Dália
O sol já estava se pondo quando voltei para casa. O céu tinha um tom alaranjado, e o vento frio da floresta fazia os galhos das árvores balançarem suavemente, emitindo um som rítmico que me acompanhava até o portão de madeira da propriedade.
Eu passei os dedos pelo cabelo, ainda sentindo a tensão no meu corpo depois do encontro com Fenrir. Os olhos azuis dele ainda estavam vivos em minha mente, assim como o sorriso predatório que ele me lançou antes de eu ir embora.
Um lobo.
Eu já tinha ouvido histórias sobre alcatéias que viviam em vilas afastadas, mas nunca tinha cruzado o caminho de um alfa antes — e muito menos de um que parecia tão… intrigante.
E Lucien…
Eu ainda não tinha digerido o que ele tinha dito. Ele era filho de Viktor — o vampiro que apareceu na minha porta com um ar de ameaça. A ideia de ter ajudado a filha de um caçador o deixou visivelmente divertido. Lucien me deixou desconfortável, mas ao mesmo tempo… curioso.
Eu entrei em casa, o cheiro de ervas e madeira queimando na lareira preenchendo o ar. Minha mãe estava deitada no sofá com uma manta sobre as pernas. Ela parecia melhor, mas ainda estava pálida.
Kieran estava ao lado dela, segurando uma caneca com algum chá medicinal. Ele olhou para mim assim que entrei, os olhos verdes analisando meu estado.
"Demorou", ele disse, com o tom de sempre — meio protetor, meio irritado.
"Eu estava pegando algumas ervas", respondi, pendurando minha bolsa na cadeira próxima à lareira.
Meu pai estava ao lado da janela, afiando uma lâmina curta com uma pedra de amolar. Ele levantou os olhos para mim assim que ouviu minha voz.
"Pegou o que precisava?" perguntou, a voz firme e controlada como sempre.
"Sim", respondi, me aproximando da lareira.
Alaric abaixou a lâmina, apoiando-a sobre a mesa, e cruzou os braços. "Então por que você parece tão agitada?"
Eu respirei fundo. "Eu encontrei alguém na floresta."
O corpo de meu pai ficou rígido. Kieran ergueu os olhos.
"Quem?" Alaric perguntou, o tom se tornando mais frio.
"Um lobo", respondi.
O silêncio caiu sobre a sala.
"Um lobo?" Meu pai levantou-se, os olhos escurecendo. "Você tem certeza?"
"Sim."
Alaric foi até mim, parando a poucos metros de distância. "Ele te atacou?"
"Não."
"O que ele disse?"
"Ele se apresentou como Fenrir. Disse que era o alfa da alcatéia que vive perto da vila."
Alaric ficou em silêncio por um momento, os olhos estreitos. "Fenrir..."
"Você o conhece?" perguntei.
"Eu conheço o nome. Ele é perigoso."
"Ele não pareceu perigoso", retruquei.
"Você não conhece os lobos como eu conheço, Dália", Alaric respondeu, o tom cortante. "Eles não têm lealdade aos humanos. Fenrir pode ter poupado você hoje, mas isso não significa que ele não vá te m***r amanhã."
"Ele disse que a alcatéia não caça humanos."
Alaric soltou uma risada seca. "Você realmente acredita nisso?"
Eu não respondi.
"Fique longe dele", meu pai ordenou, os olhos penetrantes nos meus. "Não confie em criaturas sobrenaturais, Dália. Eles sempre mentem."
"Como os vampiros?" provoquei.
Alaric franziu a testa. "Sim."
"Sobre isso…"
Meu pai estreitou os olhos.
"Eu também queria te perguntar sobre Lucien."
O rosto de Alaric ficou tenso. "Lucien?"
"Sim. O vampiro que me ajudou quando mamãe passou mal."
"Eu lembro", ele respondeu, o tom agora mais duro.
