Capítulo 3

1321 Palavras
Dália Os ventos gélidos da manhã sopravam pela estrada enquanto seguimos em direção à casa que meus pais haviam comprado. Ficar em uma estalagem, mesmo que temporariamente, não era o suficiente para a nossa família. Precisávamos de um local afastado da cidade, onde pudéssemos treinar sem chamar a atenção e, mais importante, ficar longe da pressão constante de quem quer que fosse. Eu sabia que essa mudança era estratégica, mas também sentia o peso da decisão. A cidade estava cheia de vampiros, lobisomens, e outros seres sobrenaturais, e sabia que seria apenas uma questão de tempo até que viessem nos testar, ou pior, tentar nos destruir. Quando finalmente chegamos à casa, ela estava localizada à margem da floresta, longe das grandes construções da cidade, mas perto o suficiente para podermos vigiar a área ao nosso redor. A casa era simples, mas tinha o espaço necessário para que pudéssemos viver e treinar em paz. A varanda de madeira rangia à medida que meu pai descia da carruagem, com um olhar calculista, enquanto minha mãe examinava a casa com uma expressão séria, procurando qualquer sinal de ameaça. "Este será o nosso refúgio, por enquanto", disse meu pai, ainda observando a floresta à nossa frente com desconfiança. "Aqui, podemos treinar e nos preparar sem sermos interrompidos. Mas não podemos baixar a guarda." Ele estava certo. A floresta ao redor da casa parecia tranquila, mas eu sabia que lá fora havia criaturas que não descansavam, criaturas como lobisomens que poderiam se aproximar em busca de um desafio. O cheiro da madeira e da terra úmida me dava uma sensação de paz, mas eu não podia relaxar. Quando vivíamos em um lugar como esse, a paz era um luxo que não podíamos nos dar. "Vamos começar a preparar o lugar", minha mãe disse enquanto passava a mão pelos cabelos. "Preciso garantir que cada canto esteja seguro para vocês." Meu irmão mais velho, Kieran, já estava começando a montar os equipamentos de caça no canto da sala, e eu sabia que ele estava tão ansioso quanto eu para começar a treinar. O treino sempre fora uma parte importante da nossa vida, mas agora, mais do que nunca, precisávamos estar prontos para qualquer coisa. Naquela noite, enquanto o crepitar da lareira quebrava o silêncio da casa, fomos interrompidos por um som vindo da floresta. Algo estava se aproximando, e eu não precisava ser uma caçadora experiente para perceber que não era um simples animal. A tensão tomou conta de mim imediatamente, e todos nós paramos o que estávamos fazendo, atentos ao som. "Alguém se aproxima", meu pai murmurou, seu olhar afiando-se enquanto ele se levantava da cadeira. "Preparem-se." Eu sabia que meu pai sempre tomava a liderança quando algo ameaçador se aproximava, e era hora de ele proteger nossa família. A porta da casa rangeu quando meu pai foi até ela e a abriu com cuidado. No instante em que ele fez isso, uma figura alta e magra apareceu à porta, seguida por duas outras. "Alaric, é um prazer vê-lo novamente", disse a voz fria e suave de um vampiro, com um sorriso que exibia presas afiadas. A figura diante de nós tinha cabelos escuros como a noite e olhos vermelhos, mas seu sorriso era tudo, menos amigável. Ele se apresentou como Viktor. "Viktor", meu pai respondeu com um tom de voz controlado, embora a tensão fosse clara. "O que faz você e seus amigos aqui?" "Ah, só viemos dar as boas-vindas à sua família", Viktor respondeu, seu olhar travando no meu pai por um instante. "Soube que vocês chegaram à cidade, e eu não poderia deixar de vir cumprimentá-los pessoalmente. A cidade sempre gosta de saber quem está em seus arredores." Eu podia sentir a frieza na sua voz, e não era apenas a temperatura que me fazia arrepiar. Algo estava errado. Havia uma ameaça latente nas palavras dele, um aviso de que, se fosse necessário, ele e os outros vampiros se livrariam de nós sem hesitar. "Entendo", meu