Capítulo 13

1220 Palavras
Dália Eu saí de casa logo ao amanhecer, irritada. O céu ainda estava pintado em tons de laranja suave, o ar fresco da manhã envolvendo meu corpo enquanto eu caminhava pela trilha que levava até a cidade. Minhas botas faziam um som seco contra a terra, o ritmo acelerado refletindo a raiva que pulsava em minhas veias. Eu não conseguia parar de pensar na conversa com meu pai na noite anterior — e no olhar tenso de Kieran antes de ele se afastar. Você não sabe o que está arriscando, Dália. Claro que não sei. Porque ninguém me conta nada. Eles dizem que os caçadores têm uma linhagem pura, que é por isso que somos mais rápidos, mais fortes, mais resistentes. Mas e daí? Humanos normais não saltam três metros de altura. Humanos normais não têm sentidos tão aguçados a ponto de ouvir o som de uma gota d’água caindo a metros de distância. Humanos normais não se curam em questão de horas de cortes profundos — e eu sabia que meu corpo fazia isso. E agora eu deveria simplesmente aceitar que meu pai e meu irmão sabem a verdade — mas eu, não. — Porque sou uma mulher? — murmurei, apertando os punhos. Era a única explicação lógica. Kieran é só um ano mais velho que eu — e ele sabe. Eles devem achar que eu sou fraca demais, vulnerável demais para lidar com a verdade. Mas eu não sou mais uma criança que aceita tudo de cabeça baixa. Eu já enfrentei vampiros, lobos e demônios desde que tinha idade suficiente para segurar uma espada. Já matei, já sangrei, já vi o pior que o mundo tem a oferecer — e sobrevivi. E eles acham que eu não aguentaria ouvir a verdade? Meus passos se tornaram mais firmes quando entrei na cidade. Era um lugar simples, formado por ruas de pedra, com construções antigas de madeira escura e telhados inclinados. Pessoas andavam pelas calçadas, algumas carregando cestas de pão ou garrafas de vinho. Algumas crianças corriam rindo por entre as casas. Eu vi alguns vampiros também, mas eram poucos. Antigamente, vampiros só saíam à noite — o sol queimava suas peles, tornando impossível para eles ficarem expostos por muito tempo. Mas nos últimos anos, algo mudou. Eles desenvolveram resistência à luz solar — talvez alguma mutação. Agora eles podiam andar durante o dia, mesmo que a pele deles ainda fosse sensível. Mas a maioria deles ainda preferia a noite. Era mais seguro. Dois vampiros estavam parados na sombra de uma construção, os olhos estreitos seguindo os humanos que passavam, como predadores estudando suas presas. Eu endureci o olhar para eles. Um deles percebeu e sorriu, revelando os dentes afiados. Vampiros sempre seriam vampiros, no final das contas. Enquanto caminhava pela rua principal, meus pensamentos voltaram ao que eu vinha tentando entender. Por que eu sou diferente? Por que os seres sobrenaturais não me tratam como uma humana? Eles me veem como uma igual — mas por quê? Eu estava tão perdida em meus próprios pensamentos que não percebi a presença até ser tarde demais. — Você parece irritada. Eu congelei. Uma figura alta estava parada ao meu lado, acompanhando meu ritmo de caminhada sem esforço. Ele tinha cabelos pretos, lisos e levemente bagunçados, caindo sobre a testa de maneira despreocupada, e olhos vermelhos profundos, como rubis brilhando sob a luz do sol. Lucien. Eu parei de andar, virando-me lentamente para encará-lo. — O que você quer? — perguntei, tensa. Lucien sorriu, os olhos vermelhos ardendo em um tom inquietante. — Estava na cidade e vi você andando com essa expressão terrível no rosto. Pensei em fazer um favor e ajudar você a melhorar o humor. — E como você planeja fazer isso? — Que tal eu te pagar um café da manhã? — Ele sorriu de forma relaxada, mas seus olhos permaneceram afiados. Eu pisquei, sem entender. — Café da manhã? — Sim. Eu conheço um bom lugar aqui perto. Eu olhei para ele, desconfiada. — Você se esqueceu de que eu sou uma caçadora? Ou está tentando me levar para uma emboscada? O sorriso de Lucien se alargou, revelando as presas. — Se eu quisesse te atacar, Dália, já teria feito isso. A rua está quase vazia, e você está vulnerável. Eu poderia matá-la aqui mesmo, sem testemunhas. Eu me mantive imóvel, minha mão escorregando lentamente em direção à faca presa na minha cintura. Lucien soltou uma risada baixa. — Relaxa. Eu só quero pagar o café da manhã. Eu continuei encarando ele. — Isso é ainda mais assustador que qualquer outra coisa. Lucien parou de sorrir. Seu rosto ficou sério, os olhos vermelhos ganhando um brilho intenso. — Você odeia todos os vampiros, Dália? Eu me encolhi levemente com a pergunta direta. — Eu… — Olhei para ele de relance. — Eu não conheço vampiros bons. E as histórias que contam sobre você não são exatamente favoráveis. Lucien inclinou a cabeça levemente, analisando cada palavra minha. — E o que eu posso fazer para mudar isso? Eu franzi o cenho. — Por que você se importa com o que eu penso? — Porque você é interessante. — Ele deu um passo mais próximo, a aura dele envolvente, sufocante. — Você não é como os outros humanos. Eu consigo sentir isso. Minha respiração acelerou. — Você está errado. Eu sou só uma caçadora. Lucien sorriu de lado. — Então por que você consegue me acompanhar? Por que o seu cheiro não é de humano comum? Por que você não parece ter medo de mim? Minha garganta secou. — Se você está esperando que eu confie em você, Lucien, não vai acontecer. — Não? — Não. Ele estudou meu rosto por um momento, e então deu um passo para trás. — Certo. — Ele ergueu as mãos em rendição. — Ainda assim, o convite para o café da manhã permanece de pé. Eu o encarei. — Você realmente espera que eu saia para um café da manhã com um vampiro? Lucien riu. — Por que não? Eu cruzei os braços. — Isso não é normal. — Nada sobre você ou sobre mim é normal, Dália. — Os olhos dele brilharam. Eu fiquei parada, sentindo meu coração bater rápido. Lucien não era como os outros vampiros. Ele não era agressivo ou ameaçador — pelo menos, não diretamente. Mas havia algo nele que fazia meu instinto de caça se ativar. Ele não parecia perigoso. Mas eu sabia que ele era. Lucien deu um passo para o lado, como se estivesse pronto para se afastar. — Você não precisa dizer sim agora. Eu levantei o queixo. — Quem disse que vou dizer sim em algum momento? — Eu sou paciente. — Ele sorriu de novo, os olhos vermelhos brilhando sob a luz do sol. — Os vampiros têm todo o tempo do mundo, sabe? Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele se afastou, andando calmamente pela rua até desaparecer na multidão. Eu continuei parada ali por um tempo, sentindo meu coração bater forte demais para o meu gosto. Por que ele estava interessado em mim? Por que um vampiro como ele — alguém claramente perigoso e cheio de segredos — queria se aproximar de uma caçadora? E o pior de tudo… Por que parte de mim estava considerando aceitar o convite?
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