Capítulo 5

1079 Palavras
Dália Eu estava sentada na sala, observando o fogo crepitar na lareira, enquanto minha mãe preparava um chá de ervas na cozinha. Meu pai e Kieran haviam saído cedo para caçar — provavelmente um cervo ou um javali para abastecer nossa despensa. Eu sabia que eles levariam horas para voltar, o que significava que eu e minha mãe teríamos um tempo raro de tranquilidade. Minha mãe voltou com a xícara fumegante e se sentou ao meu lado. Eu percebi que ela estava mais pálida do que o normal, o que me fez franzir o cenho. "Você está bem, mãe?" Ela sorriu suavemente. "Só um pouco cansada, querida. Deve ser o clima." Eu não acreditei muito nisso, mas não insisti. Nós ficamos em silêncio por alguns minutos, o calor da lareira trazendo um pouco de conforto. Mas então, algo mudou. O rosto da minha mãe ficou ainda mais pálido e seus lábios tremeram. "Mãe?" Ela soltou a xícara, que caiu no chão e se quebrou em pedaços. Eu me levantei rapidamente, mas antes que pudesse segurá-la, ela começou a desfalecer. "Mãe!" Eu a segurei nos braços antes que ela caísse. O corpo dela estava frio, e a respiração ficou curta e irregular. "Pelo inferno..." Eu tentei acordá-la, sacudindo-a de leve. "Mãe, por favor, fique comigo!" Ela não respondeu. Minha mente entrou em pânico. Meu pai e Kieran não estavam aqui — e eu não sabia o que fazer. Eu precisava de ajuda. Sem pensar muito, eu me levantei e coloquei minha mãe deitada no sofá, ajeitando uma almofada sob sua cabeça. Corri até a porta, abri-a com força e saí para o frio cortante. Eu precisava encontrar um médico. As ruas da cidade estavam silenciosas e sombrias, cobertas por uma neblina fina que tornava tudo mais difícil de enxergar. Eu corri pelos paralelepípedos, o som dos meus passos ecoando no vazio. "Preciso de ajuda!" gritei para algumas pessoas que passavam na rua. Elas desviaram o olhar, ignorando-me como se eu fosse invisível. "Por favor! Minha mãe está desmaiada! Preciso de um médico!" Nada. Ninguém se aproximava. Os humanos que me cercavam andavam cabisbaixos, submissos, como se tivessem medo de até mesmo se aproximar de mim. Eu senti um ódio subir na garganta. Esses humanos domesticados por vampiros não tinham mais vontade própria. Eles pareciam cães treinados, obedecendo apenas ao comando de seus mestres. "Covardes!" gritei, frustrada. "Vocês vão me deixar aqui enquanto minha mãe morre?!" Eu estava prestes a desistir, sentindo a impotência me consumir, quando uma mão tocou suavemente o meu ombro. Eu congelei. Eu não tinha sentido essa pessoa se aproximar — nenhum som de passos, nenhuma presença. Virei-me rapidamente e dei de cara com um homem alto, de cabelos pretos ondulados e olhos vermelhos. Ele era pálido, com feições afiadas e um sorriso discreto nos lábios. Parecia jovem, mas com vampiros, era impossível dizer a idade verdadeira. "Precisa de ajuda?" ele perguntou, a voz baixa e suave, mas carregada de um tom perigoso. Eu fiquei imóvel por um momento, meu coração batendo forte. Ele não parecia agressivo, mas eu sabia que vampiros raramente faziam algo sem motivo. "Preciso de um médico", respondi, a voz firme apesar do medo. Ele ergueu uma sobrancelha, o sorriso se ampliando um pouco. "Eu conheço um." "Você... conhece um médico?" Ele assentiu. "Venha." Eu hesitei por um momento, então o segui. Ele começou a caminhar pela cidade, entrando em uma parte mais isolada, onde os prédios eram mais escuros e o ar mais denso. Eu sabia que estávamos indo em direção ao território dos vampiros. "Você tem um nome?" perguntei, tentando manter o tom casual. "Lucien." Eu franzi o cenho. "Você parece com um vampiro ameaçador que apareceu na minha casa outro dia. Viktor, acho que era esse o nome." Lucien abriu um sorriso de canto. "Ah, é mesmo?" "Sim. Ele entrou sem ser convidado, agiu como se fosse o dono da cidade e ainda por cima tentou nos intimidar." Eu bufei. "Foi patético, na verdade." Lucien soltou uma risada baixa, os olhos brilhando com diversão. "Patético?" "Sim." "Interessante." Ele parou de andar e me encarou. "Viktor é meu pai." Eu congelei no lugar. "Você..." Eu senti o sangue fugir do meu rosto. "Ele... ele é seu pai?" Lucien assentiu, o sorriso ainda nos lábios. "Então... você está bravo por eu ter falado isso?" "Não." Ele inclinou a cabeça de lado. "Na verdade, foi divertido." Eu o encarei desconfiada. Ele estava claramente se divertindo com o meu desconforto, o que só me deixava mais irritada. "Você não parece muito leal a ele", comentei. "Digamos que minha relação com meu pai é... complicada." "Ótimo." Continuamos andando, e eu senti que ele me analisava o tempo todo. "Você é bonita", ele comentou de repente. Eu o encarei, desconfiada. "Você sempre flerta com pessoas que te insultam?" "É bom ter um pouco de entretenimento nesta cidade." Eu revirei os olhos. "Se isso for uma emboscada, faça isso outro dia. Eu preciso ajudar minha mãe." Lucien se aproximou um pouco, os olhos vermelhos fixando-se nos meus. "É logo ali." Eu segui o olhar dele até uma construção discreta na parte mais isolada da cidade. A porta de madeira tinha um símbolo antigo entalhado — um símbolo de cura. Lucien bateu na porta. Após alguns segundos, um homem de meia-idade com cabelos grisalhos e um jaleco abriu a porta. "Eu preciso de ajuda", eu disse imediatamente. O médico me avaliou dos pés à cabeça com uma expressão irritada. "Eu não atendo humanos que não são..." Ele parou ao olhar para Lucien. Os olhos do médico se arregalaram. "Senhor Lucien." "Ajude-a", Lucien ordenou, sem tirar os olhos de mim. O médico pareceu mudar de atitude imediatamente, abrindo a porta para que eu entrasse. Eu o segui, sentindo o peso da presença de Lucien atrás de mim. "Eu vou buscar alguns suprimentos e preparar o transporte", o médico disse. "Espere aqui." Lucien me acompanhou até a entrada, mas não entrou. Ele se encostou no batente da porta, as mãos nos bolsos. "Obrigada", eu disse. Ele ergueu uma sobrancelha. "Você foi o único vampiro que já quis realmente ajudar", completei. Lucien sorriu de lado, os olhos brilhando. "Aproveite isso enquanto durar." Eu senti um arrepio percorrer minha espinha com o tom casual e enigmático dele. Ele fez um sinal de despedida com a mão e se afastou, desaparecendo entre as sombras da cidade. Eu fiquei observando até ele sumir, sentindo que aquela não seria a última vez que nos encontraríamos.
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