Capítulo 20 – Os Limites do Ódio
Eu não sabia o que era, mas algo estava me consumindo. Uma sensação de aflição, de dor, parecia aumentar a cada passo que eu dava, como se algo estivesse apertando meu peito. Eu sabia que era Dália. Eu podia sentir a tensão dela, o desconforto, como se as emoções dela estivessem se misturando com as minhas. A ligação que compartilhávamos, o sangue, a conexão, tudo estava afetando meu julgamento de uma forma que eu nunca imaginei.
Não consegui suportar. Precisava ver Dália, precisava estar perto dela, para entender o que estava acontecendo e garantir que ela não fosse destruída pela pressão que sua família colocava sobre ela.
A noite estava calma, e a mansão onde ela morava se erguia à distância, com as luzes suaves de dentro refletindo na escuridão. Eu me aproximei, sabendo que ela provavelmente estava em algum lugar da casa, sendo pressionada mais uma vez pelos seus pais. A aflição que eu sentia dela parecia estar se tornando mais insuportável, e o peso da dúvida que pairava sobre ela estava me atingindo em cheio.
Eu usei minha audição sobrenatural, sabendo que ninguém dentro da casa poderia me ouvir, e me concentrei nas vozes que vinham de dentro. Era difícil não me sentir tomado pelo ódio enquanto ouvia a conversa.
— Eu não posso mais continuar ignorando o que Fenrir me disse! — A voz de Dália estava tensa, angustiada. Eu podia sentir sua frustração, como se ela estivesse tentando entender algo muito maior do que ela. — Como é possível que vocês nunca tenham me contado a verdade?
A voz de seu pai, Aleric, entrou logo em seguida, com aquela calma fria e controladora que eu conhecia bem.
— Dália, você precisa entender que não é sobre você ser especial ou não. O que você tem, o que carrega, é o que atrai essas criaturas. Não podemos negar que você é uma das poucas que pode carregar uma gestação sobrenatural. E é isso que eles querem. Não é sobre quem você é.
Eu senti um ódio instantâneo se formando dentro de mim. Era óbvio que Aleric estava tratando Dália como um simples objeto, uma ferramenta. Ele não a via como uma pessoa, como a mulher incrível que ela era, mas como algo que poderia ser usado para criar descendentes sobrenaturais. E seus pais… eu percebia agora que eles estavam manipulando tudo isso, forçando-a a acreditar que seu valor estava em sua capacidade de carregar filhos de vampiros e lobisomens, e não em quem ela realmente era.
O estômago se revirou com essa revelação.
Eu me aproximei da janela, sem fazer barulho, e observei com mais atenção. Dália estava parada ali, seus olhos marejados, e eu sentia que ela estava sendo esmagada pela pressão, tentando manter a calma, mas sem saber o que fazer. Sua mãe, Saphira, observava com uma expressão controlada, mas eu podia ver a preocupação dela, ainda que mascarada pela rigidez que sua posição exigia.
— Eu não sou uma incubadora! — A voz de Dália se ergueu com raiva, mas havia uma dor que não consegui esconder. — Eu sou uma pessoa! Eu não sou apenas uma ferramenta para seres sobrenaturais!
Eu senti meu corpo se tensionando. Eu queria invadir aquele lugar, esmagar aquela família e garantir que Dália nunca mais fosse manipulada assim, mas eu sabia que não podia. Se eu fizesse isso, se eu agisse por impulso, Dália me odiaria. Ela jamais me perdoaria por fazer o que eu estava pensando em fazer.
Minha visão se embaçou por um momento. Eu queria protegê-la de tudo isso. Eu queria que ela fosse minha parceira, alguém que pudesse ficar ao meu lado, não alguém que fosse tratada como um pedaço de carne, uma ferramenta para propósitos que nem sequer envolviam o que ela desejava. Ela merecia tanto mais do que isso. Ela merecia um amor verdadeiro, algo que fosse construído pela confiança, pelo entendimento, não por esse desejo impessoal e egoísta que todos ao seu redor pareciam ter por ela.
Com um grito silencioso para mim mesmo, me afastei da janela. Não podia ficar ali mais tempo. Eu sabia o que precisava fazer.
