Dália
Eu caminhava de volta para casa, com o cesto cheio de frutas em uma mão e o cantil de água na outra. O sol já havia desaparecido no horizonte, deixando apenas o brilho fraco do crepúsculo espalhado pelo céu. A floresta ao meu redor mergulhava em sombras, mas meus olhos enxergavam perfeitamente bem, mesmo com a pouca luz.
Eu ainda sentia a presença de Fenrir em minha mente. Seu sorriso, aquele olhar provocador, o tom azul de seus olhos — tudo ainda ecoava em minha cabeça de forma irritante. O que mais me incomodava, porém, era o modo como ele me olhava.
Não com desprezo, como a maioria dos lobos olhava para humanos. Não com superioridade. Ele me olhava como se eu fosse… igual.
Igual.
E Fenrir não era o único.
Os vampiros faziam o mesmo. Bruxas, demônios, até mesmo outras criaturas menores. Eu já havia caçado o suficiente para perceber o padrão. Os sobrenaturais não me viam como uma humana comum — nem mesmo como uma ameaça. Havia algo em mim — em nós, caçadores — que fazia com que eles nos encarassem com cautela, sim, mas também com um certo respeito… e uma estranha familiaridade.
Como se não fôssemos humanos de verdade.
Mas isso não fazia sentido. Meu pai sempre disse que nossa força vinha do treinamento, da disciplina, de séculos de linhagem pura que aprimorava nossa capacidade de caçar. Mas se isso fosse verdade, por que eu conseguia fazer coisas que humanos normais jamais poderiam fazer?
Minha mão apertou o cabo do cesto enquanto minha mente voltava para o que Fenrir disse.
"Até lobos precisam descansar."
Mas eu nunca me cansava de verdade, não tão rápido quanto qualquer humano deveria. Eu podia correr por horas sem perder o fôlego. Podia me curar de cortes profundos em questão de dias — às vezes até horas. Meus reflexos eram mais rápidos, minha visão mais aguçada.
E minha força…
Eu parei no meio da trilha. O som do rio ao longe ecoava nos meus ouvidos, misturado ao som dos grilos e da brisa noturna. Olhei para uma árvore próxima, seu tronco grosso se estendendo alto demais para qualquer humano comum alcançar sem ajuda.
Sem pensar muito, eu larguei o cesto e o cantil no chão.
— Vamos ver até onde isso vai.
Flexionei os joelhos, senti os músculos das pernas se tensionarem — e então saltei.
Meu corpo disparou para cima com uma força assustadora, e por um momento, tudo ficou em silêncio. A sensação de voar pelo ar foi breve, mas intensa — até que meus pés tocaram uma das grossas galhadas da árvore, a pelo menos três metros de altura.
Eu segurei o galho com facilidade, equilibrando-me sem esforço. Meu coração batia rápido — mas não de cansaço. De adrenalina.
Eu saltei de novo, desta vez descendo suavemente e pousando sobre a grama sem fazer barulho.
Eu deveria estar cansada. Minhas pernas deveriam estar queimando. Meu coração deveria estar descontrolado. Mas eu me sentia… bem. Como se não tivesse feito esforço algum.
— Isso… não é normal.
Eu respirei fundo, ainda parada ali, no meio da floresta escura. Meus olhos se voltaram para minhas mãos, para os dedos que não tremiam, para os músculos que não estavam tensos.
Então, por que caçadores são tão diferentes?
O que nós temos que humanos não têm?
Eu sabia que tinha algo na nossa linhagem. Meu pai sempre insistiu que eu deveria encontrar um caçador para constituir família. "É para preservar o sangue", ele dizia. "Para manter o que somos."
Mas o que exatamente somos?
Eu recolhi o cesto e o cantil do chão, tentando controlar a tempestade de pensamentos na minha cabeça. Eu sabia que meu pai escondia algo. Meu irmão também sabia. E o resto do clã… Bem, eles provavelmente também estavam cientes.
