Dália
A dor ainda latejava sob minhas costelas quando eu me virei na cama, o lençol colando na minha pele devido ao suor. Minha mão deslizou até a faixa de tecido enrolada em minha barriga. O ferimento estava melhor, mas ainda pulsava a cada batida do meu coração.
A escuridão preenchia meu quarto, iluminado apenas pela luz pálida da lua que entrava pelas frestas da janela. Eu deveria estar dormindo, descansando para permitir que meu corpo se recuperasse, mas o sono parecia algo distante.
Eu respirei fundo, fechando os olhos…
Tap, tap, tap.
Meus olhos se abriram.
O som veio novamente. Batidas na janela.
Meus músculos ficaram tensos enquanto meu olhar se movia para o vidro. Por um instante, achei que estivesse imaginando coisas — talvez um galho batendo com o vento.
Mas então eu vi.
Uma silhueta parada do lado de fora, alta e imóvel. Os olhos vermelhos brilhando na escuridão.
Lucien.
Meu coração deu um salto estranho no peito.
Ele estava ali, parado do lado de fora da minha janela, os cabelos pretos despenteados pela brisa, o rosto perfeito como se esculpido em mármore. A luz prateada da lua tocava sua pele pálida, destacando cada traço de sua beleza sobrenatural.
Ele me olhava sem expressão, os olhos vermelhos cravados em mim de um jeito que deveria ter me assustado. Mas eu não sentia medo.
O vidro da janela nos separava. Ele não podia entrar sem ser convidado — essa era a regra. Mas Lucien não era um vampiro qualquer. Ele era um sangue-puro, um vampiro de linhagem antiga. Talvez as regras não se aplicassem a ele.
Eu me movi com dificuldade, o corpo pesado e o ferimento na minha barriga protestando. Eu gemi, rangendo os dentes enquanto me obrigava a sair da cama. Minhas pernas tremiam sob o peso do meu próprio corpo.
Mesmo assim, fui até a janela.
Lucien acompanhou cada passo meu com os olhos. Quando eu abri a trava e puxei a janela para cima, o ar frio da noite entrou no quarto, fazendo os pelos do meu braço se arrepiarem.
Lucien sorriu.
— Você está mais viva do que eu esperava. — Ele disse, a voz suave e carregada com uma nota de diversão.
Eu encarei aqueles olhos vermelhos, minha mão apertando o parapeito da janela para manter o equilíbrio.
— O que você está fazendo aqui? — Minha voz saiu rouca.
— Achei que eu já tivesse deixado isso claro. — O sorriso nos lábios dele aumentou. — Eu gosto de você.
Eu revirei os olhos, sentindo o latejar da dor em minha barriga aumentar.
— Eu não estou exatamente em posição de ouvir cantadas agora. Como você pode ver, estou quase morta. Se você quer ser justo, espere para me caçar outro dia.
Lucien riu, um som baixo e rouco que fez minha pele arrepiar de um jeito que eu não gostei de admitir.
— Eu não vim aqui para te caçar. — Ele ergueu o pulso, estendendo o braço na minha direção. — Eu vim para te ajudar.
Eu franzi o cenho, confusa.
— Ajudar?
Lucien virou o pulso para cima, expondo a pele pálida.
— Beba.
Eu congelei.
— O quê?
Lucien inclinou levemente a cabeça, os olhos brilhando.
— O sangue de um vampiro tem poder de cura. Se você beber, seu ferimento desaparecerá.
Eu olhei para o pulso dele, a ideia me atingindo com força. Meu estômago se revirou.
— Você está brincando, certo? — Minha voz saiu fraca.
— Eu nunca brinco com coisas assim. — Lucien disse, o tom de sua voz ficando mais sério.
Eu balancei a cabeça.
— Mesmo que eu quisesse… eu não tenho presas, Lucien. Eu não sou um vampiro.
— Eu sei. — Ele sorriu de lado. — Mas você tem uma adaga, não tem?
Eu o encarei, incrédula.
— Você está sugerindo que eu corte minha própria mão?
