Dália
Eu não podia sair de casa.
A ordem foi clara — e definitiva. Meu pai tinha praticamente trancado todas as portas atrás de mim depois da última conversa. Ele não disse o motivo com todas as letras, mas estava óbvio: ele tinha medo que eu fosse atrás de Lucien.
Como se eu fosse estúpida o suficiente para fazer isso.
Claro, eu sabia que o sangue de Lucien estava agora circulando dentro de mim. Eu sentia isso a cada batida do meu coração, a cada arrepio estranho na minha pele. Mas isso não significava que eu tinha intenção de permitir que ele me mordesse.
Eu não queria me tornar uma vampira.
Eu jamais permitiria isso.
Mas agora, além de estar presa em casa como uma prisioneira, também estava sendo vigiada como uma criança irresponsável.
Eles realmente acham que eu deixaria Lucien me morder?
Estava começando a me sufocar.
Eu precisava sair.
Então, sem pensar muito, peguei meu casaco, saí pela porta dos fundos e segui em direção à floresta.
Ninguém me viu — pelo menos foi o que eu pensei.
O ar gelado da floresta me fez tremer um pouco, mas o frescor era bem-vindo. As folhas farfalhavam sob meus pés enquanto eu seguia por um caminho que eu já conhecia bem demais. A floresta sempre foi o meu refúgio, o lugar onde eu podia pensar sem que ninguém me julgasse.
Eu me joguei sobre uma pedra coberta de musgo, soltando um suspiro irritado.
Eles estão exagerando.
Eu não sou uma i****a.
Eu não vou me transformar.
— Parece frustrada.
Meu corpo inteiro ficou rígido ao som da voz.
Eu me virei, os olhos se arregalando ao ver a figura alta e esguia encostada contra uma árvore próxima.
Cabelos brancos como a neve, olhos azuis intensos e um sorriso afiado.
— Fenrir? — Minha voz saiu hesitante.
Ele deu um passo à frente, o sorriso só aumentando.
— Achei você pelo cheiro.
Eu franzi o cenho.
— Cheiro?
Ele inclinou a cabeça, os olhos azuis se estreitando em curiosidade.
— Está cheirando a vampiro.
Meu estômago se contraiu.
— Isso é impossível.
Fenrir riu.
— Não, não é. — Ele disse, com uma leve risada na voz. — E não é qualquer vampiro… É Lucien, não é?
Meus olhos se arregalaram.
— Como você sabe disso?
— Todo mundo conhece Lucien. — Fenrir disse, casual. — Ele é o principezinho da cidade. O herdeiro de Viktor.
Eu franzi o cenho.
— Viktor?
— O rei dos vampiros. — Fenrir respondeu. — Você realmente não sabe nada sobre ele, não é?
Eu mordi o lábio, desconfortável.
— Eu não ligo para política entre vampiros.
— Não deveria. — Ele riu. — Mas o fato de Lucien ter dado o próprio sangue para você… isso é um problema.
Eu o encarei.
— Você já brigou com Lucien?
Fenrir sorriu de lado.
— Algumas vezes. — Ele disse. — Por território, por bobagens… ele é irritante. Sempre foi o queridinho do pai.
Eu respirei fundo.
— Não entendo por que ele fez isso. Por que ele me deu o sangue?
Fenrir ergueu uma sobrancelha.
— Talvez ele esteja interessado em formar uma família.
Eu o encarei como se ele tivesse acabado de enlouquecer.
— Formar uma família? — Eu ri, nervosa. — Eu não vou me casar com Lucien.
Fenrir balançou a cabeça.
— Não estou falando de casamento. — Ele disse, os olhos azuis brilhando com um misto de diversão e seriedade. — Você realmente não sabe?
— Saber o quê?
— Certas linhagens humanas são as únicas capazes de gerar vampiros. — Ele explicou, a voz calma, como se estivesse falando de algo simples. — Os vampiros podem transformar humanos, mas esses transformados sempre serão de sangue inferior. Apenas nascimentos diretos garantem sangue puro.
Eu franzi o cenho, sentindo meu coração bater mais rápido.
— Está dizendo que… vampiros podem se reproduzir com humanos?
— Com humanos específicos. — Ele enfatizou. — Linhagens especiais.
— E minha família é uma dessas linhagens?
Fenrir sorriu de lado.
— Não é óbvio?
Eu me levantei, o coração disparado.
— Por isso… ele me deu o sangue?
Fenrir deu de ombros.
— Vampiros de linhagem pura só podem se reproduzir com humanos que compartilham essa natureza híbrida. Você provavelmente é descendente de caçadores que têm sangue misturado com alguma criatura antiga.
Minha mente girava.
— Então, minha família já sabia disso?
Fenrir estreitou os olhos.
— Eu diria que sim. — Ele disse. — Seu pai com certeza sabe.
Minha respiração ficou presa na garganta.
— Isso explica por que meu pai ficou tão furioso.
— Sim. — Fenrir sorriu, afiado. — Porque agora você é valiosa para Lucien.
Eu estremeci.
— Não é como se eu fosse permitir que ele me mordesse.
— Espero que não. — Fenrir disse, o tom brincalhão desaparecendo. — Mas se ele morder… você vai se transformar.
Eu respirei fundo, tentando manter o controle.
— Lucien não faria isso.
Fenrir riu.
— Você realmente acredita nisso?
Eu o encarei com raiva.
— Eu não o conheço tão bem, mas não acho que ele faria isso sem minha permissão.
Fenrir deu um passo à frente, os olhos azuis ficando mais intensos.
— E você não sabia que Lucien é filho de uma caçadora?
Eu congelei.
— O quê?
— A mãe dele era humana. Uma caçadora. — Fenrir explicou, casual. — Uma caçadora de uma linhagem próxima à sua.
Eu cambaleei um passo para trás, minha mente girando.
— Não pode ser.
— Pode sim. — Fenrir disse. — A mãe dele é uma parente distante da sua família.
Meu coração martelava tão forte que eu conseguia ouvi-lo nos ouvidos.
— Então… eu e Lucien somos…
— Compatíveis. — Fenrir disse, o sorriso sombrio voltando. — É por isso que ele te deu o sangue. E é por isso que seu pai está desesperado para mantê-la longe dele.
Eu passei a mão pelo rosto, tentando organizar as peças em minha mente.
— Então Lucien… ele quer…
— Talvez ele só queira te proteger. — Fenrir disse, a voz mais baixa. — Ou talvez ele queira algo mais.
Eu o encarei, minha respiração curta.
— Eu não vou permitir que ele me transforme.
— Espero que você realmente tenha escolha. — Fenrir disse, os olhos azuis brilhando.
Eu me virei para ir embora, mas Fenrir falou novamente:
— Ah, Dália…
Eu parei, sem me virar.
— Sim?
— Lucien pode não querer te transformar agora. Mas se você continuar sentindo o que ele sente… esse vínculo vai se tornar mais forte. E um dia, você pode não ter escolha.
Eu saí da floresta sem olhar para trás, o coração batendo forte.
Porque eu sabia que ele estava certo.