Capítulo 4

1260 Palavras
Dália Eu não conseguia dormir. Mesmo com o silêncio da noite envolvendo a casa e o crepitar suave da lareira no andar de baixo, minha mente continuava agitada. A visita de Viktor ainda pairava sobre mim como uma sombra pesada. Não era só o fato de um vampiro ter vindo até nós de forma tão direta e, ao mesmo tempo, dissimulada — era o fato de que meu pai parecia conhecê-lo. E isso me incomodava. Permaneci deitada na cama por um tempo, observando as sombras das árvores projetadas na parede pelo luar. A madeira da casa rangia levemente com o vento, criando uma melodia desconfortável. Eu finalmente me levantei e desci as escadas, movendo-me em silêncio para não acordar ninguém. Quando cheguei à sala, encontrei meu pai sentado na cadeira de frente para a lareira, o brilho das chamas refletindo em seus olhos duros e pensativos. "Pai." Ele desviou os olhos do fogo e me encarou. Não parecia surpreso em me ver ali. "Você deveria estar dormindo." "Eu poderia dizer o mesmo para você." Meu pai soltou um suspiro pesado, mas seu rosto permaneceu imóvel, uma máscara de contenção. Caminhei até o sofá em frente a ele e me sentei, cruzando os braços sobre o peito. Ele continuou me encarando, como se soubesse exatamente o que eu estava prestes a perguntar. "Você conhece Viktor", eu disse, sem rodeios. O olhar de meu pai ficou ainda mais sombrio, e ele desviou os olhos para o fogo por um momento. "Sim." "Há quanto tempo?" Ele ficou em silêncio, o som das chamas preenchendo o espaço entre nós. Então, ele respirou fundo antes de responder: "Anos. Desde antes de você nascer." "Você já lutou contra ele?" "Sim." A resposta foi curta, direta, mas carregada de um peso que me fez sentir um calafrio na espinha. "Então por que ele ainda está vivo?" Os olhos de meu pai brilharam sob a luz da lareira, e uma tensão visível apareceu em sua mandíbula. "Porque eu não consegui matá-lo." Minha mente começou a trabalhar rápido, conectando os pontos. Viktor não era um vampiro comum. Se meu pai, um dos caçadores mais habilidosos que eu conhecia, não conseguiu matá-lo, isso significava que Viktor era poderoso — muito mais do que ele havia deixado transparecer durante aquela conversa casual. "Ele te venceu?" "Não exatamente." A voz de meu pai ficou mais baixa. "Viktor é estrategista. Ele nunca entra em uma luta sem ter certeza de que tem a vantagem. Nós lutamos, mas ele recuou antes que eu pudesse finalizar o combate. Foi como se ele soubesse que eu não conseguiria vencer. Ou talvez... como se ele não quisesse me matar." Eu senti um aperto no peito. Viktor tinha o poder para m***r meu pai e não o fez. Isso significava que ele tinha outros planos. "O que ele quer de nós agora?" "Viktor não faz nada sem um propósito. Ele está nos observando, esperando para ver se seremos uma ameaça. Ou se podemos ser úteis." A ideia de sermos manipulados por um vampiro tão calculista me fez cerrar os punhos. Eu queria enfrentar Viktor diretamente, mas sabia que meu pai não permitiria isso. "Se ele tentar alguma coisa..." "Se ele tentar alguma coisa, eu o matarei." Meu pai disse isso com tanta frieza e certeza que eu quase acreditei que ele realmente conseguiria. Eu fiquei em silêncio por um tempo, tentando absorver o que ele tinha acabado de me contar. Finalmente, me levantei. "Vou ajudar Kieran a preparar algumas coisas amanhã. Precisamos reforçar a segurança da casa." Meu pai apenas assentiu, e quando eu estava prestes a subir as escadas, ele disse: "Dália." Me virei. "Se Viktor se aproximar de você ou tentar fazer contato, não confie nele. Ele sempre quer algo em troca." Eu assenti e subi as escadas, sabendo que aquela não seria a última vez que Viktor cruzaria