Lucien ergueu uma sobrancelha.
— É só um pequeno corte. Nada comparado ao que você já sofreu antes.
Eu senti a mão deslizar até a bainha da minha adaga, presa à lateral da cama. Meu corpo reagiu instintivamente, mesmo que minha mente gritasse para eu não fazer isso.
— Por que você está fazendo isso? — Eu perguntei, a voz saindo baixa.
Lucien me observou por um momento, os olhos vermelhos queimando na escuridão.
— Porque eu gosto de você. — Ele repetiu. — E eu não quero que você morra.
Meu coração bateu forte contra o peito.
— Você sabe que, se meu pai te vir aqui…
— Ele vai atirar em mim. — Lucien completou. — Sim, eu sei.
— E você está disposto a correr esse risco?
— Sem problemas. — Ele sorriu de novo.
Eu olhei para o pulso dele, depois para o meu ferimento. A dor na minha barriga aumentou, como se quisesse me lembrar que, se eu não aceitasse essa ajuda, poderia levar semanas para me recuperar completamente.
Mas isso era loucura.
Beber o sangue de um vampiro.
Eu já tinha ouvido histórias sobre isso. Como o sangue de um vampiro podia curar ferimentos graves, aumentar a força, dar habilidades temporárias… mas também criava um vínculo. Uma ligação difícil de quebrar.
Lucien percebeu minha hesitação.
— Dália. — Ele disse meu nome com aquela suavidade perigosa que me deixava tonta. — Você vai sobreviver sem isso, mas não será fácil. A escolha é sua.
Eu engoli em seco.
Minha mão deslizou até a adaga presa na lateral da cama. Eu a puxei, sentindo o peso familiar da lâmina em meus dedos.
Eu me aproximei da janela. Lucien ficou imóvel, os olhos fixos em mim.
Eu ergui a adaga e deslizei o fio da lâmina contra sua palma. O corte foi rápido e preciso, o sangue brotando quente contra sua pele.
Lucien se inclinou levemente para frente, o sorriso nos lábios aumentando.
Minha mão tremia quando eu ergui o pulso dele. Eu estava ciente do calor da pele dele, da força escondida sob aquela aparência delicada.
Eu pressionei sua mão sangrando contra o pulso dele.
Os olhos de Lucien brilharam com algo que eu não soube interpretar.
Eu me inclinei, hesitante, e encostei os lábios na pele fria dele.
O gosto do sangue atingiu minha língua no momento em que a primeira gota tocou meus lábios.
Era quente e doce — viciante de um jeito perturbador. Meu corpo reagiu imediatamente. Uma onda de calor se espalhou pelo meu peito, descendo até meu estômago, queimando em minhas veias.
Eu me afastei com um engasgo, minha mão cobrindo a boca.
Lucien observou cada detalhe com um brilho divertido nos olhos.
— E então?
Eu senti o calor irradiar pelo meu corpo, a dor na minha barriga desaparecendo como se nunca tivesse existido. Eu ergui o lençol que cobria meu corpo e puxei a atadura que cobria meu ferimento.
A pele estava perfeita. Sem cicatriz, sem sinal de que eu tinha sido ferida.
Eu encarei Lucien, sem palavras.
— Eu disse que funcionaria. — Ele sorriu.
Eu o encarei com desconfiança, minha respiração ainda acelerada.
— O que você quer em troca?
Lucien inclinou a cabeça de lado, o sorriso se tornando mais suave.
— Nada… por enquanto.
Eu senti um calafrio descer por minha espinha.
— Se meu pai souber disso…
— Então é melhor que ele não saiba. — Lucien disse, e então se afastou um passo, a figura dele começando a se fundir com as sombras.
Antes de desaparecer completamente, ele falou:
— Cuide-se, Dália. Eu ainda tenho planos para você.
E então ele sumiu na noite.
Eu fiquei ali, parada, o coração batendo forte e o gosto do sangue de Lucien ainda nos meus lábios.
Eu deveria me sentir assustada.
Mas o que eu sentia…
Era algo bem mais perigoso.