Dália
A manhã estava fria e úmida quando eu saí de casa. O cheiro de terra molhada da floresta era forte, e o som dos galhos estalando sob os meus pés me fazia prestar atenção em cada passo. Depois dos últimos dias, eu precisava de um momento de silêncio — de paz.
Minha mãe estava se recuperando, mas o fato de ela estar grávida tinha mudado tudo. Meu pai e Kieran estavam ainda mais tensos do que o normal, reforçando as defesas da casa e se certificando de que ninguém soubesse sobre a condição dela. A preocupação pairava sobre nós como uma névoa densa.
Então eu fiz o que sempre fazia quando precisava clarear a mente: fui para a floresta.
Eu carregava uma pequena bolsa de couro no ombro, onde guardava algumas ervas que já tinha encontrado pelo caminho. Minha mãe precisava de nutrientes e, mesmo com o médico nos ajudando, eu sabia que algumas ervas medicinais podiam ajudar a fortalecer o sangue dela.
O caminho ficou mais estreito à medida que eu me aprofundava na floresta. Os galhos pendiam como braços esqueléticos acima da minha cabeça, e o som suave de uma cachoeira começou a chegar aos meus ouvidos. Eu sabia que havia uma nascente ali por perto — Kieran e eu costumávamos caçar perto dela quando éramos mais jovens.
Segui o som da água até que a vegetação ficou menos densa e o barulho da cachoeira preencheu o ar. A luz do sol atravessava o topo das árvores, criando reflexos na água clara.
Eu estava prestes a me abaixar para pegar uma raiz que crescia perto das pedras quando um movimento na beira da cachoeira chamou minha atenção.
Eu congelei.
Havia alguém ali.
Um homem.
Ele estava de pé na beira da água, de costas para mim. O sol brilhava em sua pele, destacando os músculos definidos das costas largas e dos braços fortes. Ele não usava camisa, e o tecido preto de suas calças estava dobrado até os joelhos. O cabelo branco, longo e levemente despenteado, caía por suas costas.
Mas o que realmente chamou minha atenção foram os olhos — quando ele se virou levemente para o lado, pude ver o azul cristalino em seu olhar, tão penetrante que me fez prender a respiração.
Um lobo.
Eu reconheceria um lobisomem em qualquer lugar. As roupas de couro simples, as marcas sutis em sua pele, a energia bruta que irradiava dele — tudo nele gritava perigo.
Ele virou-se completamente na minha direção, seus olhos azuis brilhando com uma intensidade predatória.
"Bem", ele disse, a voz profunda e levemente rouca. "O que temos aqui?"
Minha mão foi automaticamente até a faca presa à minha cintura.
Ele deu um sorriso de canto, como se achasse engraçado o meu reflexo de defesa. Ele deu um passo na minha direção, os pés descalços afundando na lama perto da água.
"Uma caçadora", ele constatou, inclinando levemente a cabeça. "Espero que você não esteja aqui para arrumar problemas."
"Não estou", respondi, mantendo minha voz firme. "Só estou procurando algumas ervas."
Ele sorriu de lado, os olhos ainda cravados em mim como se estivesse avaliando cada detalhe do meu corpo, cada movimento, cada batida do meu coração.
"Então você é uma caçadora que coleta ervas? Curioso."
"Eu faço o que for necessário para proteger minha família", retruquei.
Os olhos dele brilharam por um momento, um traço de admiração passando por sua expressão antes de ele dar outro passo em minha direção.
"Você é corajosa", ele disse. "Ou tola."
"Ambos, talvez."
Ele riu, o som baixo e gutural reverberando na floresta. Então, ele inclinou a cabeça levemente para o lado.
"Eu sou Fenrir", disse ele, os olhos ainda fixos em mim. "Alfa da alcatéia que vive nesta floresta."
Eu senti meus músculos ficarem tensos. "Então você governa os lobos daqui."
"De certa forma." Ele cruzou os braços sobre o peito, destacando os músculos nos ombros. "A alcatéia prefere viver longe dos humanos e dos vampiros. Nós não caçamos humanos, se é isso que está se perguntando."
"Deveria acreditar em você?"
Ele ergueu uma sobrancelha, claramente se divertindo com minha desconfiança.
"Você não precisa acreditar", ele disse, os olhos se estreitando ligeiramente. "Mas é verdade."
Eu mantive a mão perto da faca. Ele podia estar dizendo a verdade — ou podia ser apenas um jogo de um predador.
"O que você realmente quer?" perguntei.
Fenrir deu um meio sorriso, os olhos brilhando com uma faísca selvagem. "Apenas observando a nova visitante da floresta. É raro ver caçadores se aventurarem tão longe. Ainda mais caçadoras tão... interessantes."
Eu mantive minha expressão fria, mesmo quando o sangue aqueceu sob minha pele com o tom sugestivo das palavras dele.
"Eu não sou interessante", respondi.
"Discordo."
Meus olhos se estreitaram. "Se você está pensando em me atacar..."
Fenrir soltou uma risada baixa. "Eu não tenho interesse em m***r uma jovem garota tão bonita."
Eu endureci. "Eu não sou indefesa."
"Eu sei", ele respondeu, a voz ganhando um tom mais sério. "Eu sentiria o cheiro do seu medo se você estivesse com medo de mim. Mas você não está, não é?"
Eu não respondi.
Fenrir deu outro passo em minha direção, mas parou a uma distância segura, os olhos azuis fixos nos meus.
"Se eu quisesse te m***r", ele disse calmamente, "você já estaria morta."
"Que reconfortante", retruquei com sarcasmo.
Fenrir sorriu, claramente se divertindo com meu tom.
"Relaxe, caçadora", ele disse, os olhos brilhando de maneira felina. "Se eu quisesse te machucar, já teria feito isso."
Eu respirei fundo, sem desviar o olhar. Ele estava testando minha paciência.
"Vou pegar minhas ervas e ir embora", disse, tentando manter a calma.
"Se precisar de ajuda para encontrar alguma coisa, me avise", ele disse, a voz ganhando um tom descontraído. "Eu conheço cada centímetro desta floresta."
"Eu consigo me virar sozinha", retruquei, abaixando-me para pegar a e**a próxima ao meu pé.
Fenrir riu novamente. "Eu gosto de você, caçadora."
"Ótimo", eu murmurei, guardando a e**a na bolsa.
"Qual é o seu nome?"
Eu olhei para ele. "Dália."
Fenrir inclinou a cabeça. "Um nome delicado para alguém tão afiada."
Eu levantei-me e fiquei de frente para ele. "Vou considerar isso um elogio."
"Foi."
Eu comecei a me afastar em direção à trilha da floresta, sentindo o olhar dele queimando minhas costas.
"Até mais, Dália", Fenrir chamou, sua voz ecoando entre as árvores.
Eu parei por um segundo, depois continuei andando sem olhar para trás.
Quando cheguei na clareira, soltei o ar que não percebi que estava prendendo.
Primeiro Lucien. Agora Fenrir.
A cidade estava começando a se encher de figuras perigosas — e, de alguma forma, eu estava me envolvendo com todas elas.
Eu não sabia o que aquilo significava, mas algo me dizia que minha vida estava prestes a se tornar ainda mais complicada.