Capítulo 16

1224 Palavras
Capítulo 16 – Laços de Sangue A manhã chegou rápido demais. Eu estava deitada na cama, os olhos fixos no teto, sentindo meu coração bater em um ritmo estranho. Minha mente ainda estava girando com os eventos da noite passada — o gosto do sangue de Lucien ainda pairava na minha língua, doce e quente, mesmo depois de horas. Mas o pior não era o sabor. O pior era a sensação que eu não conseguia afastar. Eu conseguia sentir Lucien. Eu não sabia como descrever isso, mas ele estava ali — em algum lugar na minha mente, ou talvez na minha pele. Uma presença constante, como se eu pudesse sentir cada movimento dele, cada mudança em seu humor. Eu fechei os olhos. Calma. Concentre-se. O problema era que, quanto mais eu tentava me acalmar, mais eu sentia. Era como se eu pudesse ouvir o ritmo suave da respiração dele, o peso de seus pensamentos. E o pior… era reconfortante. Eu me forcei a me levantar, mesmo que minha cabeça estivesse girando. O calor do sol da manhã atravessava a janela, iluminando o quarto com uma luz dourada suave. Eu respirei fundo, sentindo o ar encher meus pulmões sem nenhuma dor. Nenhuma dor. O corte na minha barriga… já não estava lá. Eu fui até o espelho. Levantei a camisa, observando meu reflexo. Minha pele estava completamente lisa, sem nenhum sinal do ferimento que tinha me deixado entre a vida e a morte. A imagem de Lucien sorrindo voltou à minha mente. "Beba." Eu balancei a cabeça, afastando o pensamento. Eu só preciso fingir que ainda estou machucada. Eles não precisam saber. Eu peguei algumas faixas de tecido e enrolei em volta da minha barriga, cobrindo a pele perfeita por baixo. Depois me vesti com um moletom largo e desci as escadas com cautela. A sala de jantar estava silenciosa demais. Meu pai, Aleric, estava sentado à mesa, lendo um jornal, enquanto minha mãe, Saphira, preparava algo na cozinha. Kieran, meu irmão, estava escorado contra a parede, os braços cruzados, o olhar frio. — Como você está se sentindo? — minha mãe perguntou, lançando-me um olhar preocupado. — Melhor. — respondi, tentando soar fraca, como se ainda estivesse me recuperando. Aleric ergueu os olhos do jornal, observando-me por um instante. Seu olhar era afiado demais, analisando cada detalhe meu como se procurasse algo escondido. — Tem certeza? — Ele perguntou. — Você parece… bem demais para alguém que quase morreu há dois dias. Eu me forcei a dar um sorriso fraco. — Só estou tentando ser forte. Kieran soltou um som de desdém. — Forte demais, você quer dizer. — Ele disse, os olhos se estreitando. Aleric fechou o jornal com força. — Dália. — Sua voz ficou fria. — Tire isso. Eu congelei. — O quê? — As bandagens. — Ele ordenou. Meu coração disparou. — Eu ainda estou machucada, pai… — Tire. — Ele repetiu, a voz mais dura agora. Minha mãe olhou para ele com um brilho de preocupação nos olhos. Eu fiquei imóvel, o ar ficando pesado ao meu redor. Aleric levantou-se, andando em minha direção com passos firmes. Ele agarrou a bainha do meu moletom e puxou para cima, arrancando as bandagens com força. Eu soltei um suspiro trêmulo quando minha pele ficou exposta. Pele lisa. Sem nenhum sinal de ferida. O silêncio foi esmagador. — Como? — Aleric perguntou, a voz baixa e mortal. — Como isso é possível? Eu abri a boca, mas nada saiu. Os olhos dele se estreitaram, um brilho perigoso neles. — Fale. — Ele exigiu. Eu engoli em seco, sentindo minha garganta secar. — Eu… — minha voz falhou. — Eu tomei sangue de vampiro. O silêncio foi cortado como uma faca. Minha mãe deixou cair o prato que estava segurando. Kieran se afastou da parede, o olhar cheio de descrença e… nojo. — O quê? — Aleric sibilou. — Eu… — Minha voz saiu baixa, como se eu quisesse desaparecer. — Ele disse que ajudaria a me curar. — Ele? — Kieran perguntou, a voz carregada de veneno. — Quem exatamente? Eu mantive minha boca fechada. — Dália. — Minha mãe deu um passo à frente, a voz mais suave. — De quem era o sangue? Eu senti meu coração batendo forte, o gosto do sangue de Lucien ainda na minha língua. Eu fechei os olhos. — Lucien. — Eu sussurrei. — Claro que era Lucien. — Aleric disse com uma risada sombria. — Se ele te deu um vestido, era óbvio que ele queria algo em troca. Eu o encarei, confusa. — O que você quer dizer? Aleric deu um passo à frente, os olhos duros e frios. — Você está transando com ele? Eu senti meu rosto ficar quente. — O quê?! — Minha voz ficou mais alta. — Não! Eu nunca faria isso com um vampiro! — Não parece o que está acontecendo. — Kieran murmurou. Aleric se aproximou mais, o rosto severo. — Escute com atenção, Dália. — Ele disse, o tom de voz carregado de ameaça. — O sangue dele agora está no seu corpo. Se você permitir que ele te morda… Minha respiração ficou presa na garganta. — Se ele te morder… vai ativar a transformação. — Ele continuou. — E se isso acontecer, eu mesmo vou te m***r. Eu congelei. — Pai… — minha voz saiu em um fio de ar. — Você ouviu bem o que eu disse. — Ele repetiu. Meu corpo ficou rígido, um arrepio percorrendo minha espinha. Eu olhei para ele, esperando alguma hesitação em suas palavras, alguma suavidade. Não havia nada. Apenas determinação fria. — Isso não vai acontecer. — A voz de minha mãe cortou o ar. Eu me virei para ela, surpresa com a firmeza em seu tom. Minha mãe caminhou até nós, colocando-se entre mim e meu pai. — Pare com isso agora. — Ela disse, os olhos duros. — Ela não vai se transformar. Lucien não vai mordê-la. — Você não pode ter certeza disso. — Aleric rosnou. — Ela é nossa filha! — minha mãe retrucou. — E você vai perder nossa filha se continuar agindo assim. O peito de Aleric subia e descia com a respiração pesada. — Então, o que você sugere que façamos? — Ele perguntou, com raiva contida. Minha mãe colocou a mão sobre o próprio ventre. — Primeiro, pare de irritá-la. Ou você quer que eu perca o bebê por causa disso? Sabe que não posso me irritar, e ver vocês brigando não ajuda. O rosto de Aleric ficou tenso. — Isso é diferente. — Não, não é. — Minha mãe o encarou. — Controle-se. Aleric fechou os olhos por um momento, lutando contra a raiva evidente. Então ele deu um passo para trás. — Nós ainda vamos conversar sobre isso. — Ele disse, a voz sombria. — Mais tarde. Ele saiu do cômodo sem dizer mais nada. Kieran lançou um último olhar frio para mim antes de segui-lo. Eu fiquei ali, tremendo, minha respiração curta e rápida. Minha mãe veio até mim, passando a mão no meu cabelo. — Vai ficar tudo bem. — Ela disse, suavemente. Mas eu não tinha certeza se acreditava nisso. Porque agora eu não estava apenas conectada a Lucien… Eu o sentia. E o que me assustava de verdade… Era o quanto isso parecia certo.
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