"Ele é filho de Viktor", eu disse, observando a reação do meu pai.
Alaric ficou em silêncio por um momento. Ele passou a mão pelos cabelos escuros, visivelmente irritado.
"Você sabia disso?" pressionei.
"Sim."
"Por que não me contou?"
"Porque não era importante."
"Não era importante?" Eu me aproximei dele. "O filho de um vampiro que governa essa cidade me ajudou e você acha que não era importante?"
"Lucien é tão perigoso quanto Viktor", Alaric disse, os olhos agora duros. "Não se engane, Dália. Ele só te ajudou porque isso o beneficiava de alguma forma."
"Ele não pediu nada em troca."
"Não ainda."
Eu cruzei os braços. "Quantos anos ele tem?"
Alaric ficou em silêncio por um momento.
"Lucien é jovem para os padrões de um vampiro", ele finalmente respondeu. "Mas para nós, ele é mais velho do que você pode imaginar."
"Quanto?"
"Quase um século."
Minha boca se abriu levemente. "Ele parece ter uns vinte anos."
"Os vampiros envelhecem de maneira diferente", Alaric disse. "Lucien pode parecer jovem, mas ele tem mais tempo de vida do que qualquer um de nós."
Eu mordi o lábio, processando essa informação. "E Viktor?"
Alaric apertou a mandíbula. "Viktor é mais velho que Lucien. Ele é um dos vampiros mais antigos e mais poderosos que ainda existem."
"Então Lucien é um príncipe?" perguntei com um toque de sarcasmo.
Alaric estreitou os olhos. "Em termos de linhagem, sim."
Eu me afastei um pouco, sentindo um arrepio percorrer meu corpo. "Então por que Lucien me ajudou?"
"Talvez ele tenha achado você… interessante", Alaric disse, o tom de voz ficando mais duro. "O que é ainda mais perigoso."
"Eu não pedi para ele se interessar por mim."
"Você acha que isso importa?"
Eu o encarei. "O que você quer dizer?"
"Vampiros têm um senso de posse sobre tudo o que acham interessante", Alaric disse, a voz ficando mais fria. "Se Lucien acha você interessante… ele pode querer te reivindicar."
Eu engoli em seco.
"Isso não vai acontecer", respondi.
Alaric me lançou um olhar penetrante. "Você parece estar se aproximando demais desses monstros, Dália."
"Eu não estou me aproximando de ninguém."
"Você está curiosa sobre eles", ele rebateu. "Isso é o primeiro passo para o fim."
Eu revirei os olhos. "Eu só quero entender o que está acontecendo aqui."
"Você não precisa entender os monstros, Dália. Você só precisa matá-los quando eles se tornarem uma ameaça."
"Você acha que Fenrir e Lucien são uma ameaça?"
"Eu não preciso achá-los uma ameaça", Alaric respondeu. "Eu sei que eles são."
Eu o encarei por um momento. "Você os odeia porque eles são monstros ou porque eles têm mais poder do que nós?"
O olhar de Alaric ficou gelado.
"Eu odeio o que eles fizeram com nossa espécie", ele respondeu. "Nós fomos caçadores uma vez. Nós éramos livres. Agora vivemos como prisioneiros — porque permitimos que eles nos dominassem."
"Eu não quero ser prisioneira", murmurei.
"Então não confie neles", ele disse.
Eu fiquei em silêncio por um momento, depois comecei a me afastar.
"Para onde você vai?" Alaric perguntou.
"Para o meu quarto."
"Fique longe de Lucien e Fenrir", ele disse, o tom cheio de autoridade.
Eu não respondi. Apenas subi as escadas, sentindo o peso das palavras dele enquanto o eco dos meus passos reverberava pelo corredor.
Lucien e Fenrir.
Dois monstros que aparentemente não eram como os outros — ou talvez eu estivesse apenas sendo ingênua.
Mas de uma coisa eu tinha certeza: eu não ia ficar longe deles.