Minha mansão estava a algumas quadras dali, e eu me apressei para lá. Não havia mais tempo para hesitar. Eu precisava encontrar uma maneira de quebrar a ligação entre Dália e eu, de encontrar uma forma de afastá-la dos sentimentos de nojo e medo que a estavam consumindo. Mas como? Eu sabia que o vínculo que criamos, o sangue, era algo que poucos podiam entender completamente. Eu precisava de uma resposta, e o único lugar onde eu sabia que poderia encontrar uma resposta era com meu pai, Viktor.
Quando entrei em minha casa, Viktor estava em sua poltrona de sempre, observando o fogo na lareira. Ele estava tranquilo, como se não houvesse nada de errado no mundo, mas eu sabia que ele sabia o que estava acontecendo. Ele sempre soubera.
— Pai, — eu disse, com a raiva ainda latente em minha voz, — tem alguma coisa que quebre a ligação entre alguém que bebeu o sangue de um vampiro?
Ele levantou os olhos devagar, como se estivesse esperando por isso.
— A ligação... com a filha do Aleric? — Viktor perguntou, sua voz baixa e precisa.
Eu senti um gelo percorrer minhas veias. Era exatamente isso. Eu sabia que a resposta estava em algum lugar, e que ele poderia me ajudar, mas o que ele dissesse agora teria um peso ainda maior.
— Sim, — respondi, com a raiva se transformando em algo mais sombrio. — Eu dei meu sangue a ela para que se recuperasse, mas agora ela está sendo pressionada pela família dela. Eles a colocam contra seres sobrenaturais a todo momento, e eu consigo sentir o nojo que ela sente de mim. Ela acha que estou usando ela como uma incubadora, e não sabe o que fazer com isso. Eu não posso deixá-la se perder dessa forma.
Viktor me observou com um olhar que parecia avaliar cada palavra que eu dizia. Ele se recostou na poltrona, seus olhos fixos em mim com uma intensidade que me fez sentir como se eu estivesse sendo analisado, sondado.
— Eu tenho um remédio. — Ele disse de forma simples, sem emoção. — Está no armário. Tem uma coloração azul. Basta entregá-lo a ela e pedir para beber. A ligação será quebrada. A destinação desaparecerá.
Eu fiquei ali, sem palavras por um momento, absorvendo o que ele acabara de dizer. Quebre a ligação. Ela não teria mais que carregar essa conexão comigo, com o sangue que eu lhe dei. Ela poderia seguir em frente. Ela seria livre.
Mas havia algo mais, algo que eu ainda não entendia completamente. Eu não sabia se queria que ela se afastasse completamente de mim, se eu queria que ela seguisse um caminho diferente do meu. Eu sabia o que ela queria, mas o que eu queria? Eu queria que ela fosse minha parceira. Mas será que ela ainda queria isso depois de tudo?
Eu estava dividido. Queria protegê-la, mas não sabia o que isso significava. Queria que ela fosse feliz, mas não tinha ideia do que isso implicaria para nós dois.
— Como você conseguiu conquistar minha mãe, pai? — Eu não sabia o que me fez perguntar isso, mas senti que precisava saber.
Viktor soltou uma risada baixa, um sorriso surgindo em seus lábios enquanto ele lembrava do passado.
— Eu lutei, Lucien. Lutei muito. Sua mãe queria arrancar meu coração, mas eu não desisti. Ela foi dura, implacável. Não acreditava em nada que eu oferecia, mas com o tempo, ela começou a me ouvir. Ela não queria ser transformada, sabia o que isso significava, então ela saiu do clã de caçadores. Aí, nós ficamos juntos. Você nasceu, mas ela nunca quis ser como eu, nunca quis ser vampira. Ela adoeceu, e eu tive que assistir a isso acontecer. Foi difícil, muito difícil. Eu perdi a pessoa que amava, e sei o quanto você sente falta da sua mãe, Lucien. Eu sei o que é perder alguém que amamos, e sei o quanto isso dói.
Aquelas palavras atingiram-me com força, mais do que eu esperava. Eu olhei para ele, compreendendo algo que não havia entendido antes. Ele havia sofrido. Ele havia perdido algo que amava, e isso o havia moldado de uma maneira que eu ainda não conseguia entender completamente.
Mas agora, eu estava diante de uma decisão que definirá meu próprio futuro. Eu precisava escolher o que fazer com Dália, com o que ela queria, e com o que eu queria para nós dois.
E aquela escolha, eu sabia, não seria fácil.