Dália
Aquelas palavras de Fenrir ainda ressoavam em minha mente, me atormentando como uma sombra persistente. Eu tentei afastá-las, mas quanto mais eu pensava sobre o que ele me disse, mais as dúvidas se acumulavam. Algo estava errado. Eu não conseguia entender, mas precisava de respostas. Eu sabia que minha família estava escondendo algo de mim, e agora eu não poderia mais ignorar a sensação de que havia algo muito maior em jogo.
Eu entrei no salão principal da casa com passos firmes, mas meu coração estava acelerado. A atmosfera estava tensa, como se eles soubessem que algo estava prestes a acontecer, algo que poderia mudar tudo. Meu pai, Aleric, estava sentado em uma cadeira imponente, observando alguns papéis com uma expressão séria. Minha mãe, Saphira, estava perto dele, suas mãos sobre a mesa, de um modo que parecia estar aguardando minha chegada. Kieran estava deitado em um sofá próximo, aparentemente alheio, mas eu sabia que ele estava me observando atentamente.
Era hora de eu fazer as perguntas que precisava fazer.
Minha mãe foi a primeira a levantar os olhos para mim. Ela parecia preocupada, mas sua expressão era controlada, como sempre. Ela nunca mostrava suas emoções com facilidade. Aleric também levantou os olhos de seus papéis, mas seu olhar era mais duro, como se estivesse esperando por algo.
Eu respirei fundo antes de falar, minha voz calma, mas com uma determinação que me surpreendeu.
— Eu preciso de respostas. — As palavras saíram mais fortes do que eu imaginava, e todos na sala me olharam com atenção. — Eu sei que estão me escondendo algo, e eu não vou mais ignorar. Não sobre Lucien. Não sobre o que Fenrir me disse. Sobre tudo.
Aleric franziu a testa, e Saphira deu um suspiro silencioso, como se já soubesse o que estava por vir.
— O que Fenrir te disse, Dália? — A voz de meu pai estava grave, mas havia uma tensão que me deixou ainda mais desconfortável.
Eu não ia perder tempo com rodeios. Eu precisava saber a verdade.
— Ele me falou sobre linhagens especiais, sobre como o sangue de caçadora como o meu atrai vampiros e lobisomens. Ele disse que eu sou um alvo, não por causa do meu sangue, mas por ser mulher. — Eu dei uma pausa, tentando ver a reação deles, mas nenhum deles parecia surpreso. Isso só aumentava minha sensação de que eles sabiam mais do que estavam me dizendo. — Ele também falou que a linhagem de caçadores como eu pode aguentar uma gestação sobrenatural. E que isso é o que eles desejam. Meus pais, minha família, sabem disso?
Eu podia ver a tensão na expressão de Aleric. Ele me observava com um olhar difícil de decifrar. Saphira, por sua vez, não dizia nada, mas seus olhos estavam firmes em mim, como se ela estivesse se preparando para algo.
Foi Kieran quem falou primeiro, sua voz baixa, mas com uma dureza que eu não estava esperando.
— O que Fenrir disse não está totalmente errado, Dália. — Ele se levantou e se aproximou de mim, seus olhos fixos nos meus, sem hesitação. — Mas ele não te contou tudo.
Eu senti meu peito apertar. O que mais estavam escondendo de mim? O que eles ainda não tinham me contado?
Aleric se levantou então, seus olhos fixos nos meus com uma seriedade que me fez sentir uma pressão crescente. Ele era o líder da nossa família, o pilar que sustentava tudo, mas naquele momento, parecia distante, quase intocável.
— Não é sobre o que você é, Dália. — Aleric falou com uma calma que só aumentou a gravidade das suas palavras. — O que é importante é o que você carrega dentro de você. A linhagem de caçadores como a sua, as mulheres da nossa família, são diferentes. Elas são capazes de carregar uma gestação sobrenatural. Isso faz de você um alvo, porque, enquanto os vampiros e lobisomens não podem gerar descendentes da maneira como seres humanos fazem, eles podem criar vida através de seres como você.