Eu me sentia como uma peça deslocada em um quebra-cabeça. Eu fazia parte do clã de caçadores desde o nascimento, fui treinada desde pequena, aprendi tudo o que deveria saber para sobreviver — mas nunca soube o motivo real de por que éramos diferentes.
Minha mãe sempre evitava o assunto. Meu pai sempre dizia que eu não precisava saber mais do que o necessário.
Mas eu sabia que havia mais.
E eu precisava descobrir o que era.
O caminho até a casa foi curto. Quando o portão de madeira surgiu entre as árvores, eu já sentia o cheiro da fumaça da lareira vindo da parte de trás da casa.
Abri o portão com o pé e entrei. A luz das velas iluminava suavemente a sala principal através das janelas. Quando fechei o portão atrás de mim, uma figura surgiu na varanda.
— Você demorou. — A voz de Kieran soou calma, mas o olhar dele estava afiado.
Meu irmão estava encostado contra a coluna da varanda, os braços cruzados sobre o peito. Ele usava uma camisa escura, aberta na gola, e calças de couro. Os cabelos castanhos estavam ligeiramente bagunçados — como sempre — e os olhos dourados brilharam na luz fraca.
— Eu estava pegando água e frutas — respondi, subindo os degraus da varanda.
— Sim. — Ele estreitou os olhos. — E aparentemente decidiu treinar habilidades novas no meio da floresta?
Eu congelei por um segundo.
— Do que você está falando?
Kieran soltou um sorriso sem humor.
— Eu senti você usar sua força. E sua velocidade. Eu sou um caçador, Dália. Eu reconheço quando alguém está testando os próprios limites.
Eu abri a boca para negar — mas parei. Não adiantava mentir para Kieran. Ele me conhecia bem demais.
— E daí? — Dei de ombros. — Você nunca ficou curioso sobre o que somos capazes de fazer?
— É claro que já fiquei. Mas o que você espera encontrar?
— Respostas.
— Cuidado com o que você procura — ele disse, o tom de voz ficando mais sombrio.
Eu franzi o cenho.
— O que isso significa?
Kieran me encarou por um longo momento, depois soltou um suspiro irritado.
— Esquece. — Ele balançou a cabeça. — Só… tenta não chamar muita atenção.
— Como se você não estivesse curioso também.
— Eu estou. — Ele estreitou os olhos. — Mas isso não quer dizer que seja seguro buscar respostas.
Ele se afastou, descendo os degraus da varanda. Mas antes de desaparecer na escuridão, ele se virou para mim:
— Pai está te esperando.
Eu senti um arrepio percorrer minha espinha.
Peguei o cesto e entrei em casa. A sala estava silenciosa, a lareira acesa emitindo um brilho dourado suave. Meu pai estava parado diante da lareira, com as mãos cruzadas atrás das costas. Seu cabelo castanho estava preso em um coque simples, e os ombros largos pareciam ainda mais tensos sob o tecido escuro de sua camisa.
Ele virou o rosto em minha direção quando me ouviu entrar.
— Você demorou — disse, a voz baixa e controlada.
— Fui até a cachoeira pegar água. — Coloquei o cesto sobre a mesa. — E algumas frutas.
Ele ficou em silêncio por um tempo, os olhos escuros avaliando cada detalhe em mim.
— Está escondendo algo de mim, Dália?
Eu me mantive firme sob o olhar dele.
— Não.
Ele deu um passo à frente. Eu não me movi.
— Você sabe o que aconteceu com o último caçador que começou a fazer perguntas?
Eu engoli em seco.
— Não.
— Ele desapareceu. — A voz do meu pai se tornou mais sombria. — E não foi por acaso.
Eu mantive o olhar fixo no dele.
— Se eu não fizer perguntas, vou acabar desaparecendo de qualquer forma.
O rosto do meu pai ficou ainda mais sério.
— Você não sabe o que está arriscando, Dália.
— Então me diga.
Os olhos dele brilharam por um instante. Então ele deu um passo atrás, o rosto voltando à neutralidade controlada de sempre.
— É melhor você descansar.
Ele se virou em direção à lareira, deixando-me ali, sozinha — com mais perguntas do que antes.