o nosso caminho. Na manhã seguinte, o céu estava encoberto por nuvens cinzentas, e o frio parecia mais intenso do que no dia anterior. Kieran e eu nos preparamos para ir até a cidade e abastecer a casa com comida e outros suprimentos. A caminhada não era longa, mas o peso da presença dos vampiros e lobisomens na cidade tornava o ar mais denso. "Você está quieta", Kieran comentou enquanto descíamos a trilha que levava até a cidade. Ele carregava uma bolsa de couro sobre o ombro, os olhos atentos ao caminho. "Estava pensando sobre o Viktor." "Eu também." "Você acha que ele vai tentar alguma coisa?" Kieran sorriu de lado. "É claro que vai. Mas ele vai esperar o momento certo. Vampiros são pacientes." Eu franzi o cenho, incomodada com essa ideia. Ser paciente nunca foi o meu forte, e o pensamento de Viktor nos observando como se fôssemos peças em um jogo me deixava inquieta. Quando finalmente chegamos à cidade, o contraste entre a floresta e as ruas de paralelepípedo era gritante. As construções de pedra e madeira eram antigas, com detalhes góticos que reforçavam a presença sombria dos vampiros naquela região. Os humanos que andavam pelas ruas mantinham o olhar baixo, submissos. Eu sabia que eles eram empregados — ou escravos. Eles viviam sob as regras dos vampiros, e isso era um fato difícil de engolir. "Vamos fazer isso rápido", Kieran murmurou enquanto passávamos por uma fileira de lojas. Entramos em uma mercearia modesta, e o cheiro de pão fresco e ervas secas nos envolveu. O dono da loja — um homem magro e de cabelos grisalhos — nos observou de maneira cautelosa. Quando começamos a pegar os mantimentos, ele se aproximou. "Vocês são... os caçadores, não são?" Eu olhei diretamente para ele. "Sim." Ele pareceu hesitar, então abaixou o tom de voz. "Só... tenham cuidado. A cidade pode parecer tranquila, mas os vampiros e lobisomens têm suas próprias leis." "Já percebemos isso", Kieran respondeu, colocando um saco de farinha na bolsa. O homem ficou em silêncio por um momento, então finalmente disse: "Se precisar de algo... ou de ajuda... procure por mim. Meu nome é Samuel." Eu assenti, surpresa com a oferta. Kieran me lançou um olhar desconfiado, mas não disse nada enquanto terminávamos de pegar o que precisávamos. Quando saímos da loja, eu notei duas figuras sombrias na esquina da rua. Vampiros. Eles não fizeram nada além de nos observar enquanto caminhávamos de volta para casa. "Estão nos vigiando", Kieran murmurou. "Eu sei." "Você acha que Viktor os enviou?" "Com certeza." Nós seguimos em silêncio pela rua, passando por mais alguns humanos que pareciam nos evitar. Quando já estávamos nos afastando da cidade, senti um calafrio na espinha. "Kieran." "Eu sei", ele respondeu de imediato. Nós nos viramos ao mesmo tempo. As duas figuras que nos seguiam estavam mais próximas agora. Um dos vampiros — um homem alto, de cabelo loiro e olhos vermelhos — sorriu. "É um prazer conhecer os caçadores." Eu senti meu corpo se preparar para o ataque, mas Kieran colocou a mão em meu braço. "Deixem-nos em paz", Kieran disse, sua voz fria. "Nós só queríamos desejar boa sorte em Grimvale", o vampiro respondeu, com um sorriso que não tinha nenhum traço de simpatia. "Vocês vão precisar." Eles se afastaram, e Kieran soltou meu braço. "Isso foi um aviso", eu disse. "Foi um teste", Kieran corrigiu. "Eles querem ver o que somos capazes de fazer." "Então que venham." Eu olhei para a floresta à nossa frente, sentindo a adrenalina crescer. "Eu não tenho medo deles." Kieran sorriu de lado. "Nem eu." Nós nos entreolhamos e seguimos em frente, sabendo que aquele foi apenas o primeiro de muitos confrontos.
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