e eu soube o que ele fez.
Nos teletransportamos, mas eu sabia que não estamos a salvos ainda, sentia a criatura próxima e, Morte sumia e aparecia nos lugares tão rápido quanto eu conseguia piscar.
Então fechei os olhos enquanto era puxado entre as dimensões e imaginei o jardim que costumava ir na infância onde me sentia seguro.
E por incrível que pareça, quando abri os olhos, é exatamente onde estava.
O jardim ficava no fundo da casa onde eu morava na infância, era muito bem cuidado, muito verde com muitas flores, borboletas, e pássaros voando o dia todo, eu sempre ia ali para deitar de barriga pra cima e inspirar o ar, relaxar,
Eu sempre me sentia bem depois de fazer isso, era tipo um estado de meditação que relaxa a mente, e agora, aqui de volta, essa calmaria começa a me inundar e não sinto mais medo.
Morte olha para os lados, confusa, ainda com suas mãos na minha, e como se adivinhando meus pensamentos ela me solta muito rápido.
— Mas o quê... como? — perguntou, confusa e eu sorri, sem graça.
— Não sei, só sei que imaginei esse lugar e de repente aparecemos aqui.
Aquele medo que eu estava sentindo do Ceifador desapareceu tão rápido quanto eu pareci aqui.
— Então você conhece aqui? Mas não é possível, eu não imaginei esse lugar.
Eu cocei a cabeça, confuso e fui me deitar no meio do gramado, olhando para o céu sem nenhuma nuvem.
— Não sei como funciona isso. Mas sei que conheço muito bem aqui, deve ser porque você estava segurando minha mão e nossos pensamentos se conectaram. Algo assim.
Ela parece relaxar mesmo com o olhar sério estampado em seu rosto.
— Quando eu era criança, vinha muito aqui para relaxar e pensar, me ajudava a sentir bem. Naquela época eu já sabia que queria ajudar as pessoas, mas não sabia como. Era só um menino sonhador com muitos pensamentos.
Ela não diz nada enquanto permanece ao meu lado, e não espero que diga mesmo.
— Eu queria ajudar as crianças como eu, queria que não se sentissem sozinhas como me senti boa parte da minha vida, e quando cresci queria continuar ajudando a população. Queria fazer a diferença na vida das pessoas.
— Bom, você fez. Mesmo que não tenha usado o jeito tradicional de ajudar — ela me olha — com isso quero dizer sem burlar regras importantes, você mesmo assim ajudou muitas pessoas e transformou muitas vidas. Sua amiga, aguentou firme muito tempo por causa do seu carisma, você sempre esteve ao lado dela apoiando-a.
Olho para ela muito confuso
— Como sabe de todas essas coisas?
— Sou a Morte. Tenho informações de todas as pessoas que ceifo vidas ou que preciso ceifar.
— Faz sentido!
— O ponto é: às vezes estamos tão focados querendo fazer grandes coisas, que não percebemos que os pequenos atos podem mudar a vida de alguém.
Fico em silencio observando-o com essas palavras que me atingem. A vida toda achei que precisava fazer grandes coisas para mudar o mundo e nunca dei valor aos pequenos atos, mesmo os praticando, mas agora, olhando para trás vejo o quão isso é verdade.
Eu posso não ter, sei lá, achado a cura do câncer, mas ajudei instituições, apoiei meus amigos em seus sonhos e quando fracassavam, ajudei velhinhos a atravessar a rua, dei comida aos animais, brincava com crianças lia história para elas, incentiva as pessoas a darem o melhor de si e não se calar, ir atrás do que mereciam ter. Posso não ter sido a melhor pessoa ou a mais conhecida, mas quando vivi, fiz tudo que estava ao meu alcance para ajudar outras pessoas. E tudo foram gestos simples.
Agora, por exemplo, só consigo pensar em Nancy, se eu não posso voltar a minha vida, Nancy pelo menos merece uma chance, ela é uma garota incrível e não merece morrer daquele jeito. Se eu posso ajuda-la, é o que farei porque pelo menos assim, quando ela voltar a vida, sei que fará diferença na vida de muitas pessoas.
Posso não aceitar e pode não ser fácil ceifar essas vidas, nunca vou aceitar numa boa, mas sei que faz parte da vida, sei que a Morte jamais colocaria no meu caminho alguém que não estivesse em sua hora.
— Ótimo. Parece que chegamos a um ponto — ela levanta, encarando lugar nenhum e estende sua mão em minha direção — Você perdeu dois dias até agora e tem que ceifar duas almas. Já tenho sua missão.
Levanto e concordo com a cabeça, seguindo-a mais uma vez entre as dimensões.
Ela não precisa me explicar a situação porque entendo assim quando chegamos: estamos em uma casa muito chique que direto via na televisão quando se tratava de reuniões dos deputados. No entanto hoje está fechado — o que não nos impede de entrar, claro — e tem cerca de uns dois carros parados na entrada.
Quando chegamos na sala, há cerca de uns cinco homens em volta de uma mesa conversando, reconheço uns dois políticos da teve que muitas vezes vazei informações de corrupções. Morte não diz nada, apenas fica parada observando a cena, com sua foice na mão que estende em minha direção.
Um deputado sai e ela o segue, vou atrás para entender cena e então vejo o desenrolar: o deputado muito corrupto sai fechando a porta atrás de si, quando da de cara com uma empregada que sorri nervosa, desculpando-se, ele sorri de volta e desculpa-se também, pedindo-lhe que lhe entregue a bandeja que ele mesmo leva.
A mulher olha pra ele confusa e ele explica que só saiu pra tomar ar e já estava voltando, a mulher cede e ele fica com a bandeja quando ele sai, então o vejo misturar alguma coisa em duas taças e volta.
Nesse momento eu entendo, ele vai envenenar aquelas pessoas, e é exatamente o que acontece.
Ele entra na sala depositando a bandeja em cima da mesa, e direciona uma taça a um homem que aceita com uma cara ranzinza, então outro homem bate em seu ombro chamando sua atenção, o de trás pega um sem esperar ser servido e o outro vira assustado olhando a bandeja e já perdido com as taças.
No final, o que tentou envenenar os caras, foi envenenado e o homem ranzinza também.
— Esse é o famoso “o feitiço virou contra o feiticeiro”, nunca faça com alguém o que não quer que aconteça com você.
Então, mirei a foice em direção aos dois homens e ceifei suas vidas, recuperando em uma tacada só os dois dias que havia perdido.
Ceifar alguém corrupto e assassino é muito mais fácil do que ceifar alguém inocente, o que mesmo assim mão torna as coisas fáceis.