pai disse com um sorriso curto, mas sua voz não escondia a raiva. "Somos apenas caçadores, Viktor. Não estamos aqui para arranjar problemas." "Claro, claro", Viktor disse com um movimento despreocupado da mão, como se estivesse se livrando de um incômodo. "Mas como você sabe, a cidade tem suas regras. Não gostaríamos que ninguém as quebrasse. E também sabemos que os caçadores podem ser... problemáticos, se não forem cuidadosos." A pressão no ar aumentou. Sabia o que isso significava. Não precisávamos de mais palavras para entender a ameaça implícita: se eles sentissem que nossa presença fosse uma ameaça, não hesitariam em nos eliminar. Meus instintos de caçadora se aguçaram, e senti meu corpo se preparar para um possível ataque, mas meu pai não se moveu. Ele estava controlando a raiva. "Eu tenho cuidado, Viktor", meu pai disse, seus olhos firmes e frios. "Se algum de vocês tentar causar danos a inocentes, ou ameaçar a paz, eu não hesitarei em agir. Esse não é o meu primeiro enfrentamento com vampiros." Viktor sorriu, mas dessa vez o sorriso não chegou aos seus olhos. Ele deu um passo à frente, mas não de uma forma ameaçadora. Era uma jogada calculada. "A cidade tem suas regras, Alaric", Viktor disse, a voz suave, mas cheia de veneno. "Não matamos inocentes, por enquanto. Todos têm um papel aqui. Os humanos, como sempre, são nossos recursos. E o mundo, como você bem sabe, não é mais só dos humanos. Nós evoluímos. Você terá que se acostumar com isso." Havia um toque de ironia em suas palavras. Eles se viam como superiores, como se a vida humana fosse algo descartável, mas, ao mesmo tempo, controlado e manipulado para seu próprio benefício. A arrogância deles era palpável, mas meu pai, mais uma vez, se manteve calmo. "Eu já vi o que acontece quando seres como você se sentem superiores", meu pai disse, sua voz baixa e carregada de um ódio silencioso. "Eu sei o que são capazes de fazer. Não se enganem achando que eu vou permitir que sua cidade se torne um lugar onde seres humanos sejam usados como mercadoria. Qualquer coisa que se mova contra os inocentes, seja vampiro ou lobisomem, será exterminado. E não importa quem seja." A tensão na sala estava prestes a explodir. Eu sabia que meu pai estava se controlando, mas sua raiva era visível. Viktor olhou para ele, e, por um breve momento, parecia que ele poderia reagir. Mas, para minha surpresa, ele deu um passo para trás e fez um gesto de rendição. "Não se preocupe, Alaric", Viktor disse com um sorriso que parecia mais uma máscara. "Nós não vamos causar problemas, por enquanto. Apenas... tenha cuidado. A cidade está cheia de olhos." Antes que meu pai pudesse responder, Viktor e os outros vampiros se afastaram lentamente, desaparecendo na escuridão da noite. A porta se fechou com um estalo, e o silêncio voltou a tomar conta da casa. "Malditos", meu pai murmurou, seus punhos cerrados, mas ele não disse mais nada. Sabia que começar uma guerra ali seria um erro fatal. A cidade estava cheia de vampiros, e um ataque direto significaria nossa morte. Mas eu vi o olhar de meu pai. Ele estava furioso, e eu sabia que, se algo acontecesse, ele não hesitaria em proteger nossa família. Kieran foi o primeiro a quebrar o silêncio. "Eles nos observarão, pai. Não há como evitar. Temos que estar preparados." "Estamos sempre preparados", meu pai disse, olhando fixamente para a porta. "E, se algum ser sobrenatural tentar machucar um inocente, farei o que for necessário para impedi-los." Eu sabia que ele estava falando sério. Apesar de sua calma exterior, meu pai nunca deixaria algo como isso passar impune. Se algum vampiro ou lobisomem matasse um ser humano em nossa presença, ele não hesitaria em lutar. E, mesmo sabendo que não éramos os únicos caçadores na cidade, eu não tinha dúvidas de que ele faria qualquer coisa para proteger os inocentes.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR