Lucien
Eu não esperava que isso fosse acontecer.
Eu estava consciente do que estava fazendo, sabia das consequências, mas algo em mim parecia não conseguir se controlar quando se tratava dela. Dália. Ela havia bebido o meu sangue, e agora, algo estava diferente. Eu não sabia explicar direito, mas eu sentia. Não fisicamente, como se fosse parte de mim, mas havia uma conexão. Ela me sentia, de alguma forma. Talvez fosse o efeito do vínculo de sangue, algo que ninguém, nem mesmo eu, sabia como gerenciar completamente.
Não era só o poder que o sangue de vampiro conferia. Era o que vinha com ele, o peso, a responsabilidade. Quando alguém bebe de nós, algo se altera entre as duas partes. Eu sabia disso, mas o que eu não esperava era que a sensação de estar tão perto dela, mesmo à distância, fosse tão intensa.
Era um vínculo, mas era também uma maldição, algo que não poderia ser quebrado facilmente. O sangue dela estava agora em minhas veias de alguma forma. Eu poderia sentir o que ela sentia, como se ela estivesse lá, dentro de mim. Mas o oposto não era verdadeiro - pelo menos, eu não tinha certeza. Ela não sabia o que estava acontecendo, e eu não sabia se era algo que ela desejava, mas isso não mudava o fato de que as linhas entre nós estavam emaranhadas, e por mais que eu tentasse me afastar, o chamado dela era quase impossível de ignorar.
Eu sabia o que ela pensava. Ela provavelmente acreditava que tudo o que eu queria era usá-la. E, de certo modo, ela tinha razão. Eu não deveria ter dado meu sangue a ela. Mas, ao mesmo tempo, não podia ignorar a sensação de que estava fazendo o que precisava ser feito. Que estava levando-a a algo maior.
Eu estava me preparando para ir atrás dela. Eu sabia que ela tentaria fugir. Fugir daquilo que havia acontecido, fugir do que estava surgindo entre nós. Mas o sangue já estava em suas veias, e o que aconteceu não poderia ser desfeito. Talvez fosse egoísmo da minha parte, mas eu não queria deixá-la ir. Não depois de tudo. Não depois de ela ter feito o que fez.
A sensação de vê-la em outro lugar, em outro momento, me atingia como um golpe. Eu sentia cada respiração dela, cada movimento, como se estivesse ao meu lado. Não era só uma intuição, não era só o pensamento comum de alguém que se preocupa com outra pessoa. Era como se ela estivesse me puxando, como se o sangue que ela havia ingerido tivesse conectado nossas almas de uma maneira que eu não podia compreender totalmente.
Mas a questão era que eu não sabia se isso a afetava da mesma forma. Ela estava tão longe, tão distante. Eu sabia que ela sentia algo, mas não sabia o quanto ela estava disposta a se entregar. E, enquanto isso, eu começava a questionar se, ao ter oferecido meu sangue a ela, eu a havia amarrado a mim de uma maneira que eu não poderia desfazer.
Eu estava me aproximando dela, quase sem querer. Eu sabia que ela estava na floresta, um lugar onde ela costumava ir para escapar dos olhares e da pressão. O que eu não esperava era a intensidade com que o desejo de vê-la me consumia. Eu queria vê-la, precisava ver se ela estava bem. Precisava entender o que ela sentia.
E, finalmente, a encontrei. Ela estava sentada sobre uma pedra, os olhos fixos na distância, como se estivesse fugindo do mundo. Não fiz barulho quando me aproximei. Sabia que ela me sentiria antes de me ver. O vínculo de sangue não era apenas algo que me conectava a ela fisicamente. Era mais do que isso. Era como se uma parte de mim estivesse sempre com ela.
Quando ela me olhou, eu vi o que já esperava. Uma mistura de desconfiança e raiva, como se ela estivesse tentando manter uma distância, mas ao mesmo tempo não pudesse deixar de me notar. Não era só a sua força que me atraía, mas algo mais, algo que eu não sabia explicar.
- O que você quer agora? - ela disse com uma voz fria e calculada, tentando esconder qualquer emoção.
Eu respirei fundo antes de responder. Não podia ser impulsivo. Ela precisava de tempo, mas eu também precisava de respostas. Não poderia continuar com isso, com a sensação de que ela estava se afastando de mim sem motivo algum.
- Eu não quero te assustar, Dália. Só quero conversar. - minha voz saiu mais suave do que eu pretendia.
Ela arqueou uma sobrancelha, desconfiada, como se estivesse esperando o momento certo para fugir. Eu podia sentir que ela queria se afastar, que estava lutando contra algo que não podia entender.
- Eu não preciso da sua compaixão, Lucien. O que você fez foi um erro. Não posso ser sua... sua marionete. - as palavras saíram secas, como se ela estivesse tentando se convencer de algo.
Eu dei um passo à frente, mais cauteloso, não queria pressioná-la. A distância entre nós era um reflexo do que ela estava tentando esconder. Mas não era o suficiente para esconder o que sentia. O sangue de vampiro corria agora nas veias dela, e eu sabia que isso a afetava mais do que ela queria admitir.
- Eu não te vejo assim. Eu nunca quis que você fosse minha marionete. Não foi isso o que aconteceu. O que você sente agora é... o que está acontecendo entre nós. - eu pausei, observando a confusão nos olhos dela. - O sangue que você bebeu... Ele cria um vínculo. E, mesmo que você tente fugir disso, nós estamos ligados. Eu posso sentir o que você sente, Dália.
Eu podia ver o desconforto nela. Ela estava lutando contra algo maior do que ela, e isso a deixava furiosa.
- Eu não pedi por isso. Eu não pedi para você me dar seu sangue! - ela gritou, a raiva tomando conta de sua voz. - Eu não sou uma vampira, e não quero ser! Isso não é o que eu sou! Não vou me deixar ser controlada por você, Lucien!
Eu a observava, sentindo cada palavra que ela dizia como uma facada. Ela estava com medo. Medo de algo que não podia controlar. Mas eu sabia que ela estava enganada sobre muitas coisas. Não era sobre controle. Era sobre algo que nós dois precisávamos aprender a entender.
- Eu sei que não pedi por isso, mas aconteceu. E não podemos voltar atrás. Não é sobre controle. É sobre algo que vai além de nós dois. - minha voz saiu mais grave, mais sombria. - E, se você continuar lutando contra isso, vai acabar se machucando. Não estou aqui para te controlar, Dália. Eu só quero que você entenda o que está acontecendo.
Ela me encarou, a raiva em seus olhos se misturando com a confusão. Eu podia ver que ela estava tentando processar tudo o que estava acontecendo, tentando entender o que aquele sangue significava, e como ele nos conectava.
Mas, no fundo, eu sabia. Ela já sabia. Ela só não queria admitir.
Eu dei um passo mais perto, o silêncio entre nós pesado como um manto, e, finalmente, murmurei:
- O que eu estou dizendo é... Eu não sou seu inimigo. Não sou o que você pensa que sou. E se você me permitir, eu vou estar aqui, sempre.
Ela não disse nada, mas o olhar dela dizia tudo.