Eu sentia que estava começando a entender, mas não completamente.
— Então, o que eles querem de mim? — Perguntei, a raiva e a frustração tornando minha voz mais firme do que eu queria. — Por que meu sangue é tão importante?
Saphira suspirou profundamente, como se estivesse prestes a revelar algo que ela temia.
— Eles não querem seu sangue, Dália. O que eles querem é sua capacidade de carregar a vida de um ser sobrenatural. — A voz dela estava suave, mas havia uma dureza na forma como ela disse aquilo. — O que Fenrir disse sobre você ser mulher e ser especial… ele estava falando sobre sua capacidade de gerar descendentes de vampiros e lobisomens. Não é o sangue em si que os atrai, mas o que você pode oferecer a eles.
Eu fiquei paralisada. Não podia acreditar no que estava ouvindo. A sensação de ser tratada como uma máquina de reprodução era algo tão humilhante e confuso que eu não sabia como reagir.
— Então, eu sou… só um meio para eles? — A raiva se acumulava em minha garganta, mas tentei manter o controle. — Sou apenas uma incubadora para os vampiros e lobisomens?
Kieran se aproximou mais, agora com uma expressão mais suave, mas ainda cheia de preocupação.
— Não é isso, Dália. — Ele falou com a voz mais baixa, tentando suavizar a dureza das palavras que tínhamos ouvido. — Não somos os únicos caçadores com esse tipo de linhagem. Existem outras famílias, outras mulheres, que têm a mesma capacidade. Não somos especiais, Dália, apenas diferentes. E é isso que atrai vampiros e lobisomens. A capacidade de gerar descendentes, de carregar vida sobrenatural, é algo raro. E os seres como Lucien ou Fenrir, eles querem isso. Não você. Não o que você representa. Apenas o que pode gerar.
Eu estava tentando processar tudo, tentando juntar as peças do quebra-cabeça que não se encaixavam de forma alguma. Minha mente estava sobrecarregada, minha cabeça girava com as informações, e eu não sabia se estava começando a entender ou se apenas estava me afundando em mais dúvidas.
— E Lucien? Ele… o que ele quer de mim, então? — Perguntei, agora com uma sensação de vazio crescendo dentro de mim.
Aleric deu um passo à frente, seus olhos fixos nos meus.
— Lucien é um príncipe dos vampiros. Ele é uma das maiores ameaças que nossa linhagem já enfrentou. E ele sabe o que você é capaz de fazer. Ele não está interessado em você, Dália. Está interessado no que você pode gerar.
Saphira me olhou com um pesar nos olhos.
— Não é fácil lidar com isso. Nunca foi. Nós tentamos te proteger, te manter longe disso, mas é impossível. O que você carrega em suas veias é algo que muitos desejam, algo que, por muito tempo, tentamos manter em segredo. — Ela fez uma pausa, como se estivesse se preparando para o que diria a seguir. — O pior é que, quando você é jovem, você não percebe isso, mas conforme você cresce, o peso de carregar essa linhagem só aumenta. E os vampiros e lobisomens sabem disso. E agora, Lucien, Fenrir, e outros, vão tentar tirar proveito disso.
Eu estava em choque. Cada palavra parecia me empurrar para uma realidade que eu nunca imaginei. Eu não sabia o que sentir. Raiva, confusão, medo… tudo se misturava dentro de mim, criando um turbilhão de emoções.
— Então, o que eu faço agora? — Minha voz saiu baixa, quase sem esperança. — Como eu lido com isso?
Aleric olhou para mim com seriedade, e suas palavras foram diretas, duras.
— Você precisa ser forte, Dália. Precisa entender que o que você é atrai perigo. E agora, mais do que nunca, você precisa se proteger. Não importa o que aconteça, você não pode ceder. Nunca.